Charlot & Eu

Charlot & Eu: #6 (Jose Cruzio)

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“Uma pequena silhueta patética e mal vestida, um chapéu de coco amolgado, umas calças largas, um botão de bigode, uns sapatos enormes e uma bengala pretensiosa”. Falo de Charlot, o vagabundo, uma complexa personagem que é parte patife, parte figura patética, parte herói, parte romântico, parte crítico social, parte cavalheiro, parte poeta, parte sonhador. Este, é o meu Charlot!

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Autor do texto: Jose Cruzio, Docente de Artes, Artista e Fotógrafo

Um texto sobre Charlie Chaplin e o seu eterno vagabundo, Charlot de seu nome, seria a minha resposta a um convite.

É-me  muito redutor  tentar associá-lo somente ao Vagabundo. Do pacato judeu ao histriónico líder, vagamente nazi, no fabuloso “O Grande Ditador”.  O globo terrestre bailando a seu bel prazer no altíssimo  pé direito daquele salão marcou-me. A relatividade das coisas e atos bem como a sua  finitude. Naquelas mãos.

Relembro o Monsieur Verdoux, o “Barba-Azul”. A sedução “embebida” num cinismo negro e em tons grisalhos.

Na ribalta e debaixo das suas luzes, um acabado Calvero e numa sua última performance, cheia de doce e decadente melancolia.

Em Nova Iorque,  como um soberano de um país-“óxia”. Não me lembro de qual dos “’óxias”, de tantos que povoaram vários filmes do cinema americano. Parece-me que esse sufixo tem o seu quê de impressivo sobre vários argumentistas. Nos americanos, sim. Não sei bem mas que parece, parece.

O que retenho dele, de modo mais impressivo, são as suas múltiplas valências na concretização dos filmes.

Como obro na área da fotografia, julgo ser “insuficiente”, a meu ver, como homenagem a uma das minhas companhias cinéfilas no pequeno écran.

Naqueles tempos, vislumbrava as maravilhas de um caixote com um painel de botões dentados. Maravilhas ora aceleradas ora vagarosas e numa escala de cinzentos. Oscilava, consoante a minha vontade, quando estava sozinho, na posse do “segredo” das rodinhas dentadas e das suas afinações! – entre dois canais. Da mesma emissora, se era a única. Algum tempo depois, a suprema maravilha: a cor. As cores cambiantes da imagem em movimento. De luxuriantes a desérticos cenários. Do guarda-roupa deveras impressionante no soberbo Technicolor às cores eighties de séries de ficção. Dos travellings lentos às velocidades warp.

Que dizer?… Que agora tenho um autêntico universo telecomandado e na palma da minha mão?

Nas tardes chuvosas, para além do “Agora Escolha”, apresentado pela  Verinha (Roquette), e depois do compasso de espera ao ver as aventuras de Esteban, Zia, Tao e do condor dourado, imaginava-me em cenas dos filmes de Charlot.

Da corrida ao ouro no meio da neve, a botinha cozida e o prato oscilante, corria na cozinha gritando por um prato de sandes, para o lanche. Imaginava a sandes com a forma de uma bota. Quem espera que diga que tive a mesma experiência gastronómica, que continue à espera. E nem desejo a ninguém tal.

Revejo os filmes com nostalgia dos momentos naquele aconchego. As “Luzes da Cidade” não se comparam a estas da atualidade. Valha-me a memória (e os sacrossantos DVD!) para os revisitar. E o desejo, de vez em quando, para fazer algumas tropelias. Com a fotografia e com os gestos no momento, fazê-lo “reencarnar”.

Chapéu de coco, havia. Mas sendo um candeeiro e tendo eu cabelo algo inflamável, dispensei. Assim, a partir do meu selfie darei  espaço à imaginação de quem ler este texto para  me “completar”.

Charlot & Eu #6

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Obrigado, Jose Cruzio, pela colaboração.

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