Time waits for no one

Time waits for no one: #14 (Zardoz)

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«Time can tear down a building or destroy a woman’s face Hours are like diamonds, don’t let them waste.»

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Zardoz e o cinema de aventura dos anos 70

Em «Zardoz» de John Boorman (1974), o mundo está dividido em duas civilizações: uma selvagem, pouco ou nada civilizada e outra demasiado civilizada e com poderes psíquicos. Este segundo grupo debate-se contra uma praga que contamina os seus membros fazendo com que percam qualquer interesse em viver, tornando-se quase catatónicos. Quando Zed (Sean Connery) – um selvagem do primeiro mundo cuja missão de vida se limita a matar – cruza a fronteira dos dois mundos, este equilíbrio de estratificação de classes fica posto em causa.

«Zardoz» é uma viagem a um futuro que parece exactamente igual ao nosso presente, excepto no Vortex (a terra dos civilizados), onde tudo possui brilho nos seus salões do trono futuristas e jovens que por lá deambulam. Aqui residem os Immortals que não podem nem conseguem morrer. Sempre que o tentam os seus corpos são recuperados pelos poderes místicos do computador que gere o Vortex. Embora não possam morrer, eles podem envelhecer. E quando uma infracção ou crime é cometido, são sentenciados a envelhecer um belo número de anos.

Fora do Vortex sobrevive uma civilização bárbara. São escravos que semeiam a terra e colhem os seus frutos, liderados por mestres sádicos que por vezes cavalgam pelo território assassinando a população que existe em excesso. Zed – o protagonista – é um desses bárbaros. Zed encontra um livro infantil de leitura e aprende a ler sozinho. Ao tomar posse do conhecimento, Zed dá-se conta da injustiça social do seu universo e infiltra-se no Vortex através de Zardoz, a cabeça flutuante, feita de rocha, que controla os campos bárbaros.

No Vortex, Zed é objecto de enorme curiosidade, pois embora os Immortals não tenham a possibilidade de morrer, eles não têm capacidade reprodutora. Ele é vitima de uma curiosidade sexual da parte dos locais, tema que está em foco ao longo de todo o filme. Aliás, Zardoz – a cabeça flutuante – tenta várias vezes convencer os bárbaros de que o sexo é fruto do demónio, e que por sua vez, as armas e a violência são o verdadeiro caminho para a redenção («The Gun is good. The Penis is evil. The Penis shoots Seeds and, and makes new life to poison the Earth with a plague of men, as once it was. But the Gun shoots Death and purifies the Earth of the filth of Brutals»).

«Zardoz» é um processo de auto-indulgência da parte de John Boorman, a quem foi dada total liberdade para concretizar um projecto pessoal, possibilidade que foi conquistada após o seu sucesso «Deliverance – Fim de Semana Alucinante» (1972). É reconhecido o fascínio que Boorman tem pelas histórias que são desligadas de uma realidade credível retratada na maioria dos filmes que conhecemos. Em «Leo The Last» (1970) Boorman traz-nos um Marcello Mastroianni protagonizando um milionário e monarca, último descendente de uma linhagem real, que vive numa mansão localizada numa rua deserta numa Londres estranhamente transformada.

O realizador dota «Zardoz» de conceitos demasiado importantes e influentes no dia-a-dia da sociedade, sem nunca se saber se esses mesmos conceitos estão ou não a ser levados a sério. A aparência e figurino particular de Connery (cabelo comprido em trança, bigode, tanga vermelha e botas altas), a tentativa de excitar Zed com um género de pornografia futurista e o sem-fim de efeitos especiais mais ou menos ridículos e aparatosos dão ao filme um sentido de gozo e comédia que não se sabe ser propositado ou vitima de uma filosofia de produção demasiado datada.

Ao longo de todo o filme, a expressão de Connery parece ser a de confusão. Enquanto que no inicio do filme a sua personagem aparenta ser um bárbaro com um comportamento ingénuo e infantil, após aprender a ler torna-se numa espécie de génio musculado que se infiltra no Vortex, decifra a sua sabedoria e todo o seu poder, serve de estímulo sexual para os Apathetics e tem um relacionamento com uma Immortal.

A comparação é certamente extrema. No entanto, como em «O Último Ano em Marienbad» (1961) de Alain Resnais, «Zardoz» é um filme de difícil compreensão e absorção. Ambos pertencem a um género de cinema mais pessoal do que autoral. Identificamos neles os conceitos que dissecam embora o sentido que tomam nos seja difícil de alcançar. São filmes- conceito, filmes-filosofia, que tentam – uns melhor, outros pior – atingir um elevado grau de reflexão através da ficção.

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Próxima publicação (18 de junho): «Os 20 anos de ‘Speed’ (1994)»

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