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O EQUÍVOCO

Primeiro, eram os teus braços a enlaçar-me o corpo. Eu lembro-me.
Depois, a minha mão pousava no teu ombro e éramos eternos entre a multidão.
Tive a certeza disso naquela noite, naquele bar, mas podia ter sido noutro sítio qualquer.
Contigo, Paris parecia sempre tão perto que acreditei que a música tocaria sempre ao nosso ritmo e tudo o que existia tinha sido feito só para nós. Seguiríamos amanhã, ou no dia a seguir, com o futuro todo à nossa frente. Tudo era possível. Não havia espaço para dúvidas porque todos os sonhos do mundo estavam ali, cintilantes, nos teus olhos: os dias longos de Verão, as noites quentes sem fantasmas, os lugares por descobrir, os beijos sem pressa e o tempo inteiro, infinito nas nossas mãos.

Mas agora não.
Agora somos apenas mais uns, presos a esta máquina que nos diz como viver, afinal iguais a toda a gente. Agora os dias vão e outros vêm, o sol ergue-se e a chuva cai e depois o sol ergue-se e a chuva cai. Não sei como será em Paris. Vejo a vida pela janela e ela acena-me.
Tenho pressa de ir com ela mas tu não podes: só amanhã, ou no dia a seguir, já sem tanto futuro à nossa frente. Procuro os teus olhos onde sempre os encontrei, mas está escuro e não os vejo. Onde estás? Onde estou?

Não há como fugir: corpos dormentes, ficámos a ver os outros dançar e nada nos distingue. Não foi diferente connosco nem conquistámos o mundo.
Diz-me: em que sonho tive um sonho igual ao teu?
Agora, os teus braços pendem-te dos ombros e na ponta dos teus dedos já nem sempre existe o meu corpo. Há outras coisas, eu sei. É a vida, tinham-nos dito.

A minha mão treme sobre o cinzeiro, onde tudo – como tudo – se desfaz em pó.
Vejo o teu carro a afastar-se da janela e o cigarro que me arde entre os dedos é tudo o que em mim ainda respira.

Não tarda, vai apagar-se.
Já se apagou.

Inside Cinema #6

* a partir do filme “Revolutionary Road”, de Sam Mendes

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