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O INFERNO

Alguém desapareceu. Uma mulher, dizem.
Desapareceu e eu tenho de a encontrar.
Neste inferno de água e névoa, desapareceu, assim, sem deixar rasto.
Lembra-te alguma coisa? Claro! Água… Fogo… O fogo consome, a água engole: tira-se
à sorte, sem saber em qual ficar. De qualquer modo, todos desaparecem. No fim, o que
resta são fantasmas. Fecho os olhos e os corpos permanecem no chão, amontoados,
quietos e deitados, a olhar para mim sem expressão. Acho que estão mortos. Quem foi?
Aproximo-me mas não posso fazer nada.

O que me vale és tu. Tu, que entre os meus fantasmas és o mais belo e o que mais amo.
Tu, que ardes nos meus braços e anseias que te salve. Eu vou. Prometo! Entrarei sem medo
onde me esperam e só de lá sairei com a tua paz – e quem sabe, a tua seja a minha paz…

Afinal, quem nunca sentiu o asfixiar do nó na garganta? Uns desfazem-se num momento,
outros duram a vida inteira. Cada manhã, antes de eu sair de casa, beijavas-me e
compunhas a minha gravata. Se, então, eu soubesse que a cada retoque construías a minha
forca, talvez ainda fôssemos a tempo… Agora, o chão vai-me fugindo e este nó não
se desfaz.

Pedes que te deixe, não quero que partas.
Já quase não respiro mas, enquanto existires, saberei também que ainda estou vivo.
Sossega, talvez em breve tudo se apague e eu esqueça.

O que será pior?
Viver lembrado ou viver esquecido?
Podes ir.

Água. Fogo.
Alguém desapareceu e eu tenho de encontrar-me.

Inside Cinema #7

* a partir do filme “Shutter Island”, de Martin Scorsese

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