Terça-feira foi dia de antestreia, desta feita do novo filme de Benoît Jacquot, “Diário de uma criada de quarto”, uma adaptação do livro homónimo de 1900 escrito por Octave Mirbeau. Antes de Jacquot, já Renoir, em 1946, e Buñuel, em 1964, se tinham aventurado com duas versões bem distintas da obra de Mirbeau. Em 2015 foi a vez de Jacquot, conhecido pelos filmes “Adeus Minha Rainha”, “3 Coeurs” e “À Tout de Suite” pegar no clássico da literatura francesa.

O resultado não foi muito entusiasmante, não é que o filme de Jaquot seja mau, não o é, certamente, mas há algo na sua forma de filmar que parece por vezes desajustado ou excessivo, como os zoom-in lentos. Não é caso, contudo, dos recorrentes travellings nos quais a câmara segue atrás de Celéstine e nós vemos a cena over the shoulder que, apesar de pouco usuais nos filmes de época, ajudam a transmitir a sensação de diário, tal como os apartes que a personagem diz entre dentes e a “monotonia” de grande parte da acção. E nesse sentido o filme é bem conseguido pois sentimos realmente que estamos não só a acompanhar o dia-a-dia de alguém, como tudo no filme, em cada uma das cenas, se refere, de uma maneira ou de outra, à protagonista; o filme não se limita a depender de Célestine, o filme é Célestine que surge aqui como uma espécie de heroína da classe trabalhadora contra os abusos e a perversão das classes mais altas. Mas afinal quem é Célestine? Célestine é uma jovem e bela criada de quarto, impertinente e com mau feitio que, sem que se saiba porquê, nunca é capaz de aguentar quase tempo nenhum nas casas onde trabalha. O filme começa com a colocação de Célestine numa nova casa, desta feita fora de Paris, algo que para não variar, não agrada nada à jovem criada que, não tendo outra alternativa, vê-se obrigada a partir para a província. Na sua nova casa Célestine depara-se com uma patroa insuportável e um patrão que tem tanto de simpático como de atrevido, tendo fama de engravidar todas as criadas que passam pela sua casa, além de Marianne, a cozinheira, e o jardineiro Joseph, um homem misterioso e rude mas que é tido como muito honesto e dedicado à sua senhora, Madame Lanlaire.

O filme de Jacquot não tem um clímax, um momento que determine toda a acção, apesar de ter um desfecho. Mas é precisamente essa ausência de clímax que permite que as personagens e tenham tempo para, aos poucos, irem revelando quem são na verdade. Consequentemente, o espectador tem, também ele, oportunidade para desconstruir a imagem que inicialmente criou das personagens. E nisso o filme de Jacquot é bem-sucedido, devendo-o essencialmente a dois factores: ao elenco (felizmente para nós Marion Cotillard não pôde ficar com o papel de Célestine e deixou-o a Lea Seydoux que o interpreta na perfeição) e à forma (quase, por camadas) como está construído o argumento.

Infelizmente, o filme perde interesse, coerência e torna-se francamente confuso a partir do momento em que temos conhecimento do plano criminoso de Joseph que era tido como alguém honesto, apesar de declaradamente antissemita. Também Célestine, cuja personalidade começávamos a compreender, perde toda a credibilidade enquanto personagem ao envolver-se no plano de Joseph. A própria Madame Lanlaire revela, no final do filme, uma mudança de atitude incompreensível, começando a tratar Célestine com uma adoração e um respeito sem qualquer razão aparente, o que, a juntar a tudo o que já foi dito, é pena, pois deita por terra um filme que tinha potencial para ser algo mais do que aquilo que acaba por ser.

Realização: Benoît Jacquot

Argumento: Benoît Jacquot

Elenco: Léa Seydoux, Vincent Lindon, Clotilde Mollet

França/2015 – Drama

Sinopse: Célestine é uma jovem criada de quarto cortejada pela sua beleza que acaba de chegar à provincia, vinda de Paris, para trabalhar com a familia Lanlaire. Vai evitando os avanços patrão, tem também de lidar com a Senhora Lanlaire, que governa a casa com um punho de ferro. É então que conhece Joseph, um misterioso jardineiro, por quem fica fascinada.

«Diário de Uma Criada de Quarto» – O resultado não é muito entusiasmante
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