Inside Cinema

Inside Cinema #9 (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain)

(Para a Sara)

É noite de Natal. Os presentes já foram abertos e todos regressaram aos doces e sobremesas próprios deste dia. Eu não, fiquei na sala só mais um pouco. Sem contar, olho e vejo-o ali, sossegado sob a árvore iluminada: um envelope de papel espesso e castanho, selado a lacre vermelho com duas letras cravadas – P. N. Sei que é destinado a mim porque o meu nome está lá escrito, do lado direito, seguido pela minha morada. Está tudo certo: rua, número da porta, código postal, cidade, país – não há dúvidas de que quem o enviou quer que seja eu a abri-lo. Um pouco mais afastado, no canto superior esquerdo do envelope – espaço para o remetente –, é com espanto que leio “Pai Natal, Rovaniemi, Lapónia, Círculo Polar Ártico”. Quase não consigo acreditar! Seria uma partida que alguém, escondido a ver-me, estaria a preparar? Toda a gente sabe que o Pai Natal só existe durante algum tempo na nossa infância. Pelo menos os adultos sabem. Afirmam-no com tanta certeza que é impossível, a certa altura, quando crescemos, não acreditar no que eles dizem.

Quando eu era pequena, durante muitos anos, escrevi ao senhor de barbas branquinhas, que na noite de 24 de Dezembro viajava pelo mundo no seu trenó. Sempre achei impressionante como é que, em apenas algumas horas, ele conseguia percorrer cada país e cada casa, sem nunca esquecer ninguém. Um dia vi-o passar. O céu cintilava e, da janela, com o olhar fixo no azul, vi o trenó prateado a sobrevoar o telhado da casa, a alta velocidade. Apontei o rastro que deixou no ar com o meu dedo indicador minúsculo e, algumas horas depois, o Pai Natal entrou na minha casa. Ouviram-se três “Oh! Oh! Oh!” e, pelo buraco da fechadura do quarto, vi-o em segredo a atravessar o corredor, com o seu fato vermelho e o saco às costas. Tinha de se ter cuidado, porque ao mínimo ruído ele podia assustar-se e desaparecer, sem ter tempo de deixar as prendas trazidas de tão longe. Se me lembro assim tão bem, como pode não ter sido verdade?

Olho à volta e não está ninguém. Só eu, um envelope enviado pelo Pai Natal e um pinheiro cheio de estrelas, como aquele céu de há anos atrás. Inspiro e decido-me a abri-lo. Em vinte e quatro Natais que já passaram desde o primeiro, ele nunca me tinha escrito. Porquê agora? Descolo o lacre e uma fita de cetim vermelha pede aos meus dedos que a puxem. É o que faço: lentamente, uma folha dobrada, amarelecida pelo tempo e suficientemente forte para aguentar a volta ao mundo numa só noite, surge de dentro do envelope. Cheira bem, a uma mistura de limão e canela…

Desdobro o papel, que não tem um formato comum, e começo a ler. A letra, perfeitamente desenhada a tinta de aparo azul celeste, é, possivelmente, a mais bonita que já vi. Não tem falhas: as suas curvas oscilam num equilíbrio harmonioso sobre linhas horizontais invisíveis. Percebe-se que não foi feita à pressa, mas sim com todo o cuidado e atenção. É uma imagem encantadora mesmo se não lêssemos o que está escrito. Mas eu li, e li de novo, porque há palavras que nos aquecem o coração. Imagino o Pai Natal, sentado à escrivaninha de madeira, a pensar em cada criança enquanto a sua caneta dança sobre páginas como estas e sinto-me feliz. Acredito na tua magia, Pai Natal. Acredito que a ternura deveria ser a única regra vigente no mundo e que assim seria Natal todos os dias.

Volto a fechar o envelope e guardo-o entre as minhas mãos, que hoje são ligeiramente maiores do que naquela noite em que vi o Pai Natal, sem ele saber. A gratidão que me preenche, contudo, é a mesma em ambas as vezes. De repente, vem-me à memória a imagem de um filme: uma rapariga de casaco vermelho devolve um tesouro antigo a quem, há muitos anos, o julgava ter perdido. Chamava-se Amélie e sabia que, às vezes, a infância cabe toda numa caixa

ou, então, num envelope.

Inside Cinema #9*a partir do lme “Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain”, de Jean-Pierre Jeunet

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