Nota inicial: este artigo faz referência a certos aspectos do filme “A Glória de fazer cinema em Portugal” que podem condicionar a experiência de assistir ao mesmo.

Vivemos uma época onde tudo tem de ser qualificável e quantificável. Parece haver um desconforto patológico perante algo que não encaixe em determinada casinha, e no limite temos sempre a salvação de chamar à coisa de híbrida. Nem carne nem peixe. É assim tão fundamental conhecer a topologia com que classificamos algo para a experienciar na plenitude? E no caso da criação artística, o que pensa disto o autor enquanto artesão? Procura não fugir à ditadura do género, não pensa de todo em tais conceitos, ou procura manter-se à superfície de um totalitarismo classificador? São várias questões e todas sem uma resposta única e certa, vejamos o caso do cinema.

Quando assistimos a um filme de determinado género, seja este comédia, western, terror ou qualquer outro, partimos com um conjunto de expectativas que consciente ou inconscientemente esperamos não serem frustradas. Por exemplo, nas ditas comédias românticas esperamos que o rapaz conheça a rapariga e que estes após maiores ou menores desventuras acabem por ficar juntos. Do mesmo modo, um western pressupõe amiúde a chegada de um estranho (ou o regresso de alguém há muito ausente) que venha resolver uma problema da cidade (ou criá-lo) enquanto simultaneamente ultrapassa um conflito interno. Todos estamos mais ou menos familiarizados com estas e outras designações, e estas tornam-se muito úteis (reconheço) quando os filmes são distribuídos ou na estruturação de um programa de um festival, de outro modo as sessões talvez fossem algo caóticas e desconexas. Mas, saber à partida a casinha em que o filme se enquadra a meu ver limita a experiência do espectador, pois a classificação baliza à partida que tipo de filme espera assistir.

Estou consciente que é uma atitude algo purista, mas para mim tudo se resume a cinema e se aceito a necessidade desta espécie de facilitismo (algo quasi-inerente à condição humana), há duas distinções que repudio veementemente: não compreendo a distinção ente cinema comercial e o dito cinema de autor, e não encontro grande razão para a velha dicotomia ficção versus documentário. Com maior ou menor liberdade de criação todo o cinema tem os seus autores, no meu entendimento varia a intervenção dos produtores (porque os há a maioria da vezes) que pretendem rentabilizar o investimento e precisamente o grau de obediência às topologias tradicionais. O James Cameron não é menos autor que o Bela Tarr, tem é visões diferentes do cinema, e pelos meios onde estão inseridos lutam por questões diferentes e trabalham para proporcionar experiências diferentes. Quanto ao filme ser ficção ou documentário (agrada-me mais a expressão não-ficção) Jacques Ranciére arruma a questão em apenas umas linhas:

A ficção é a construção, por meios artísticos, de um sistema de acções representadas, de formas agregadas, de signos que respondem uns aos outros. Um filme “documentário” não é o oposto de um “filme de ficção”, porque nos mostra imagens saídas da realidade quotidiana ou de documentos de arquivos de acontecimentos confirmados, em vez de empregar actores para interpretar uma história inventada. Não opõe o já dado do real à invenção ficcional. Simplesmente, o real não é, para ele, um efeito a produzir, mas sim um dado a compreender.

Colocando-me do ponto de vista de realizador, pouco me importam estas e quaisquer outras designações pois para mim é tudo uma questão de linguagem, ou talvez de estilo. Quando queremos contar uma história, reflectir sobre determinado assunto, alertar para alguma matéria, tal como na escrita (ou em qualquer forma de comunicação) cabe-nos escolher de que forma queremos articular o discurso, e a decisão passa por aquilo que pensamos ser mais eficaz ou simplesmente porque nos agrada mais. É somente isto. A mim pouco me interessa se o filme é considerado ficção ou documentário, importa-me sim a experiência que posso proporcionar e a eficácia com que passo a minha mensagem. Tomemos como exemplo o filme de Manuel Mozos “A glória de fazer cinema em Portugal”. A obra é-nos apresentada como um documentário em torno da troca de correspondência entre Serpa e José Régio onde abordam a vontade de fazer cinema. No fim, já no genérico, denunciam a própria artimanha alertando para o facto de se tratar de uma obra de ficção. Se soubéssemos à partida que muito do que nos é contado não corresponde inteiramente à verdade teríamos tido a mesma experiência enquanto assistimos ao filme? Não me parece, e penso que Manuel Mozos brilhantemente joga com o facto de o documentário ser por defeito considerado reflexo do real, e um pouco como Orson Welles em “F for Fake”, mostra-nos como a montagem e a designação do género nos faz acreditar em qualquer coisa.