Vadiagem Retiniana

The Doors – A Cerimónia Nunca Acabou, por José Alberto Pinheiro

O Rock ‘n’ Roll sempre foi pródigo em figuras romanescas que pelo génio, tragédia e excesso, se afirmaram enquanto representações simbólicas da angústia adolescente e revolta juvenil do mundo ocidental. No panteão da rebeldia figuram inúmeros avatares, sendo que a elite das elites, no que toca à mitologia popular, se situa no célebre clube dos 27. Cada um dos epitáfios terá ressonância própria de melómano para melómano. Para mim, houve um que cantou mais alto que qualquer outro: James Douglas MorrisonJim, para os amigos.

Quando penso nos The Doors, é inevitável retornar ao meu walkman e à cassete pirata que por muito tempo providenciou a banda sonora para o caminho de casa à escola, de nome emprestado por um outro poeta, um poeta , que não obstante o mérito e profundidade próprios, estava ainda distante de alcançar.

Inevitável também é retornar à histeria das recém adolescentes que com os seus cadernos primorosamente encapados com fotografias do rei lagarto, prestavam tributo a esse eco distante da materialização de um spleen que atravessara décadas e fronteiras para aterrar num Porto que ainda ia tacteando os estranhos anos noventa.

Não tinha nenhum disco original, estavam todos em cassetes refundidas. A internet estava no domínio da ficção científica, havia uma ou outra revista… mas tinha uma arma secreta – um livro sobre Morrison. Foi esse mesmo livro que me permitiu provar a minha teoria a jovens incautas, a quem o filme tinha passado ao lado. Sucedia que as sacerdotisas do rei incorriam no equivoco de adorar a imagem de um actor, Val Kilmer, para ser mais preciso – ao invés da efigie da sua passageira divindade. Caí no erro de emprestar essa arma secreta a uma jovem de cabelos negros e expansivos lábios que adoravam dizer: – Jim.

Nunca mais o vi. Por isso, Francisca – se é assim que realmente te chamas – na hipótese remota de estares a ler esta crónica, ficas a saber que não é tarde para o fazer retornar à procedência.

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Em retrospectiva, não é assim tão estranho que Kilmer tenha usurpado o pedestal do rei lagarto. Além das acentuadas semelhanças, entrara no novo mundo pelo mais privilegiado portal da cultura popular – o cinema.

Foram vários os realizadores tentados pelo potencial da história dos The Doors, contudo o projecto foi cair nas mãos de Oliver Stone, que então já se havia afirmado como um autor maior, nomeadamente através de obras como Platoon (1986) e Wall Street (1987). Consta que chegou a tentar vender a sua ideia ao próprio Morrison, ainda nos anos sessenta.

Se há histórias em que a definição de um protagonista pode ser tarefa árdua e difusa, esta não é uma delas, daí um dos maiores desafios ser precisamente encontrar o actor capaz de trazer Morrison de novo à vida. Depp, Travolta, Gere ou Cruise chegaram a ser nomes em cima da mesa, e até rock stars como Michael Hutchence dos INXS ou Ian Astbury dos The Cult – heredeiro directo e quase clone de Jim. Este ultimo, viria a recusar o papel por discordar do retrato de Morrison traçado por Stone.

Val Kilmer, que até então era um actor por confirmar, tendo como pontos altos da carreira Top Gun (1986) e Willow (1988), foi quem ficou com o papel. Se na altura poderia ser difícil imaginar um Kilmer saído do Willow para interpretar Jim Morrison, em justiça devo dizer que hoje considero que dificilmente se teria encontrado pessoa mais apropriada. Para o facto concorreu em grande medida o extenuante trabalho de pesquisa e dedicação que como não poderia deixar de ser, incluiu horas e horas de ensaios dos temas dos The Doors. Há mesmo quem diga, que a própria banda, após ouvir Kilmer cantar, não o conseguia distinguir do original.

Sintetizar o “mito de uma geração” em filme é um desafio escorregadio, e neste ponto devemos sublinhar a forma como Stone conseguiu usar a música dos The Doors e as palavras de Jim para articular toda a narrativa e conduzir o espectador numa viagem alucinante que parte do deserto da infância em direcção ao deserto de Paris. Poucos são os filmes que conseguiram apropriar-se do poder simbólico dos temas de uma banda da forma que este o concretizou – como elementos de significação que rejeitam liminarmente a função de mero ornamento.

Atrever-se a trabalhar sobre uma personagem tão pervasiva quanto Morrison acarreta sempre enormes riscos, mas no fim de contas, um filme é (ou deveria ser) sempre definido por um ponto de vista do seu realizador, e foi isso mesmo que de forma intrépida Oliver Stone perseguiu.

A obsessão pela morte, a teatralidade enquanto fuga e esconderijo, o fascínio pelo oculto, a negação, alienação, alcoolismo e decadência… o retrato de Morrison é o de um miúdo brilhante, mas assustado, numa história em que o medo – muito medo – leva a melhor. Não será por isso de estranhar as reações negativas que o filme granjeou por parte de muitos fans, que viram neste retrato um olhar pouco abonatório sobre a humanidade do seu deus.

O filme estreava a 1 de Março de 1991, e embora o box office doméstico tenha sido alarmante (34.4 milhões para um filme com o custo de 38), a película veio a usufruir de prestigio e sucesso internacional, contornando facilmente as duras críticas.

De destacar, para além da estrutura e estética do filme, ficam as performances de Kilmer – que aqui atingiu o zénite da sua carreira – Meg Ryan (Pamela) e um discreto, mas digníssimo, Kyle MacLachan no papel de Ray Manzarek. O compositor e teclista dos The Doors – que havia sido colega de Morrisson na licenciatura de cinema da UCLA – foi um dos mais ferozes opositores à visão do realizador, acreditando que o filme não se deveria centrar na figura do cantor, e sim em toda a banda. Este não era o único ponto que o distanciava de Oliver Stone, tendo reiteradamente afirmado que o realizador deturpara por completo a imagem do seu amigo, eliminando o poeta sensível de apurado sentido de humor e colocando os holofotes sobre um bêbado caricatural.

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Os restantes sobreviventes da banda também reprovaram o retrato de Jim.

Se as várias imprecisões históricas, invenções, reinterpretações e amálgamas naturais a qualquer trabalho de ficção, oferecem legítimos argumentos para debate, o mesmo não se passa no que toca ao que este filme fez pelo ressurgimento do interesse global na música dos The Doors e na poesia de Morrison.

Sempre houve uma apurada percepção do poder da teatralidade por parte de Morrison, e ele mesmo criou e propagou inúmeros mitos que se tornaram agentes vivos da sua lenda, não sendo propriamente surpreendente que muitas vezes tenham canibalizado o homem/rei largarto/ mr. Mojo “real”- que permaneceu resguardado e acessível apenas aqueles que partilharam o seu círculo intimo.

São várias as portas por onde podemos espreitar este puzzle de um shaman que tendo aberto uma cerimónia, se despediu do nosso plano a 3 de Julho de 1971, perdido no país dos seus heróis Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud. O vigésimo sexto aniversário que agora se assinala, é um bom pretexto para espreitar pela de Stone.

José Alberto Pinheiro

realizador e professor do ensino superior