Aborrecido e num estado de apatia cerebral quase total, percorria a caixa de entrada do meu email, à procura de qualquer coisa que me revitalizasse os sentidos. Qualquer coisa. Subtitamente, reparei no assunto de um email da MONSTRA 2016 que lia: “Bill Plympton em Lisboa disponível para entrevistas”. Boa, já não é mau! Já é qualquer coisa! Vou preparar umas perguntas inteligentes e deslumbrar o rei da animação indie americana com o meu intelecto. Afinal de contas, vai ser uma conferência, e posso sempre recolher-me na minha cadeira e fingir o anonimato se algo correr mal.

Acontece que Bill chegou cansado da sua viagem, e quando cheguei ao cinema ideal, disseram-me que, afinal, seria antes realizada uma entrevista privada com o realizador porque só apareceram 4 jornalistas e Bill estava cansado. Excelente. Agora teria que falar frente-a-frente com o animador mais alto do mundo e rodeado de jornalistas.

Entrámos para uma sala de convívio mesmo por cima do cinema ideal e eu começei a tentar organizar as minhas perguntas. Nesse momento, o Bill entrou, sentou-se e um dos jornalistas começa a disparar as perguntas que eu queria fazer. Que eu tinha planeado tão eficazmente. Chatice. Bem, pelo menos disse tudo o que tinha a dizer sem comer palavras e sem chafurdar o Bill de saliva. Que seria o que eu teria feito. E tive as respostas de borla.

Das melhores coisas que ele nos contou foi sobre a sua experiência com a Disney e a sua recusa de 1 milhão de dólares.

Quando se negoceia com a Disney não é simplesmente uma questão de polícia bom e polícia mau. É uma questão de polícia mau e anti-cristo. Eu recusei o dinheiro porque não teria a liberdade para prosseguir com o meu trabalho. Eles disseram que teria que ceder todo o meu trabalho, e ideias, seriam donos de tudo o que faria a partir de esse momento. Por isso, recusei.”

O Bill deu-nos um cão de guarda!

O Bill deu-nos um cão de guarda!

Outro momento interessante foi o seu comentário em relação ao seu estilo e ao sucesso da Pixar.

Eu fico contente pelo sucesso da Pixar, mas esses filmes são para miúdos. Eu não quero fazer filmes para miúdos. Além disso, eu não tenho o dinheiro nem equipa para competir com a Pixar. E as minhas ideias são mais sobre a minha vida pessoal – os meus ciúmes,as minhas paixões o meu erotismo. É sobre isso que eu quero fazer filmes.E penso que o público quer ver algo diferente, que não querem ver as mesmas histórias repetidas vezes sem conta.

O meu estilo não é foto-realista. É mais estilizado e tem muitos erros. Eu gosto dos erros porque penso que torna o meu estilo mais interessante. Uma comparação que eu gosto de fazer é que um filme da Disney é como uma orquestra sinfónica, enquanto que os meus filmes são como uma banda de punk-rock – muito cru e cheio de erros.

E quanto ao futuro da animação.

“Graças à internet, existem muitas formas de aceder a filmes de animação independente. Descobrem-se muitos artistas através dela, por isso penso que a animação não está limitada apenas ao circuito comercial e ao 3D. “