Vadiagem Retiniana

The Punisher – Atirar a Matar!, por José Alberto Pinheiro

Anjo vingador, justiceiro, vigilante, herói, anti-herói, psicopata, republicano em ácido… São intermináveis os epítetos passíveis de agregar a Frank Castle, nascido nas páginas da revista do seu primo bem comportado Homem Aranha, fruto da colaboração de Gerry Conway, John Romita e de Stan “The Man” Lee – padrinho de baptismo e inventor extraordinarie de uma gigantesca porção do universo Marvel.

Se a conturbada década de 70 o viu nascer, foram os 80’s que o consolidaram enquanto figura incontornável da casa das ideias. Inicialmente, a personagem foi tida como uma mero adorno, um recurso secundário para encher as páginas dos super heróis de classe A. The Punisher conseguiu contudo obter uma rápida e inesperada popularidade junto dos leitores, muito ficando a dever ao mago Frank Miller, que curiosamente nesse período desenhava a operação de transmutação de outra personagem secundária (Demolidor) em digno par dos seus companheiros do jet-set (Homem Aranha, Capitão America…).

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Em 1986 conquista finalmente o seu espaço próprio, com uma mini-série que impulsiona a aposta da editora numa revista regular em 1987, que duraria nada menos que 104 números (até 1995) e partilharia o auge da popularidade da personagem com as 80 edições de The Punisher War Journal (1988-1995), 16 de The Punisher Magazine (1989-1990), 10 de The Punisher Armory (1990) e 41 de The Punisher War Zone (1992-1995). É muita punição para pouco menos que uma década!

Dependente confesso de Banda Desenhada, cruzei-me com o Justiceiro através das edições brasileiras da Abril que chegavam às nossas bancas. A metodologia do cidadão ressoou na minha mente pré-adolescente. Parecia-me directa, honesta e atrevo-me a especular – uma simplificação necessária do já hiper simplista universo maniqueísta das revistas de super-heróis. Tal como Elvis, Frank Castle era partidário do movimento A little less conversation, a little more action – parecia-me bem.

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Porquê que estas histórias eram tão apelativas? De entre diversos argumentos: dinamismo exacerbado, os maus perdem sempre, os bons também não e a proximidade extrema ao cinema que invadia os clubes de vídeo da altura; os famosos revenge movies, que entre outros ilustres, transformaram Charles Bronson no pior pesadelo da vilanagem anti-americana.

Provavelmente ficaríamos milionários por cada filme da época que conseguíssemos descrever da seguinte forma: mataram a minha família, e eu agora vou-vos matar a todos!

Por breves momentos o Sr. Castle conseguiu destronar o meu dilecto Sr. Wayne nas prioridades de leitura. O seu impacto foi tal que me levou a tentar – do alto da minha pré-adolescencia – ensaiar mais um rip-off do género para adicionar ao cânone, desta feita não na ruas de NY mas na muito mais cool cidade do Porto.

O pai de um dos meus melhores amigos, com quem colaboraria nesta banda desenhada, apanhou uma cópia do meu primeiro draft da história do vigilante, tipo Punisher – mas ainda mais violento. Dias depois o meu companheiro entregava-me o original, imensamente rasurado com sermão a condizer, cortesia do seu pai – advogado de profissão.

Pelos vistos os adultos não partilhavam o nosso entusiasmo…

O ensaio viu a luz do dia anos mais tarde, desenhado por M. Jorge, que se opôs ao nome original de Vigilante (homenagem ao jogo) porque isso era coisa de Securitas. O primeiro acto da tragédia épica viu a luz do dia em 1994, no fanzine Banda Desejada, os restantes ficaram no éter.

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Nos entretantos , o meu irmão mais velho mostra-me uma revista de vídeo que anunciava o lançamento nos clubes de um filme chamado The Punisher. O quê? Será verdade? Só pode ser engano… Altamente!

Quem pagou a factura foi o meu excelso consultor e dono de clube de vídeo, Agostinho, que a partir desse dia teve que ouvir, ao estilo de Bart Simpson, a pergunta insistente: – Já saiu?

Ao fim de um período aparentemente interminável, a VHS lá veio parar ao clube. O filme chamava-se Fúria Silenciosa (1989) e tornou-se tremendamente popular, pelo que apanhar o dito (sim, só havia uma cassete) disponível para aluguer se transformou numa odisseia quase tão tortuosa quanto a espera pelo lançamento.

Escusado será dizer que a expectativa só veio adicionar entusiasmo à recepção do filme. Pelo contexto emocional que descrevo, é certamente complicado garantir a isenção de contágio na opinião que ainda agora guardo: o filme é tremendo e uma das melhores adaptações da banda desenhada para o ecrã, de sempre.

Dolph Lundgren afinal não era loiro, pugilista e soviético, mas um obscuro justiceiro transtornado, que se movia pelos esgotos de Nova Iorque. Apesar de todas as suas limitações enquanto actor, Lundgren consegue entregar uma performance em consonância com as personagem com que me havia familiarizado nas páginas das revistas.

O enredo – tributário do universo de Frank Miller – transporta-nos para esse lugar familiar do Justiceiro dos anos 80, suportado por uma fotografia sensível à atmosfera original e por uma banda sonora que capta na perfeição o zeitgeist que inspirou o fenómeno.

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O filme realizado por Mark Goldblatt foi rodado em Sidney, com um orçamento de 9 milhões de USD, e apesar de o esperar, nunca chegou a estrear nos cinemas nos EUA, tendo sido lançado directamente para vídeo e laserdisc em Junho de 1991.

Não fez capa dos Cahiers du Cinéma e recebeu criticas maioritariamente negativas, contudo mantém ainda hoje o seu estatuto de culto.

Acredito que a forma mais pragmática para desafiar o espectador (amante de bd) a um novo olhar sobre a interpretação de Lundgren é contrastá-la com de Thomas Jane, na versão “limpinha” do tiro no pé que a Marvel deu com The Punisher (2004).

Em 2008, a realizadora Lexi Alexander assina Punisher: War Zone. Partilhando o destino do seu irmão de 1989, o filme recebeu criticas maioritariamente negativas, não obstante a redenção que representa face aos fans de banda desenhada. Ray Stevenson, apesar de longe da neurose de Lundgren, volta a trazer “o” Frank Castle para o grande ecrã. De entre vários pontos que poderia referir, a gestão entre a acção e o humor “mais ou menos” negro, contribui para a divisão da opinião dos fans.

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Em 2016, Frank Castle volta não ao grande mas ao pequeno ecrã, na série Demolidor da Netflix. Da mesma forma que anteriormente Miller tinha chamado os holofotes a esta obscura personagem secundária nas páginas de Daredevil, o ciclo repete-se para esta nova geração, desta feita na tv ou web. Jon Bernthal oferece-nos um retrato adulto – talvez demasiado adulto? – de Frank Castle, enfatizando a perturbação mental de uma personagem que outrora navegara por águas cinzentas de ambiguidade moral.

Apesar de estreada há escassos dias, a série já é aclamada pela presença do herói (anti?) esquecido dos anos 80. Porquê agora?

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Antes de Alan Moore ter problematizado os limites do universo dos super-heróis com a sua seminal pergunta Who Watches The Watchmen?The Punisher (desculpem a incoerência, mas o Justiceiro, em parte de mim continua a ser o Michael Knight – o chapa de A Super Máquina para os meus amigos Brasileiros) insuspeitamente colocava em questão o frágil compasso moral de um mundo feito de super-heróis, onde em batalhas épicas em que cidades eram dizimadas, nunca existia sequer um dano colateral. Será o Punisher a única personagem honesta a figurar neste cânone ou um mero republicano em ácido?

José Alberto Pinheiro

realizador e professor do ensino superior