O Videoclube do Eduardo

O Videoclube do Eduardo – Uma noite com Chantal

Filme em conversa: Toute Une Nuit
Género: Drama
Ano de estreia:1982
Realizadora: Chantal Akerman
Elenco: Aurore Clément, Tchécky Kario, Jan Decleir
País: Bélgica, França

Imaginem-se em Bruxelas. Imaginem-se uma noite de muito calor, um calor insuportável que nos obriga a ficar acordados. Imaginem-se que decidem então ir à janela e de lá conseguem ver toda a vida nocturna do bairro, como a rapariga que decide sair de casa à socapa, o casal de estranhos que se encontra ás altas horas da noite num bar e que se apaixonam sem trocar uma única palavra, a mulher que decide abandonar o marido enquanto ele dorme apenas para acabar de novo em casa a tempo do pequeno-almoço. “Toute Une Nuit” é um filme feito destes e outros fragmentos, é uma espécie de narrativa colectiva escondida que apenas pode ser encontrada nas acções e nos olhares de meia dúzia de desconhecidos espalhados por uma noite de Verão.

Uma noite com Chantal_1

Os vários segmentos de “Toute Une Nuit” aparecem no filme sem qualquer tipo de explicação ou contexto narrativo, salvo raras excepções. No entanto a linha de raciocínio continua sempre presente, por vezes explicita, outras vezes apenas como uma vaga sugestão. Todas as correrias, todos os abraços apaixonados, todos os beijos e canções e seduções; tudo nos obriga a criar as nossas próprias especulações sobre quem são aquelas pessoas, de onde vêm e o que é que procuram antes, durante e depois dos seus pequenos momentos em cena. Há algo de muito relaxante neste filme, sendo talvez esse o motivo que me leve a visita-lo de vez em quando. Há algo de satisfatório em ver um filme que se preocupa mais em mostrar um momento em vez de explica-lo.

Quase todos os segmentos do filme são sobre casais que se separam ou se conhecem, tudo o resto fica por nossa conta.
Quase todos os segmentos do filme são sobre casais que se separam ou se conhecem, tudo o resto fica por nossa conta.

Chantal Akerman desafia a forma em quase todos os seus filmes mas “Toute Une Nuit” é o que eu considero o melhor exemplo para quem quer entrar na sua cinematografia. Não é o seu melhor filme – na minha opinião – mas este é aquele que contém em termos técnicos e temáticos quase todos os pontos que fazem dos filmes da Chantal, os seus filmes. Ela agarra no Cinema e faz dele o que o próprio ás vezes se esquece que é: uma experiência visual. Não uma “experiência” no mesmo sentido em que uma viagem de montanha-russa também o é mas uma experiência onde se podem pegar numa mão-cheia de simples imagens e criar um mundo infinito onde a exposição narrativa e as palavras são substituídos por ideias, emoções, sons e pensamentos divagantes.