Filme em conversa: Pelé: Birth of a Legend
Género: Drama/Desporto
Ano de estreia: 2016
Realizadores: Jeff e Michael Zimbalist
Elenco: Seu Jorge, Vincent D’Onofrio, Kevin de Paula
País: Brasil, Estados Unidos

Não há nada que o Cinema goste mais do que uma história heróica sobre o jovem desfavorecido que se faz lenda através do seu talento e coragem. Mas enquanto algumas destas histórias acabam por se traduzir em filmes clássicos e eternos – a vida de Don Vito Corleone, por exemplo – outras acabam por ser tão olvidáveis que se tornam cómicas, como é o caso de “Pelé: Birth of a Legend”.

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Ás vezes vejo filmes tão bons que não posso esperar até espalhar a palavra de quão bons são, mas neste caso eu sinto a necessidade de seguir o caminho oposto: Eu tenho de partilhar o quão este filme é anedótico.

Em primeiro lugar “Pelé…” é exemplo perfeito dos motivos pelos quais detesto filmes hollywoodianos sobre futebol, ou simplesmente sobre coisas não-americanas: não há envolvimento emocional, não há conhecimento algum sobre o tema a ser discutido e usa todos os clichês dos filmes desportivos americanos mesmo sabendo muito bem que esses clichês não funcionam no futebol. Isto obviamente reflecte-se depois na qualidade do filme e da narrativa que está a tentar impingir-nos.

E falando em narrativa, até a história da “gata borralheira” aqui usada é, no mínimo, hilariante. Sim, é um facto que Pelé é alguém que veio do nada para criar imensa fama e alguma fortuna através do seu talento no futebol e isso merece ser respeitado, mas chamar “respeito” a aquilo que os autores deste filme fizeram com a história da vida do Rei do Futebol é algo digno de ser imediatamente alvo de avaliação psicológica. Todos os clichés estão lá, desde o eterno discurso sobre “nunca vais ter sucesso se não acreditares em ti” e “tens que ser tu mesmo!”, tudo está lá para nos lembrar que o mínimo esforço não foi feito para a escrita deste argumento. Até o grupinho de miúdos é o típico grupo infanto-hollywoodiano dos anos 80:  temos o Gordo, o Caixa-de-Óculos, o Pretinho e o Outro.  Este grupinho mete-se então em todo o tipo de tropelias pelo bairro, causando não só a ira como a diversão dos seus vizinhos e são também, claro, vitimas de bullying por parte dos meninos ricos. – entre os quais está, para grande surpresa do segundo acto: um futuro colega de selecção de Pelé. Chocante!

Mas eles vão ver! A vitima de bullying vai dar um pontapé-de-bicicleta nos preconceitos daqueles que não acreditam nela! …porque o pontapé-de-bicicleta é a única habilidade que o filme conhece.

Mas eles vão ver! A vitima de bullying vai dar um pontapé-de-bicicleta nos preconceitos daqueles que não acreditam nela! …porque o pontapé-de-bicicleta é a única habilidade que o filme conhece.

Tudo soa a caricatura, o que é uma pena. Pelé merecia mais de um filme sobre a sua carreira. Mas em vez de um filme digno temos um filme onde actores brasileiros que não sabem falar inglês são obrigados a falar em inglês. É um mistério como é que ninguem reparou que essa ideia brilhante não funciona. É um mistério ainda maior como alguém decidiu pegar no Vincent D’Onofrio, o único dos actores principais que sabe de facto falar inglês e obriga-lo a falar numa espécie de inglês partido com sotaque abrasileirado. Claramente alguém achou que era mais fácil pôr o actor americano a falar mal do que pôr os actores brasileiros a falar bem. Funciona? Não. É fácil? Talvez. E se vocês estão a pensar sobre como fica a interpretação dos actores num filme onde eles têm que usar toda a sua concentração e todos os seus neurónios para falar numa lingua que claramente não é a deles, deixem que vos diga: o trabalho dos actores sofre. Muito. Este filme é tão desesperante com o inglês sofrido dos actores – porque raio não podem eles simplesmente falar português? – que tive que fazer uma pausa a meio para respirar.

E já que acabaram agora os jogos, sugiro um Diploma Olímpico para o Seu Jorge, a única coisa que não me incomodou neste filme.

E já que acabaram agora os jogos, sugiro um Diploma Olímpico para o Seu Jorge, a única coisa que não me incomodou neste filme.

Enquanto filme de desporto, “Pelé. Birth of a Legend” parece-me um falhanço de inicio ao fim. O argumento é demasiado fraco e é claro que os realizadores do filme pouco ou nada sabem sobre futebol, muito menos sobre as pessoas envolvidas na história que estão a tentar contar. Tudo é tão superficial que me acaba por parecer que cada cena e cada diálogo foram postos ali apenas porque tinha que ser. A tentativa de criar emoção a uma data de eventos reais acaba por parecer desesperada e a tentativa de idealizar a “ginga” torna o filme numa paródia de si próprio. O filme não é ofensivo e muito provavelmente as intenções por detrás da sua criação foram boas, mas como escrevi anteriormente: tanto o futebol como Pelé merecem muito mais do que um filme medíocre que não merece ser visto nem por curiosidade.