A carreira do realizador húngaro, László Nemes é curta, mas já conta com um palmarés admirável. As duas curtas-metragens que filmou, antes desta sua primeira longa-metragem, foram bastante premiadas; uma delas, “The Counterpart” (2008), ganhou o prémio Onda Curta, no Festival IndieLisboa.

A sua primeira longa-metragem, “O filho de Saul” (2015), é um filme que nos traz algo de novo. O realizador quis fugir aos lugares-comuns dos filmes que foram sendo apresentados ao longo dos anos pós-guerra e brindou-nos com uma estética bastante particular. Não usou os cadáveres para chocar o espectador ou para provocar reacções de compaixão instantâneas; sabemos que eles estão lá, mais ou menos desfocados; Nemes tenta esconde-los da nossa vista para que possamos ir acompanhando a epopeia de Saul Ausländer (Géza Röhrig) e nos foquemos nas suas vivências, que o olhemos por dentro, porque se nos concentrarmos nos olhos de Saul, vamos reparar que os cadáveres passam a estar no seu interior.

Saul é um Sonderkommando que tem a função de transportar e queimar cadáveres, arrumar as suas roupas e recolher os seus pertences mais valiosos. Numa das recolhas de cadáveres, nota que uma criança ainda respira, mas que acaba sendo executada mesmo em frente aos seus olhos. A partir deste acontecimento, Saul apenas tem uma missão pela qual vai lutar com todo o seu ser: dar alguma dignidade àquele corpo, tentar arranjar um rabino para as exéquias e enterra-lo. Saul afirma que aquela criança é seu filho, porém, durante o filme ficamos na dúvida se aquela criança será realmente seu filho ou se Saul o tratou como tal. Aqui, reside uma questão ética central: se aquele não é o seu filho, o que levará Saul a arriscar a sua vida para dar alguma dignidade àquele corpo? Emmanuel Levinas, filósofo judeu, contemporâneo, diria que Saul, naquela criança morta, vislumbrou uma alteridade radical, um Rosto, que não é meramente o físico, mas um universal, uma ideia que se torna lei, à qual temos que obedecer incondicionalmente: eis uma responsabilidade absoluta pelo Outro. Não basta o mandamento “Não matarás” que esse rosto impõe, porque, mesmo na morte, esse rosto misterioso e imperativo ainda sobrevive para fazer um último pedido.

Existe uma imagem de Saul que parece nos querer mostrar este acesso a uma transcendência: quando Saul desembrulha o cadáver, depois de o médico o ter escondido, a imagem fica estática durante segundos, a mostrar as costas de Saul e o seu rosto voltado para o cadáver. Esta imagem faz lembrar uma das imagens com mais força que conheço, Pietà de Michelangelo, a Virgem Maria com o cadáver do seu filho nos braços. A imagem é extremamente significativa, pois num lugar onde todos os cadáveres estão privados de braços vivos que os possam acolher e dignificar, Saul faz um gesto que, por mais pequeno que possa parecer, é, talvez, o maior acto de resistência (desarmada) que aquelas paredes de gelo poderiam abarcar.

A forma como Nemes filma é extraordinária; mas, é bom salientar que este filme é a representação de Géza Röhrig – sem menosprezar as restantes performances e claro, a escolha perfeita de László Nemes para aquele papel. Ao focar-se, quase integralmente, na personagem de Saul, no seu rosto – físico e expressivo – e, ao esbater todo o cenário envolvente, faz com que tudo se concentre na expressão facial do actor. O seu semblante frio e grave é a metonímia de todo o horror que o envolve e é através desta sua expressão constante que o final do filme ganha uma energia especial. Saul é duplamente um herói: o herói da narrativa, no seu gesto grandioso para com a criança e o herói estético e expressivo, ao condensar na sua face tudo aquilo que nós apenas vislumbramos por alguns buracos da fechadura: Saul vê todo o horror por nós e nós vemos tudo isso espelhado no rosto de Saul. Dentro do ambiente mais hostil que há memória, Saul é obrigado a denegar, com todas as suas forças, a realidade cruel da função que lhe foi atribuída, e, ao ver-se condenado a uma morte que está cada vez mais próxima, encontra, naquela criança, um último fulgor de resistência e, na sua última percepção e na expressão que lhe segue, uma esperança e uma salvação possível.

O cinema precisa de mais filmes como este, onde vemos surgir um estilo singular, que consegue absorver a expressividade de um actor de uma forma absolutamente única. É com inovação e irreverência que, esta arte que tanto nos apaixona, poderá evoluir e fazer proliferar sentidos novos. De uma forma simples, temos de agradecer a László Nemes por nos ter brindado com este filme, que tem tanto de inovador e inteligente como de sensível, pois não é qualquer um que se aventura a viajar por entre um tema com uma moralidade tão forte e onde as imagens e representações, por vezes, se tornam intoleráveis.

Realização: László Nemes
Argumento: László Nemes, Clara Royer
Elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn
Hungria / 2015 – Drama, Guerra
Sinopse:  Dentro do horror de Auschwitz, em 1944, um prisioneiro que é forçado a queimar cadáveres do seu próprio povo encontra sobrevivência moral ao tentar salvar das chamas o corpo de uma criança que ele toma por seu filho.

«O Filho de Saul» - O rosto ético e o rosto expressivo
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