Críticas, Fora dos Cinemas

«Zeus» – ou o “Dandy que abdicou da presidência da República Portuguesa”

 

No dia 23 de Novembro de 2016, no Teatro Académico Gil Vicente e na 22ª edição dos Caminhos do Cinema Português, ocorreu a estreia nacional da primeira longa-metragem de Paulo Filipe Monteiro, ator e argumentista, que deu o primeiro passo no universo da realização cinematográfica em 2011, com a curta-metragem «Amor Cego».

Com o subtítulo informal de «As Viagens de Teixeira Gomes», Paulo Filipe Monteiro optou por entrelaçar três narrativas distintas em «Zeus»: a primeira, apresenta ao espetador Manuel Teixeira Gomes (Sinde Filipe) nos seus últimos dias enquanto Presidente da Primeira República (1910 – 1926), cargo que ocupava desde 1923 e do qual se demite em 1925, ano em que embarca no cargueiro holandês «Zeus» para a Argélia, no Norte de África, iniciando-se a segunda narração. Mesclado com estes dois momentos da sua biografia, encontra-se um dos seus contos mais afamados, «Maria Adelaide», escrito em 1938, já no seu «autoexílio» argelino na cidade de Bougie.

A estória inicia-se com Manuel Teixeira Gomes, escritor natural de Portimão, como Presidente de um projeto político em decadência, enfadado com o seu cargo, e com a sua oposição a intensificar-se e a servir-se da sua obra enquanto escritor – de uma sensualidade e erotismo que chocava uma sociedade com profundas raízes católicas – para lhe fazer ataques pessoais, citando, inclusive, passagens dos seus livros – que envolviam sumptuosas descrições tanto do corpo feminino como do masculino – em reuniões parlamentares e alimentando o clima de descontentamento que se vivia à época. Apesar do objetivo ser outro, penso que faltou uma contextualização histórica do Portugal dos inícios do século XX mais consistente, por duas razões: primeiramente, este é um período histórico que tem sido descurado tanto pelo cinema como pela televisão portuguesa, e pouco conhecido pelo público em geral – o declínio do governo da Primeira República, a ascensão dos Fascismos em Portugal e a preparação dos militares para o golpe de 28 de Maio de 1926, que levou à Ditadura Militar (1926 – 1928) e que culminaria com a formalização do Estado Novo, com a [Nova] Constituição de 1933 – e, em segundo, porque pressupõe que todos os espetadores são conhecedores da História de Portugal. E o cinema também pode (e deve) ser um instrumento didático de instrução de quem o vê, sem cair em pedantismos.

Quem era Manuel Teixeira Gomes? É a esta questão que «Zeus» se propõe a responder. Teixeira Gomes: um Dandy que trocou o curso de Medicina da Universidade de Coimbra pela boémia de Lisboa. Escreveu livros recheados de erotismo e que chegou à Presidência da República, cargo que o aborreceu terrivelmente e lhe suscitou a vontade de deixar tudo para trás e partir. E assim o fez: retirou-se para o Norte de África, para um exílio voluntarioso, sem ilusões de que Portugal estava à beira de ser tomado pelos militares. Mas esperançoso de voltar a escrever e de viver na total liberdade do anonimato. Sinde Filipe é o farol deste elenco de atores, que ofusca todos os outros, e que representa, magistralmente, todas as lascas da personalidade de Teixeira Gomes, apresentando um indivíduo plural e profundamente humano, com um excelente argumento de Paulo Filipe Monteiro: o presidente que não tinha vontade de o ser, o republicano convicto mas desiludido, o idealista sem ilusões, o poeta da carne e do corpo, o idolatrador dos clássicos, o ateu pagão, o eterno viajante à procura de algo maior do que a própria vida, o homem que só queria ser escritor.

Outra interpretação a salientar deste elenco, é a de Ivo Canelas, no papel de amante e narrador de «Maria Adelaide», com uma raiva energética e erótica e uma desesperação brutais, um personagem que só queria possuir aquele corpo feminino e que se sentia agrilhoado ao seu impulso sexual, do qual não se conseguia libertar. Porém, o modo como este pedaço da bibliografia foi incluído torna-se inacessível ao espetador mais ignorante relativamente à obra literária de Teixeira Gomes, pois, de certo modo, parece confundir-se com uma espécie de memória da sua juventude, sobretudo pela semelhança de caracterização com o protagonista. Outro pormenor comichoso, foi o forçado sotaque algarvio das personagens presentes nesta «Maria Adelaide», que beirou a caricatura.

De destacar, é a opção das cores que acompanham as cenas, que parecem espelhar as próprias emoções de Manuel Teixeira Gomes – tons quentes para a Argélia e Algarve, tons frios para Lisboa – e que se entrelaçam com a sua obra literária, que se demorava pela descrição dos tons, das cores, dos brilhos – em especial as cenas introdutórias, focadas na paisagística argelina são de um brio estético extremo. A fotografia de «Zeus» esteve ao encargo de João Ribeiro, Mário Castanheira e Vasco Viana.

A título de conclusão, Paulo Filipe Monteiro conseguiu um filme interessante, esteticamente e musicalmente agradável e imensamente humano, com uma enorme transparência de emoções e, de um modo geral, com um bom leque de atores e atrizes. Na minha opinião, «Zeus» peca pela omissão de informações históricas que poderiam ser de relevo, e por algumas opções que tornam o filme um pouco encriptado.

zeus-cartaz-novo-low-res1Realização: Paulo Filipe Monteiro
Argumento: Paulo Filipe Monteiro
Elenco: Sinde Filipe, Ivo Canelas, Catarina Luís, Paulo Pires
Portugal/Argélia/2016 – Biografia, História, Drama
Sinopse: Manuel Teixeira Gomes, criado no sul de Portugal, diante do mar, numa cultura muito árabe. No começo do século XX é um talentoso escritor, muito sensual na sua prosa e muito livre nos seus temas quase sempre eróticos. Em 1923 é eleito Presidente da República. O filme começa nesses anos agitados: a ascensão do fascismo é o contexto dramático das iniciativas de Gomes que, apesar das constantes revoltas militares, consegue formar governos reformistas. E, de repente, Gomes parte. Pede a demissão e procura o primeiro barco que sai de Lisboa. É um cargueiro, chama-se Zeus e parte sem um passageiro.