“Freaks” (1932, “A Parada dos Monstros”) é ainda hoje um filme de terror mítico, comovente, perturbador e assustador pelo realismo manifestado no uso de “monstros” verdadeiros. O género cinematográfico de terror imaginou monstros fictícios como Nosferatu, Frankenstein e Drácula, no entanto, em “Freaks”, os monstros são puro produto da natureza.

Realizado por Tod Browning, depois de “Drácula” (1931) e “Iron Man” (1931), “Freaks” é provavelmente o seu melhor filme, a sua obra prima sobre a monstruosidade humana.  Esta é uma história de paixões e vinganças, e de diferenças, passada numa companhia de Circo, em que uma trapezista, Cleópatra (Olga Beclanova), se relaciona com Hércules (Henry Victor), mas ainda assim casa-se com o anão Hans (Harry Earles), para tentar ficar com a sua herança. Cleópatra e Hércules desprezam Hans e tentam envenená-lo, mas o plano corre mal quando são atacados pelos monstros.

Este filme de terror é também um documentário, pois a maior parte do elenco são “monstros”, artistas circenses reais com deformações no corpo humano. Os diálogos são tocantes e a mensagem é profunda. Tod mostra-nos que neste mundo de Cleópatras e Hércules (seres humanos ditos normais, de corpos “esbeltos” ou “perfeitos”) não é neles que reside a humanidade, bondade e respeito pelo outro. Mostra-nos que a monstruosidade reside em todos aqueles que contrariam a humanização, os seus valores e princípios. Os “monstros” são os seres humanos ditos normais e não as figuras deformadas. Este é um filme que expõe, denuncia, o preconceito da aparência, da diferença, a exclusão social, problemáticas que ainda hoje persistem na nossa sociedade.

Em apenas uma hora de duração, Tod mostra-nos a relação que temos com o que normalmente é tido como “feio”, “diferente”. Tecnicamente não é um filme inovador, mas é um dos melhores filmes da história do cinema a denunciar o preconceito. É um filme com um forte conteúdo social, pertinente e atual, que nos choca por mostrar o pior lado da humanidade, o de uma sociedade doente. O resultado final é o de um filme que é preciso ver para acreditar.

“Freaks” é tido como uma raridade no cinema, um filme notável pela ousadia e forte mensagem, de que não devemos julgar uma pessoa pela sua aparência. É o carácter que define a humanidade que reside em cada um de nós. Através do humor negro e da sua profunda mensagem alarmante, o espectador mergulha na mais tortuosa visão do mundo de Tod Browning – “Entre eles, o seu código é uma lei. Ofendam um e ofendem todos.”.

Nota: Este filme integra o Ciclo de Cinema Aberrações

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Ciclo de Cinema Aberrações: “Freaks” (1932) de Tod Browning
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