Críticas, Recuperados

«Tempos Modernos» – A luta contra o capitalismo (80º aniversário)

10 out of 10

Estreado a 5 de fevereiro de 1936, em Nova Iorque, “Tempos Modernos” é ainda nos dias de hoje uma obra corajosa e uma denuncia ao método de produção capitalista. Passaram-se oitenta anos desde a sua estreia e continua a ser um filme de uma atualidade absoluta, uma obra-prima da história do cinema. Um comentário genial à sobrevivência humana no seio da crise capitalista. Chaplin estava no auge da sua carreira, um cineasta único e universal.

“Tempos Modernos” representa um cinema mudo, numa altura em que já não se fazia cinema mudo. O sonoro dominava o cinema à 13 anos, mas Chaplin foi dos últimos resistentes. Produzido pela United Artist, este é um filme quase mudo, sendo que a única parte sonora é uma canção improvisada por Chaplin, composta por sílabas desprovidas de sentido. Os únicos diálogos que ouvimos são proferidos através de máquinas, como o rádio, por exemplo. O primeiro filme de Chaplin totalmente sonoro foi “O Grande Ditador” (1940).

Chaplin viu a depressão, o desespero daqueles que ficaram sem emprego, a fome, as greves. Este filme é uma visão crítica ao processo de industrialização, ao método capitalista e à maquinização do próprio Homem. Os únicos seres vivos no filme são Charlot e a rapariga órfã. Todos os outros são autómatos, não tem tempo para pensar, nem para sofrer. As máquinas pensadas para dar lucro só trazem miséria. A mecanização desenfreada desumanizou o trabalho. São essas as consequências que Chaplin filma e critica de forma brilhante, criativa e divertida. Depressão, desemprego, pobreza, greves, desigualdades económicas e consumismo são alguns dos temas que este filme trata, e são também os problemas do século XX e do século XXI. O que fazem deste filme uma obra-prima sempre atual e pertinente de se estudar.

O filme começa com ovelhas, gado que vai para o matadouro, que são comparadas à entrada de trabalhadores numa fábrica. No meio de todas as ovelhas brancas, há uma ovelha preta. Certamente Charlot é essa ovelha. Este é um filme cheio de imagens que nos transmitem várias ideias, tudo sem diálogos. É provavelmente o filme de Chaplin com imagens mais ricas pelas mensagens e ideias que pretende passar. Muito também por causa dos cenários das fábricas, dos centros comerciais, dos bairros de lata, das ruas, das multidões.

Todo o filme transborda de ironia, até no próprio titulo. Ao longo do filme somos marcados por cenas como: Charlot, o vagabundo, chega a ser confundido por um líder comunista de uma manifestação; imagina a vida perfeita numa casa em que a comida existe em abundância, onde uma vaca está á porta para dar leite e a fruta entra pela janela; patrões compram máquinas para alimentarem os seus trabalhadores para que não se desperdicem esforços, pois tempo é dinheiro; Charlot fica doente com a mecanização do trabalho, o que o faz bailar e sabotar toda a fábrica, chegando ao ponto de entrar dentro da grande máquina.

“Tempos Modernos” é também uma bela história de amor. Desde a forma caricata como se conheceram, por causa do roubo de um pão (a comida é um elemento sempre presente na filmografia de Chaplin), até à ultima cena do filme, quando a rapariga e Charlot partem à procura de uma nova vida, de um novo futuro, sempre com um sorriso de esperança. Os dois são vagabundos e só tem lugar no palco. Ambos lutam contra o capitalismo, contra as desigualdades, o desemprego, contra o sistema que lhes é imposto. Esta é a primeira vez que Charlot não acaba sozinho. Charlot parte com a rapariga. Acabam o filme juntos. É a primeira vez que Chaplin faz um final assim. Paulette Goddard (na altura, casada com o cineasta) é juntamente com Chaplin a grande estrela deste filme. É a primeira vez que uma mulher tem tanto destaque num filme de Chaplin.

Não há desculpas para não conhecer a obra de Chaplin, muito menos não conhecer “Tempos Modernos”. Não se pode compreender o mundo em que vivemos sem estudarmos a história. “Tempos Modernos” faz parte dessa história. Uma das mais geniais sátiras ao maquinismo industrial e às transformações económicas e sociais dos EUA.

Realização: Charles Chaplin
Argumento: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman
EUA/1936 – Drama
Sinopse: Na época da Revolução Industrial, Chaplin trabalha na linha de montagem de uma fábrica com a função repetitiva de apertar parafusos. Isso provoca-lhe uma crise nervosa e é despedido. Depois um longo período num sanatório, sai em busca de trabalho, mas acaba por ser preso ao ser confundido com um agitador comunista.
Devido à falta de emprego, tudo faz para permanecer na prisão. Até que conhece uma jovem órfã que rouba comida para alimentar as irmãs. As irmãs são levadas pela Segurança Social, mas ela consegue escapar vivendo de expedientes. Juntamente com Charlot, vão sobreviver e encontrar emprego em tempos muito conturbados.