Críticas, Recuperados

Ciclo de Cinema Aberrações: “A Noite dos Mortos Vivos” (1968) de George A. Romero

8 out of 10

A década de 1960 é uma época de grandes transformações sociais no mundo, em especial na Europa e nos EUA. John F. Kennedy é assassinado, a guerra do Vietname continuava a ser um massacre para o exército norte-americano, vivia-se a época mais quente da guerra fria, com a crise dos mísseis de Cuba, lutava-se nas ruas pelos direitos civis dos negros e dos homossexuais e em 1968 assistiu-se ao assassinato de Martin Luther King. Nesse mesmo ano estreava “A Noite dos Mortos Vivos” de George A. Romero, um filme independente e de baixo orçamento, que se tornou num filme de culto e que elevou o nível dos filmes de Terror, ditando as regras para os filmes de zombies que se seguiram até hoje, inspirando outros realizadores como Wes Craven, John Carpenter e Dario Argento.

Romero estreou-se nas longas-metragens com este filme de terror de série B, com um estilo realista e quase documental, com um preto e branco granulado e quase amador, dando-lhe uma maior credibilidade. Transformou os filmes de Terror e redesenhou novos comportamentos e aparências dos mortos-vivos. Faz uma reflexão sobre a sociedade americana, em especial a classe média, ao tocar em temas como a desintegração familiar, a questão racial e agitação civil, criando uma sensação de insegurança e desconfiança na sociedade. Esta é uma parábola social do caos humano e da raiva que dominava a sociedade. O filme acaba por se focar mais, não nos mortos-vivos, mas sim nos comportamentos da sociedade, sobretudo do indivíduo, perante esta situação de crise, caos e agitação civil.

A história de um grupo de pessoas que se refugia numa casa de campo isolada, cercados por uma massa de zombies que os querem devorar, é tratada de uma forma simples por Romero, que cria um cenário credível e realista, reduzindo os cenários o máximo possível (a ação decorre praticamente no interior de uma casa), criando assim uma sensação de sufoco ainda maior para aquelas pessoas.

O que torna este filme ainda mais radical, para a sua época, e interessante é o facto de Romero ter introduzido pela primeira vez no cinema um herói negro, que protagoniza o filme num elenco de atores brancos. Com um final pessimista e uma reviravolta inesperada, este é ainda nos dias de hoje um filme fascinante e perturbador de ver, revolucionário e grotesco, que criou um novo ponto de vista sobre os mortos-vivos e o canibalismo e é dos primeiros filmes deste género a fazer uma reflexão sobre alguns dos mais conturbados problemas sociais dos EUA daquela época.

Nota: Este filme integra o Ciclo de Cinema Aberrações