Críticas, Fora dos Cinemas

«ReAlive» – Em busca de um novo fôlego para amar

7 out of 10

“ReAlive” foi o filme vencedor da última edição do célebre Festival Internacional de Cinema Fantástico do Porto – Fantasporto. A realização e o argumento são de Mateo Gil, que apresenta um filme onde subjaz uma questão que todos nós, em algum dia das nossas vidas, já nos colocamos: como seria se, após a nossa morte, fosse possível uma ressurreição do nosso corpo? É esta questão que a personagem principal, Marc (Tom Hughes), vai ensaiar dentro da sua mente, o que faz deste filme uma espécie de reflexão ética sobre a vida e a morte.

Marc é diagnosticado com uma doença que porá fim à sua vida no espaço de, aproximadamente, um ano. Com as possibilidades criadas pela criogenia para uma futura ressurreição, Marc decide preservar o seu corpo até ao dia da sua morte para que o possam fazer renascer, com a maior vitalidade possível, um dia mais tarde. O peso da sua decisão irá provocar uma reacção especial na sua namorada Naomi (Oona Chaplin), que, num primeiro momento, não a aceitará.

O espectador é levado a mergulhar no fluxo de consciência de Marc, numa tentativa de fazer sentir o pulsar do seu pensamento. É na mente do protagonista que o filme decorre e é aí que vamos tendo acesso a uma alma ávida por vida, que quer persistir no mundo e que está pronta a enfrentar a incerteza da sua futura condição enquanto corpo ressuscitado. Porém, a sua decisão acarreta consequências e é na primeira reacção de Naomi que conseguimos ver como só o amor consegue compreender a verdadeira essência da vida. A vida nada é senão o conjunto de relações que estabelecemos, as vizinhanças que criamos, o que quer dizer que toda a materialidade que acumulamos só faz sentido se for partilhada e o nosso desejo ilusório de querer prolongar indefinidamente a vida orgânica é apenas mais uma pequena ganância da nossa vontade, como tantas outras que perfilam o ser que somos e que reflectem na perfeição tão imperfeita conjuntura humana.

Embora a premissa do argumento não contenha nada de muito original, é preciso destacar o potencial reflexivo e filosófico que o filme abarca e a forma como o consegue desenvolver e explorar. Ao nível da imagem, sobressai o contraste entre a infância de Marc e a sua idade adulta: é nas imagens da infância que existe uma quantidade de luz maior, que vem vestir um sorriso puro que não pretende mais da vida do que aquilo que ela tão gentilmente, mas por pouco tempo, lhe concede, a inocência da vontade. É nesta inocência que a vida reluz com mais intensidade, e que dá às nossas memórias a coloração mais intensa, e por isso elas nos acompanham, de forma indelével, o resto das nossas vidas. Marc passa da contemplação de uma paisagem selvagem e livre para dentro de quatro paredes sombrias, onde habita, sobretudo, a artificialidade.  É nestes dois pólos que o filme se vai desenrolando, entre a vida repleta de luz natural, a infância, a amizade, o amor de Naomi e as sombras nascidas do progresso tecnológico que querem uma vida eterna, que em nada difere daquela prometida pela religião, pois ambas são formas reactivas de vida que culminam numa concreta impotência.

Talvez Marc seja apenas um aventureiro e procure uma nova experiência, sabendo que, mesmo depois de ressuscitado, terá sempre a possibilidade de escolher entre permanecer ou não na vida; talvez quisesse ir dar uma olhada num futuro que já não lhe pertence para ver, com os seus próprios olhos, o quão falhada se tornou a busca pela humanidade do homem por entre uma parafernália de instrumentos que intensificam a manipulação de tudo o que existe por uma vontade que já não quer nada mais a não ser a sua máxima pequenez e impotência. Mas, estou certo de que Marc procurou, no meio de toda essa asséptica ruína, um novo fôlego para amar…

Realização: Mateo Gil
Argumento: Mateo Gil
Elenco: Tom Hughes, Charlotte Le Bon, Oona Chaplin
Espanha, Bélgica, França – Ficção científica
Sinopse
: Marc (Tom Hughes) é diagnosticado com uma doença e é-lhe estimado um ano restante de vida. Incapaz de aceitar o seu próprio fim, decide congelar o seu corpo. Seis anos depois, no ano de 2084, ele torna-se o primeiro homem, na história, a ser ressuscitado. Ele descobrirá que o amor da sua vida (Oona Chaplin), acompanhou-o, o tempo inteiro, de uma forma que ele não esperava.