O género Western

O termo “género” significa, segundo o dicionário teórico e crítico do cinema(1), a ideia geral de um grupo de seres ou de objectos com características comuns (tema, estilo, etc). O conceito de género, que é um produto da estrutura económica da produção cinematográfica, surgiu durante o período do sistema de estúdios de Hollywood, ou seja, no cinema “clássico” de Hollywood (nos anos 20 e 30). Cada estúdio especializava-se num género especifico, o que facilitou a sua identificação: Warner Bros. (gangsters), MGM (musicais), Universal (terror), Paramount (comédia) e Columbia (série B).

 

Há vários elementos que caracterizam os géneros, como a sua estrutura narrativa ou um conjunto de cenas obrigatórias que o identificam, como uma canção ou uma dança num musical, uma vingança num western ou uma investigação num policial.

 

O género evoluiu bastante no cinema, foram surgindo novos géneros como as artes marciais, ou a ficção cientifica, e outros foram desaparecendo lentamente, apesar de nenhum se ter extinguido mesmo. Chegou-se a um certo ponto em que as convenções aceites tornaram-se clichés. Por isso muitos destes géneros tradicionais começaram a ser reinterpretados, fundindo-se com outros, criando sub-géneros como a sátira, o western- spaghetti, as séries e as catástrofes.

 

 

A Origem

O western é o “cinema americano por excelência”(2) pois o cinema é movimento, como define o crítico de cinema francês André Bazin. O western não só é o mais antigo dos géneros como é também uma forma de arte nativa da América. Segundo Clint Eastwood o western é única forma de arte originalmente norte-americana, à excepção do Jazz. O western nascido no oeste, o filme de gangsters com origem nas cidades do Leste americano e o musical, originário da Broadway, deram-nos visões fascinantes da cultura e da psique americana.

Historicamente, os westerns passam-se num passado lendário entre 1840 e 1890, situado a oeste do Mississippi, que era a “fronteira” da América do Norte. Como o próprio nome indica “western” significa “ocidental”, referindo-se à fronteira do Oeste Norte-Americano a quando da colonização do continente. Durante estes mais de cinquenta anos de história americana, passamos pela febre do ouro na Califórnia em Dakota, a Guerra Civil Americana, a construção do caminho-de-ferro, as guerras com os índios, a conquista do oeste e as guerras entre os agricultores e os rancheiros ameaçados pela revolução industrial.

 

“As cavalgadas, as lutas, os homens fortes e corajosos numa paisagem de uma austeridade selvagem não poderiam ser suficientes para definir ou resumir o charme do género.”(3) O tipo de personagem bastante comum neste género é o do cowboy solitário (que poderá ser um pistoleiro, um jogador, um xerife ou um vadio). “Shane” (1953), “Por Um Punhado de Dólares” (1964) e “A Desaparecida” (1956) são exemplos clássicos do homem solitário. Clint Eastwood sempre interpretou personagens solitários, de poucas palavras, que vagueiam de cidade em cidade, são um exemplo clássico. Mas também há o contrário, em que são bandos ou grupos de pistoleiros (no mínimo dois) ou são xerifes, ou um exército, e que normalmente tem mais diálogos do que é costume. Exemplos clássicos deste tipo são, “Rio Bravo” (1959), “Os Sete Magníficos” (1960) e “A Quadrilha Selvagem” (1969). Logo aqui podemos distinguir dois tipos de filmes, dois tipos de personagens e dois tipos de actores, que são John Wayne e Clint Eastwood.

Muitos destes elementos estão presentes na literatura, nos populares espectáculos Wild West de “Buffalo Bill” Cody ou na música folk colonial norte-americana do século XIX. O western sofreu algumas influências distantes do romance noir, da literatura policial e das preocupações sociais da época. Muitos romances passados no ocidente da América foram escritos, cuja acção se situava em locais remotos e selvagens, como a Califórnia, Arizona ou Colorado. Estes tipo de literatura caracterizava-se por ter diálogos geralmente curtos, a acção ocupava grande parte da história e com curtas descrições sobre a paisagem. As origens deste género literário podem encontrar-se em James Fenimore Cooper, no seu romance “O Último dos Moicanos” (1896), que nos leva a uma era de colonos e índios na primitiva América do Norte. Escritores como Mark Twain, Owen Wister(4), Louis LʼAmour, entre outros, são alguns exemplos de grandes autores da tradição deste género de literatura popular americana.

 

Oito anos depois de os irmãos Lumiére terem apresentado o cinematógrafo ao público numa sessão privada em Paris, surge o primeiro filme western no cinema, “The Great Train Robbery” (“O Grande Assalto ao Comboio”), realizado por Edwin S. Porter, em 1903. Este filme inaugurou um género que em poucos anos se tornou o mais popular nos EUA. Este curto filme de doze minutos foi bastante inovador para a época, quer em termos narrativos e quer em termos técnicos. Há alguns teóricos que argumentam que este não foi o primeiro western no cinema ou que nem sequer é um western. É verdade que existiam já filmes anteriores deste género, mas no filme Porter existe uma narrativa plenamente desenvolvida, ao contrário dos outros filmes. “The Great Train Robbery” foi um grande sucesso de público na altura.

 

Entretanto foram-se fazendo alguns westerns curtos, em que Griffith foi um importante inovador para a linguagem cinematográfica. Em 1914 estreou a primeira longa-metragem totalmente realizada em Hollywood, “The Squaw Man” (“O Exilado”), realizado por Cecil B. DeMille. Este adaptou a obra pioneira da literatura deste género, “The Virginian” escrita por Owen Wister que até ajudou na criação do argumento. Mas o primeiro grande cineasta do western, ainda no tempo do mudo e contemporâneo do Griffith, foi Thomas Harper Ince. Thomas realizou mais de 150 curtas-metragens e produziu outras tantas 150, durante os anos 10 e 20. Construiu o primeiro estúdio moderno, “Inceville”, onde filmou muitos dos seus filmes, chegando mesmo a viver lá, tal como muitos outros actores e técnicos do estúdio. Thomas faleceu em 1924, tendo sido assassinado num barco por engano, pois os assassinos queriam era acertar em Chaplin, mas falharam o tiro.

 

1) “Dicionário Teórico e Crítico do Cinema”, de Jacques Aumont e Michel Marie, Edições Texto e Grafia, 1a edição 2009.

2) “O que é o cinema?”, de André Bazin

3) Retirado do livro “O que é o cinema?”, de André Bazin, pág.201.

4) Owen Wister (1860-1938) é considerado o pai americano da ficção do western. Escreveu o primeiro romance moderno western, “The Virginian” (1902). Escreveu também alguns romances que narravam os feitos heróicos de Wyatt Earp, Doc Hollyday, os irmãos James e Billy the Kid.