O Declínio

“A partir dos anos 60, o género torna-se mais violento devido ao fim da censura, à nova geração de realizadores e à violência do quotidiano social americano, como nos filmes de Sam Peckinpah; mas também mais caricatural, como nos western-spaguetti.”(1)

 

O género western viveu o inicio do seu declínio nos anos 60, mas não foi só este género, aliás toda a Hollywood passou por um período de crise na década de 60. Toda a indústria americana foi afectada, por várias razões, como o forte crescimento da indústria cinematográfica da Índia, e do resto da Ásia, que criaram uma forte concorrência; na Europa também se sentiu um crescimento na indústria e uma inovação na sétima arte, as primeiras mudanças surgiram em França, com a Nouvelle Vague, cuja influencia chegou a Hollywood. A expansão da TV nos EUA e as sucessivas passagens de filmes na TV e de séries, criaram um desastre económico em Hollywood. A televisão roubou muitos espectadores às salas de cinema. Foram criadas séries de western, das quais “Bonanza” foi a que teve mais sucesso. Os estúdios tiveram que se adaptar aos novos tempos, tiveram que se reestruturar, mas levou mais de uma década para que isso acontecesse e muitos estúdios faliram, outros foram comprados, foram tempos bastante difíceis para Hollywood.

 

Na generalidade, os filmes que eram feitos não tinham grande criatividade, nem cativavam muito público, tendo sido poucos os grandes sucessos. No entanto, apesar de se terem produzido poucos westerns nesta década, foram surgindo alguns westerns que cativavam público e que davam esperança ao género. Em 1960 estrearam dois filmes que marcaram o género, “Alamo” (“The Alamo”), primeiro filme realizado por John Wayne (Wayne ainda produziu e interpretou este grande épico) que conta a história verídica de 185 americanos que arriscaram as suas vidas para defender o forte Alamo, contra um exército de 7000 soldados mexicanos. O filme foi filmado no Texas, a poucos quilómetros do campo de batalha original, “Alamo” é um filme sobre honra e coragem, uma homenagem a todos aqueles voluntários que sacrificaram as suas vidas pela liberdade do Texas. O outro filme foi “Os Sete Magníficos” (“The Magnificent Seven”) que apesar de ter sido uma cópia do filme “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa, teve algum sucesso. O cinema japonês influenciou muitos westerns em Hollywood e em Itália, que irei explicar mais a seguir. “Os Sete Magníficos”, são um bando de sete pistoleiros profissionais que se juntam para ajudar uma pobre aldeia mexicana de ser atacada por um bando de saqueadores, que aterroriza a aldeia. Uma narrativa simples que John Sturges, o realizador, não pretende que fique por aí, deixando a sua marca no filme, tornando-o ainda hoje num dos westerns mais conhecidos de sempre.

Em 1962, John Ford realizou “O Homem Que Matou Liberty Valance” e “A Conquista do Oeste”, que já referi em cima, em 1963, surge “O Mais Selvagem Entre Mil” (“Hud”), realizado por Martin Ritt, que se trata de western bastante moderno e diferente do que até então se tinha feito. É um drama muito bem interpretado, por Paul Newman, Patricia Neal, Melvyn Douglas e Brandon De Wilde. E se estão à espera de ver um filme a cores, com cavalos, índios e muita acção com um herói, enganam-se, pois este filme tem tudo menos isso. É um drama a preto e branco, com muitos diálogos e emoções fortes, com carros e estradas de betão. Um western inovador com um excelente argumento, que conta a história de um filho rebelde, Hud, (um anti-herói), de um respeitável rancheiro que está constantemente em conflito com o seu pai. O sobrinho de Hud tenta encontrar um modelo a seguir, o que provoca um conflito entre eles.

 

De 64 a 68 o western nos EUA foi declinando bastante, faziam-se cada vez menos westerns e pouco inovadores. Durante esse período os grandes westerns vinham da Itália, do realizador Sergio Leone. A produção italiana criou um sub-género, o western Spaghetti, que irei abordar a seguir.

Em 69 surgiram dois filmes inovadores e que mudaram o género para sempre, “Dois Homens e Um Destino” de George Roy Hill e “A Quadrilha Selvagem” de Sam Peckinpah. O género só viria a ser mantido vivo, nos Estados Unidos, pelo regresso ao velho Oeste, pelo realizador Sam Peckinpah, com o filme “A Quadrilha Selvagem” (“The Wild Bunch”, 1969). Este filme foi decisivo no final da década de 60, para o cinema e para o género em particular. “A Quadrilha Selvagem”, como o próprio nome indica, é um filme selvagem, violento, mas ao mesmo tempo belo e cheio de encanto, Peckinpah fez deste filme uma verdadeira obra prima do western. É um fabuloso western que encanta e choca ao mesmo tempo logo na cena de abertura do filme, no assalto ao banco vemos a quadrilha cercada por um bando de caçadores de prémios, originando um violentíssimo tiroteio no meio da cidade, atingindo mulheres, crianças e velhos inocentes, criando um banho de sangue. A cena está muito bem conseguida, graças à inteligente montagem e realização. Também a cena final do filme é chocante e encantadora, onde os últimos heróis envelhecidos sacrificam-se numa cena clássica, uma orgia de sangue, destruição e tiros, muito bem montada. O filme é quase como uma homenagem ao género e um chamamento aos estúdios para voltarem a produzir westerns, mas agora mais modernos, pois o velho oeste está tão velho como os seis homens da quadrilha, muito bem interpretados por William Holden (num dos seus melhores desempenhos de sempre), Ernest Borgnine, Jaime Sánchez, Warren Oates, Ben Johnson e Edmond OʼBrien. O filme tem um excelente argumento, composto por cenas de muita acção, drama e humor. Como o próprio trailer do filme diz, “de repente é um novo western”. Este é, na minha opinião, o melhor western feito nos Estados Unidos nos anos 60, não há nenhum filme feito desta altura que se aproxima-se à perfeição deste, à qualidade técnica e artística. Ao mesmo nível deste só mesmo os filmes de Sergio Leone!

 

Pensava-se que “A Quadrilha Selvagem” iria trazer o western de volta, mas os estúdios foram produzindo cada vez menos westerns, argumentando que o western era um género moribundo e velho. O público já estava farto de ver westerns e só queria ir ver filmes de ficção cientifica, que estavam muito em voga na altura, no entanto foram-se fazendo sempre alguns westerns.

A década de 70 ficou marcada pelos filmes de Clint Eastwood, que ganhou bastante notoriedade nos filmes de Sergio Leone, nos anos 60, e que nos anos 70 realizou os seus próprios filmes. Em 73 realizou “O Pistoleiro do Diabo”, o seu primeiro western e o seu segundo filme. Até aos anos 90 realizou mais três westerns, “O Rebelde do Kansas” (1976), “O Justiceiro Solitário” (1985) e “Imperdoável” (1992). Com estes três filmes, Eastwood continuou a usar a sua personagem de anti-herói, o “homem sem nome”, mercenário e violento, que anda sozinho “o solitário”. Caracteriza-se também por ser um homem que cospe constantemente para o chão, que exemplifica muito bem este “homem sem nome”. “Unforgiven” (“Imperdoável”, 1992) é para muitos amantes do western e críticos o último western realizado. Eastwood pegou em muitos elementos típicos do western e alterou-os por completo, por exemplo em vez de termos um herói que salve o dia, temos apenas vingança de alguém que não espera qualquer tipo de redenção; e em vez de um final feliz temos o anti-herói refugiado a olhar para uma campa, ao pôr-do-sol, num dos mais belos finais de um western e talvez o final do género. “Imperdoável” ganhou quatro óscares, incluindo o de Melhor Filme.

 

Nos anos 80 o realizador de “O Caçador” (1978), Michael Cimino, fez um western bastante magestoso, “As Portas do Céu” (1980). Este filme foi fortemente criticado na época, pela extravagância dos cenários, pelo que se tornou num fracasso da United Artists, o custo do filme fez com que a MGM comprasse o estúdio.

 

Em 1983, o filósofo francês Gilles Deleuze escreveu um livro onde teorizava sobre o cinema até à década de 80, “Cinema 1: Imagem-Movimento”. Neste livro Deleuze explica as três variantes da Imagem-Movimento, Imagem-Percepção (a coisa), Imagem-Afecção (a qualidade ou o poder) e Imagem-Acção (a força ou o acto). Nesta última, divide-se em duas formas: a Grande Forma (SASʼ – da Situação para a Acção, que modificava a Situação), que representam o lado positivo do sonho americano. “A Cavalgada Heróica” e “O Homem que Mataou Liberty Valance” são alguns exemplos de filmes que se inserem na Grande Forma. A Pequena Forma (ASAʼ – parte da acção que revela a situação, o qual desencadeia uma nova acção) é o inverso da SASʼ. Nesta forma estão inseridos miutos westerns do pós-guerra, como por exemplo, “Rio Bravo” e “A Quadrilha Selvagem”.

 

A década de 90 viria a ter ainda algumas surpresas com os filmes “Danças com Lobos” (1990) de Kevin Costner e “Homem Morto” (1995) de Jim Jarmusch.

 

1) Retirado do Livro “A Imagem do Cinema – História, Teoria e Estética”, de Paulo Viveiros, Colecção Imagens, Sons, Máquinas e Pensamento, Edições Universitárias Lusófonas, 2a edição, Lisboa – página 100.