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«Uivo» – O lamento de uma geração em forma de poema

Rob Epstein estreia-se na ficção, com “Uivo – Howl”, depois de ter realizado vários documentários, onde se tornou num pioneiro desse género, com “Os Tempos de Harvey Milk” (1984), pelo qual recebeu o seu primeiro Óscar da Academia. Rob Epstein e Jeffrey Friedman, que são bastante conhecidos no circuito do cinema independente, voltam a juntar-se na realização, mas desta vez na ficção. O filme passou já por alguns festivais conceituados, como o de Berlim, Sundance e foi o filme de abertura da 15ª edição do Festival de Cinema Queer Lisboa – festival de cinema LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros).

 

“Uivo” é um filme biográfico sobre o escritor Allen Ginsberg (James Franco), falecido em 1997, que foi uma das mais importantes vozes da comunidade gay norte-americana e um dos talentos máximos das letras do século passado. Passado em 1957, em São Francisco, é publicado um livro chamado “Howl and other poems”, que após o seu lançamento, a polícia o apreendeu, argumentando que o livro continha palavras obscenas, iniciando um julgamento no tribunal contra o editor que publicou o livro.

 

O filme passa-se numa época de grandes dificuldades e de grandes polémicas para muitas pessoas que queriam ser “diferentes”. Os anos que se seguiram à 2ª grande guerra, nos EUA, ficaram marcados pela caça às bruxas, aos comunistas e aos homossexuais. O lançamento do livro “Howl” foi como uma bomba que caiu em cima dos conservadores. Foi de difícil aceitação, mas marcou um inicio, uma nova geração, uma nova sociedade, abriu portas a novas formas de se fazer arte, com mais liberdade de expressão.

 

“Uivo” é antes de mais um filme invulgar. É diferente pelo tipo de abordagem aplicada. Para aqueles que pensam que vão ver um filme sobre a vida de Allen Ginsberg, estão enganados. Essa é uma das três intrigas do filme, mas a principal é a leitura do próprio livro “Howl”. O filme é quase como uma interpretação do livro. A segunda intriga é passada no tribunal e a terceira é então a vida de Allen Ginsberg. “Uivo” é uma experiencia cinematográfica bastante invulgar, pois é como se nos estivessem a ler um livro de poesia, com imagens que ilustram tudo aquilo que nos é dito, com umas pequenas pausas para conhecer alguns pontos da vida do autor e com direito a uma explicação sobre o que foi lido (cena do tribunal). A maioria dos filmes biográficos abordam a vida de uma pessoa, mas neste filme isso não acontece. Foi feita uma abordagem diferente, onde é analisada a obra, neste caso o livro “Howl”.

 

O filme adoptou uma fórmula bastante interessante, mas que para alguns poderá ser bastante monótono, pois esta repete-se por todo o filme. Existem cenas a preto e branco, que representam o passado de Ginsberg, ou seja, a vida dele; as cenas a cores representam o presente (1957), o processo no tribunal; e as cenas em animação representam a leitura integral do poema (do livro “Howl). O filme desenrola-se desta forma, preto e branco, cores, animação, preto e branco, cores, animação, e assim sucessivamente. Logo é de destacar o trabalho de montagem e o de fotografia, principalmente nas cenas a preto e branco.

 

Um dos problemas deste filme é que este faz uma interpretação de alguns poemos do livro em forma de animação surrealista, o que torna o filme logo limitativo. Não deixa de ser interessante, mas para algum público poderá não ser do seu agrado.

 

Quanto ao elenco, que é pequeno, James Franco tem na minha opinião a sua melhor interpretação, apesar de muitos considerarem que “127 Horas” é o melhor. Franco já tinha mostrado os seus dotes numa personagem parecida em “Milk” de Gus Van Sant. Mas é a interpretar Ginsberg que vemos um Franco mais divertido, sincero e apaixonante, apesar de a maior parte das cenas ele representar sozinho, como nas cenas da secretaria ou nas cenas em que esta a declamar o livro.

 

Concluindo, para quem estava à espera de ver um filme sobre a vida de Allen Ginsberg, vai assistir a algo mais do que isso. ”Uivo” é no mínimo um filme interessante que deve ser visto.

 

Classificação:

 

Realização: Rob Epstein, Jeffrey Friedman

Argumento: Rob Epstein, Jeffrey Friedman

Elenco: James Franco

EUA/2010 – Drama

Sinopse: São Francisco, 1957. Uma obra-prima é julgada e esse é um momento decisivo para a contra-cultura americana. O filme recria a vida de Allen Ginsberg e do poema Howl, explorando géneros e temas que ainda hoje são actuais: a definição de obscenidade, os limites da liberdade de expressão, a natureza da arte.

Rob Epstein estreia-se na ficção, com “Uivo – Howl”, depois de ter realizado vários documentários, onde se tornou num pioneiro desse género, com “Os Tempos de Harvey Milk” (1984), pelo qual recebeu o seu primeiro Óscar da Academia. Rob Epstein e Jeffrey Friedman, que são bastante conhecidos no circuito do cinema independente, voltam a juntar-se …

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Tiago Resende

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