A 19.ª edição da Festa do Cinema Francês foi um verdadeiro gourmet cinematográfico. O  festim começou com a cópia restaurada de “Cyrano de Bergerac”, de Jean-Paul Rappeneau, com esse tour de force de Gérard Depardieu no papel principal, e terminou com “Em Guerra”, o filme mais recente de Stéphane Brizé, que renova a sua colaboração com Vincent Lindin para o quarto filme da dupla.

Desde o ciclo dedicado a Jean-Paul Rappeneau, o padrinho desta 19.ª edição, passando pelas antestreias, as masterclasses, a retrospetiva dedicada a Henri-Georges Clouzot e as sessões escolares, ao fortíssimo ciclo ACID deste ano, foram exibidos filmes que certamente agradaram ao palato de todos, mesmo aqueles que nenhuma, ou pouca ligação têm ao cinema francês. Tudo isto não seria possível sem uma programação cuidada e de grande qualidade. Um bom programador é aquele que bebe da sua própria cinefilia, do seu amor pela sétima arte, e o partilha com o público, fortalecendo a relação daqueles que nutrem esse mesmo carinho pelo cinema e suscitando o gosto por ele nas gerações mais novas. Programar é também acolher uma cultura externa para que se crie um diálogo entre cinematografias, pessoas e ideologias.  Para Sara Abrantes, responsável pela programação da 19.ª Festa do Cinema Francês, “o programador representa essencialmente a função de intermediário, de “facilitador” entre as culturas dos dois países (França e Portugal).”

Importante também é destacar o trabalho das distribuidoras portugueses que, face às inúmeras resistências e dificuldades deste estado de coisas português, continuam a promover e a divulgar o que de melhor se faz lá fora, neste caso, em França e nos países francófonos. “É essencial ressalvar que esse exercício é partilhado com os distribuidores portugueses, eles que são, aliás, uns dos principais protagonistas do festival”, lembra Sara Abrantes. Entre essas distribuidoras estão a Alambique Filmes, a Outsider Films e a Films4You.

Sem existir um planeamento temático concreto, é, no entanto, curioso como se encontra uma relação fortíssima entre os filmes selecionados. “São filmes que tratam questões como o lugar da fé, a necessidade da esperança e o combate à descrença (“Não Deixeis Cair em Tentação”, de Cédric Kahn, “A Aparição”, de Xavier Giannoli) ou filmes que justamente falam sobre a nossa capacidade de resistência, questionando uma sociedade capitalista, as esferas do poder e da justiça (“Em Guerra”, de Stéphane Brizé), que materializam a revolta de uma sociedade desigual e fraturante (“Sofia”,de Meryem Benm’Barek-Aloïsi) ou que recordam guerras antigas (Les Confins du Monde, de Guillaume Nicloux).”

“Não Deixeis Cair em Tentação,” de Cédric Kahn

Esta forte presença de filmes sobre a fé e de cariz sócio-político, que, aliás, culmina numa sessão de encerramento feliz em termos temáticos com “Em Guerra”, tenha ela sido planeada para esse efeito ou não, reforçam a importância e o papel do cinema como ferramenta de educação e de reflexão sobre o nosso mundo. Silvia Balea, adida cultural e audiovisual do Instituto Francês, reforça este sentimento acrescentando que “seria interessante, aliás, fazer um estudo sociológico, ou mesmo filosófico, sobre o cinema enquanto reflexo do nosso tempo.”

Porém, o ciclo ACID (Association du Cinéma Indépendant pour sa Diffusion) foi o grande regalo desta festa de cinema francês. “Un Violént Desir de Bonheur”, do jovem realizador e produtor Clément Schneider, foi talvez o que mais me impressionou pela sua maturidade formal e reflexão sobre identidade, religião, verdade histórica e ideologia. Depois deste, “Dans la Terrible Jungle“, da dupla Caroline Capelle e Ombline Ley, um documentário sobre deficiência mental em crianças, é também digno de destaque. Através do cinema, do jogo de faz-de-conta em que as crianças se deixam envolver, o filme atua sobre a ausência de comunicação e os preconceitos em relação a este tema e dá uma voz aos sonhos destas crianças. “We The Coyotes”, de Hanna Ladoul e Marco La Via, uma espécie de road movie, em espírito, sobre dois jovens que tentam construir uma vida em Los Angeles, impressionou também pela sua cinematografia crepuscular, pela química entre Morgan Saylor e McCaul Lombardi e pela relevância do seu tema para muitos jovens portugueses que se veem obrigados a levar uma vida incerta e precária.

“Un Violent Désir de Bonheur”, de Clément Schneider

A retrospetiva de homenagem ao cineasta de culto Henri-Georges Clouzot, “um dos cineastas mais polémicos e intrigantes do cinema francês”, nas palavras de Sara Abrantes, contou com clássicos como “O Salário do Medo” (1953), “O Crime da Avenida Foch” (1947), “As Diabólicas” (1955) e ainda “L’Enfer d’Henri-Georges Clouzot”, o documentário de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea sobre o mítico filme inacabado do Hitchcock francês.

Este só foi possível graças a uma feliz coincidência: 30 anos depois da morte de Clouzot, em 1977, Inès de Gonzalez, a sua viúva, ficou preso num elevador com Bromberg e revelou-lhe que tinha 185 latas de película de “L’Enfer”, tendo-as confiado ao cineasta para o documentário. Também Claude Chabrol, em 1994, realizou um filme de título homónimo, baseado no argumento de Clouzot, tendo como protagonistas Emmanuelle Beárt e François Cluzet.

“O Inferno”, de Claude Chabrol, baseado no argumento de Clouzot

Silvia Balea justifica a aposta em Clouzot dizendo que “em 2017 foi o ano que marcou os quarenta anos do desaparecimento do cineasta. Decorreram em França muitas iniciativas de homenagem a este grande realizador, nomeadamente no Festival Lumière de Lyon, em outubro de 2017, que exibiu a integralidade da sua obra restaurada em 4K, e na Cinemateca Francesa, em Paris, que organizou uma retrospetiva dos seus filmes e uma exposição de 8 de novembro de 2017 a 29 de julho de 2018.”

A  19.ª edição da Festa do Cinema Francês continua a decorrer e a partir de 6 de novembro vai passar por Leiria (dias 6 a 7), Beja (6 a 9) e Faro (6 a 9); a partir de dia 7 irá decorrer no Seixal (7 a 10) e a partir de dia 9 (9 a 11) em Setúbal.

Consulte o programa aqui.