Lembram-se do lançamento de “Birdman”, em 2014, quando a actuação de Michael Keaton quase foi ofuscada por Iñárritu ter feito o filme parecer um único plano-sequência? Pois o mesmo já está a acontecer com “1917”, oitava longa-metragem do realizador britânico Sam Mendes, que estreia nesta quinta-feira (23). Este filme de guerra provavelmente será mais lembrado pelo uso da técnica do que pelo elenco.

Com um enredo simples, “1917” tem como diferencial o efeito mágico que o plano-sequência causa no espectador (ainda mais quando visto numa sala IMAX). Ao apostar nesta técnica, que já é usada no cinema desde “Festim Diabólico” (1948), de Alfred Hitchcock, Sam Mendes fez o filme perfeitinho para os prémios. A prova disso é a de que até ao momento, “1917” já venceu dois Globos de Ouro (Melhor Filme de Drama e Realizador), o PGA de Melhor Filme, três prémios do Critic’s Choice (Realizador, Direção de Fotografia e Montagem), ainda tem nove nomeações para os BAFTA e disputa dez categorias dos Óscares.

A ambição de Sam Mendes está em apresentar em tempo real a jornada angustiante de dois soldados britânicos no norte da França, na Primeira Guerra Mundial. É um acontecimento histórico do qual não resta mais ninguém vivo que se lembre. A maior parte da população actual do mundo provavelmente só tem ideia do motivo pelo qual a guerra ocorreu através dos livros de História.

O realizador, no entanto, pôde inspirar-se nas memórias do seu avô Alfred H. Mendes, que serviu na guerra, para escrever o argumento junto com Krysty Wilson-Cairns.

Em 6 de abril de “1917”, os soldados Schofield (George MacKay, de “Capitão Fantástico”) e Blake (Dean-Charles Chapman, da série “Game of Thrones”) são enviados numa missão praticamente impossível pelo general Erinmore (Colin Firth). Eles precisam entregar pessoalmente uma carta ao coronel Mackenzie (Benedict Cumberbatch). A ordem urgente é para não prosseguir com um avanço de outros 1.600 soldados britânicos por se tratar de uma armadilha do inimigo alemão.

Com o trabalho belíssimo do diretor de fotografia Roger Deakins e com o uso, segundo a “Hollywood Reporter”, do novo modelo da câmara Alexa Mini (Large Format), “1917” dedica-se em descrever as trincheiras em termos visuais muito envolventes. Não há saltos temporais nem cortes de cena visíveis nem narrador. Muitas vezes ser o espectador é como ser um terceiro soldado, esquivando-se das ratazanas, dos cadáveres e das ciladas em que Blake e Schofield caem. Dá quase uma sensação de interactividade.

A não ser pelo absurdo da guerra, não há sentido em fazer muitas comparações entre “1917” e clássicos como “Paths of Glory” (1957), de Stanley Kubrick, e “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), de Steven Spielberg. Obviamente que pela tecnologia, “1917” supera todos eles em termos de imersão absoluta num ambiente dominado pela ameaça de morte contínua. Sam Mendes quis homenagear o avô com uma obra, mas acabou por fazer brilharem mais os olhos dos que amam a experiência da sala de cinema.

Realização: Sam Mendes
Argumento: Sam Mendes, Krysty Wilson-Cairns
Elenco: Dean-Charles Chapman, George MacKay, Daniel Mays
EUA/2019 – Drama/Guerra
Sinopse
: No auge da Primeira Guerra Mundial, dois jovens soldados britânicos, Schofield e Blake recebem uma missão aparentemente impossível. Numa corrida contra o tempo, têm de atravessar território inimigo e entregar uma mensagem que impedirá um ataque letal contra centenas de soldados, entre eles o irmão de Blake.

«1917» - Sam Mendes aposta na magia do plano-sequência e faz filme perfeitinho para os prémios
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