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“25 de Abril, 3 Filmes”, por Sérgio Dias Branco

Nota: Texto escrito por Sérgio Dias Branco, professor de Estudos Fílmicos na Universidade de Coimbra, onde coordena os Estudos Fílmicos e da Imagem e dirige o Mestrado em Estudos Artísticos, no âmbito dos 47 anos da Revolução do 25 de abril de 1974, a convite do Cinema Sétima Arte.

25 de Abril, 3 Filmes

48-2009

Antes: “48” (2009)

Que rostos são estes? São rostos de cadastrados, presos políticos da ditadura fascista em Portugal. A realizadora Susana de Sousa Dias descobriu-os nos arquivos da PIDE/DGS, hoje no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Falou depois com as pessoas fotografadas. É através das vozes delas que ouvimos a descrição das suas detenções em casa, no trabalho, na clandestinidade, das suas vidas interrompidas, e as agressões, humilhações, e torturas que lhes foram infligidas na prisão. O filme tem como título o número de anos que vão de 1926 a 1974: 48. É uma forma directa e concisa de dizer ao que vem: participar na batalha pela memória que se tem desenrolado desde a Revolução de Abril, contrariando o branqueamento da repressão fascista. 

O dispositivo é, em simultâneo, simples e subtil. As fotografias vão sendo mostradas, nalguns momentos com lentíssimos movimentos de câmara sobre elas, noutros com fundidos-encadeados entre as imagens de duas delas. O olhar plana, perscrutando, salientando as diferenças entre tempos, nos casos em que as pessoas foram presas mais do que uma vez. O desenho de som, da responsabilidade do compositor António de Sousa Dias, cria uma densa textura sonora. Os testemunhos surgem no meio da respiração, do contacto da pele e dos pêlos, dos lábios que se descolam, dos ruídos do ambiente. Se 48 consegue libertar verdadeiramente estes discursos de quem foi perseguido, silenciado, e agredido é também porque lhes dá uma ressonância genuinamente humana. 

Estes são rostos que mostram as ventas do fascismo. O documentário prolonga o trabalho da cineasta com imagens em movimento da ditadura em Natureza Morta (2005) e demonstra que um arquivo é uma coisa morta sem a memória histórica que lembre a vida que gerou os seus documentos. Ao indagar as histórias que estas fotografias de cadastro evocam, o filme faz um retrato colectivo, entretecido de diferentes episódios pessoais, da luta unida e resistente pela democracia. No primeiro de três poemas de homenagem a Álvaro Cunhal, Manuel Gusmão descreve-o como “o homem livre encarcerado”. Podemos dizer o mesmo destes 16 antifascistas, na sua maioria membros do Partido Comunista Português. Traziam a liberdade consigo, prenunciando-a, e para isso viveram como clandestinos e por isso foram feitos prisioneiros. A última imagem já não é de um preso, mas de uma noite carregada, com árvores de muitos ramos que a luz instável vai desvendando. Se é verdade que a liberdade havia de triunfar em Abril, ouvindo-os atentamente, compreendemos que a liberdade deles ainda não é a nossa. Falando do passado, é sempre do futuro que eles falam.

A cineasta continuou este trabalho na obra seguinte, “Luz Obscura” (2017), centrada no núcleo familiar de Octávio Pato e nas ramificações da acção repressiva da PIDE sobre a sua família. A partir de uma insólita e única fotografia prisional, este filme mais recente confronta a frieza administrativa e processual das imagens de arquivo da ditadura com as apagadas, dilaceradas, e esquecidas famílias dos resistentes políticos presos.

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Durante: “As Armas e o Povo” (1975)

O 25 de Abril e o 1.º de Maio fazem parte do ADN da democracia portuguesa e assim permaneceram apesar dos golpes militares contra-revolucionários de 11 de Março e 25 de Novembro de 1975. Por essa razão, é preciso cultivar a sua memória, projectá-los, desdobrá-los nas lutas de hoje. Nesse sentido, dispomos de elementos que nos ajudam nessa tarefa, em particular o facto de o processo revolucionário português ter sido amplamente registado em imagens e sons. 

Em Setembro de 2020 foi lançada uma edição em DVD com uma nova e esplendorosa cópia digital de “As Armas e o Povo”, filme colectivo sobre a revolução, documento fundamental emanado desse processo. Como se lê no texto de apresentação: “As Armas e o Povo é também um manifesto sobre a relação entre cinema e política, não apenas como mero difusor dos acontecimentos, mas sobretudo como participante ativo do ato revolucionário”. 

A definição das imagens resultante da digitalização 4K do negativo em 35mm foi acompanhado por uma minuciosa correcção de cor. A Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema e o seu Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM) merecem que este e outros serviços públicos que prestam sejam devidamente valorizados. A coordenação do projecto esteve a cargo de Tiago Baptista, director do ANIM. A edição inclui diversos materiais complementares. Sobre As Armas e o Povo é um vídeo realizado por Manuel Mozos, com testemunhos de António da Cunha Telles, Monique Rutler, Eduardo Geada, e Fernando Matos Silva. Uma brochura ilustrada de 76 páginas inclui ensaios inéditos e perspicazes de Paulo Cunha (“O Cinema e o Povo”), Mickäel Robert-Gonçalves (“As Armas e o Povo: O Ritmo Único da Revolução Portuguesa”), Ricardo Noronha (“O Dia da Unidade”), e Ismail Xavier (“Sobre a Participação de Glauber Rocha em As Armas e o Povo”). Foram ainda adicionadas algumas legendas que identificam pessoas, locais, e datas. 

As Armas e o Povo não estreou comercialmente em sala, mas isso não o impediu de ser uma obra documental vista e revista ao longo dos anos seguintes. Junta as grandes movimentações de massas aos discursos políticos, a libertação dos presos políticos às entrevistas de rua conduzidas pelo cineasta brasileiro Glauber Rocha, que se deslocou a Portugal para participar nos primeiros dias da revolução. 

Este registo único foi assinado pelo Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica e cobre a etapa entre o Dia da Liberdade e o Dia do Trabalhador de 1974. Acácio de Almeida, Manuel Costa e Silva, António H. Escudeiro, José Fonseca e Costa, Luis Galvão Telles, Matos Silva, João Matos Silva, José de Sá Caetano, Geada, Fernando Lopes, António de Macedo, João Moedas Miguel, João César Monteiro, Elso Roque, Alberto Seixas Santos, Artur Semedo, Cunha Telles, e António-Pedro Vasconcelos são os nomes que constituíram o colectivo. Esta obra de cinema feita em colaboração é, portanto, um fruto da unidade e criatividade da própria revolução. O laborioso trabalho de montagem de Rutler permitiu documentar toda a complexidade do processo revolucionário: as forças, as figuras, os momentos decisivos, o movimento material. Mesmo para quem já o tenho visto, é uma experiência extraordinário vê-lo nesta nova cópia. É como se a história ganhasse vida.

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Depois: “O Voo da Papoila” (2011)

Mais de três décadas depois do 25 de Abril de 1974, “O Voo da Papoila” olha para um presente marcado por esse acontecimento — como se ainda não fosse passado. Este é um filme em que o futuro fica por resolver, o que faz com que o seu aparente pessimismo não possa ser lido simplesmente como uma derrota. As primeiras imagens são de arquivo: registam a libertação dos presos políticos encarcerados pela máquina repressiva do fascismo. Na rua, as pessoas gritam que o povo unido jamais será vencido. E um povo que se sente vencido pode ser reunido? 

No centro da narrativa está a fotografia de um miúdo e de um soldado no dia da revolução. Mais de trinta anos depois, o fotógrafo que registou esse momento, Sebastião (Fernando Taborda), continua a fotografar. Joaquim (Fernando Ferrão), o antigo soldado, vive agora com grandes dificuldades. Rui (Filipe Costa), o miúdo que se tornou adulto, disfarça-se de soldado com um cravo vermelho na ponta da arma, actuando como homem-estátua na rua à espera que alguém que lhe deixe algumas moedas (euros, já não escudos). O soldado que Rui tenta ser é uma pálida imitação daquele que Joaquim foi. A fotografia deles, risonhos, era uma imagem de esperança. O que sobrou dela? 

Inspirado pela popular canção “Somos Livres” de Ermelinda Duarte, “O Voo da Papoila” é uma obra que filma um impossível retorno. As imagens são feitas paredes. Os rostos fecham-se. Ou será que deixámos que as imagens fossem desabitadas pela história e os rostos apagados de histórias? Esta curta-metragem realizada por Nuno Portugal confronta a desilusão sem rodeios.

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