Desde há um largo tempo para cá que críticos, produtoras e agências de distribuição esgrimam  com uma forma de complacência perigosa a que eu gosto de chamar de propaganda emancipada (do filme, claro); ora por condescendência dos primeiros, ora por desabafo dos segundos e, por fim, sob a forma de uma adjectivação simpática, mas manifestamente inofensiva (“um belo filme”, “uma pequena pérola”, etc.) estampada no infeliz recipiente de plástico pelos terceiros, condena este tipo de embelezamento despreocupado a uma redundância iminente. Esta zona de conforto que, para aparente privilégio de seus habitantes (onde sem dúvida alguma impera uma amálgama de belas e pequenas pedras preciosas), fabrica cautelosamente a legitimação dos filmes à margem da enxurrada de blockbusters in vitro, não tem razão para existir; é simplesmente errado pressupor que estas obras precisam deste tipo de “graxa” para vincar a sua qualidade. Não é óbvio que não é por ter tais adornos que estes filmes garantem a sua aquisição? Mesmo com semelhante esfregar a grande maioria destes filmes passa, infelizmente, largamente despercebida e/ou estoicamente ignorada. Poder-se-ia dizer, portanto, que o filme que irei analisar de seguida padeceria também, como que inevitavelmente, do mesmo sintoma (isto se algum exemplar tenha a (in)felicidade de aparecer por cá).

Após esta alegre e primária dissertação é, finalmente, altura de mediar atenções para o filme em questão – Five Centimetres Per Second (Byosoku Go Senchimetoru em japonês), realizado por Makoto Shinkai.

Apelidado por alguns como “O Novo Hayao Miyazaki”, Shinkai é, pessoalmente, um dos melhores cineastas de uma nova vaga do cinema de animação japonês, mesmo sendo praticamente desconhecido na Europa. Subdividido em três partes, Five Centimetres Per Second é o terceiro filme do realizador após o sucesso um tanto inesperado de Voices of a Distant Star e The Place Promised in Our Early Days e que conta uma premissa constante na sua obra – a inevitável distância que o destino impõe às suas personagens.

Takaki e Akari são colegas de escola que depressa encontram conforto na sua inocente amizade. Com o tempo, contudo, Takaki prepara-se para se mudar para outra cidade, iniciando a lenta e dolorosa separação de Akari; os dois encontram-se regularmente, esforçando-se, contudo, para atenuar o sofrimento que vagarosamente os separa.

Porém, a esta história trágica e iminentemente humana, opõe-se, como se por misericórdia, uma belíssima animação que nos reconforta e apazigua: os tons de cor-de-rosa das cerejeiras perto da estação, o rasar do vento no cabelo das personagens, os jogos de luz e de sombra; mas, acima de tudo, é o rigor de uma profundidade de campo, cujos maneirismos invocam o Hiper-realismo americano dos anos 70. E se por um lado é esta minucia verdadeiramente fotográfica, que para muitos coloca Makoto Shinkai no mais alto dos patamares em relação aos seus contemporâneos, não é por si suficiente para descrever a experiência.

Para qualquer apreciador voraz de cinema deverá ser fácil traçar uma linha pelo cinema de Wong Kar-Wai, Tsai Ming Liang, Isao Takahata, Hayao Miyazaki e Five Centimetres Per Second – a forma como a narrativa espelha o espirito das personagens com as suas longas pausas, o silêncio que paira entre as mesmas, as elipses e as mensagens nas entrelinhas da imagem. Estes trípticos, como referi anteriormente em relação à subdivisão da narrativa, invocam claramente o génio destes cineastas, algo que naturalmente não retira mérito ao realizador pela sua aguçada sensibilidade para retratar este tipo de temática.

São estas nuances, este doce dançar no limite do parapeito entre a animação e a realidade, a melancolia e a distância, a vida e o tempo, e à efemeridade do amor, que justificam Makoto Shinkai não só como o derradeiro pupilo de uma longa geração de animadores nipónicos, como ainda o apontam como o líder incontestável de uma nova vaga de cineastas da animação no Japonesa. Esperemos que nunca precise de quaisquer tipos e tamanhos de “pérolas” por cá.

Realização: Makoto Shinkai

Argumento: Makoto Shinkai

Elenco: 

Japão/2007 – Animação

Sinopse: Colegas de turma e amigos muito próximos, Takaki Tono e Akari Shinohara moram em Tóquio. Por conta do trabalho de seu pai, Akari acaba se transferindo de cidade com sua família, e eles passam a manter contato através de cartas. Na medida em que as estações do ano avançam, esse contato vai diminuindo. Quando ela volta para Tóquio, é ele quem deve se mudar. Outras pessoas entram na vida de Takaki, mas ele não esquece Akari e, apesar de todas as separações, pergunta-se a todo momento se um dia terá a chance de encontrá-la novamente.

«5 Centímetros por Segundo» – Uma bela e doce animação japonesa
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