6 Filmes Imperdíveis para ver no Indielisboa

A 19ª edição do Indielisboa começou no último fim de semana e está repleta de filmes chegados dos mais importantes festivais europeus. De Cannes à Berlinale 2022, passando pelo Cinema du Réel e o IDFA, há muita coisa boa a estrear em solo português e por isso preparamos uma pequena lista do que já vimos em outros festivais. Não incluiremos aqui os fabulosos “Supernatural” o alien inclassificável de Jorge Jerome na Competição Nacional e a pequena joia que é “Coma” o novo filme “pós-Covid” de Bertrand Bonello, pois já falámos sobre eles por aqui anteriormente, juntamente com as curtas “By Flávio” e “Starfuckers” que também passarão na seção de curtas do Indie. O festival lisboeta continua até sábado 8 de maio.

Mato Seco em Chamas
© TerraTreme

Mato Seco em Chamas 

Um Mad Max à brasileira, é como está sendo apelidado por muitos o filmaço da dupla Joana Pimenta e Adirley Queirós uma coprodução luso-brasileira entre a Terratreme e a Cinco da Norte. O filme estreou meio discreto na seção Fórum nos últimos dias da Berlinale, e acabou indo correr o mundo afora pelos festivais, tendo vindo a ganhar o prémio máximo do festival Cinéma du Réel.

É no interior de Brasília, numa favela de Ceilândia, que a mistura de ficção e documentário se desenrola, com as atrizes a interpretar versões de si mesmas em diálogos completamente naturais e improvisados. O filme segue as irmãs Chitarra e Léa, líderes de uma gangue feminina que refina petróleo extraído de um oleoduto ilegal para vender aos motoqueiros da região que aparecem na calada da noite para coletar o produto. Quando a narrativa se foca em Léa (Léa Alves), uma ex-presidiária que passou os últimos oito anos na prisão e acabou de retornar à sua comunidade, ela começa a perceber que a região, agora sob forte influência das políticas do novo presidente Jair Bolsonaro, se transformou de facto num campo de batalha militarizado. Um filme urgente e desesperado, abertamente anti Bolsonaro, e que reflete o Brasil desiludido de 2022.

07.05 – Cinema Ideal – 22:00

 


Convenience Store 

A estreia do uzbeque Michael Borodin foi um dos filmes-choque da última edição da Berlinale, sobre o qual, aliás, conversamos com o programador chefe da seção Panorama, Michael Stütz, lá em Fevereiro.
O filme segue a sua silenciosa protagonista Mukhabbat (Zukhara Sanzysbay, também em sua estreia no cinema) uma imigrante do Uzbequistão trabalhando ilegalmente em Moscou. Ela está grávida, sem documentos e é escravizada pela patroa russa que é a própria encarnação do mal. O filme é baseado na história real de grupo de imigrantes ilegais da Ásia Central que foram torturados e escravizados pela dona da loja de conveniência Produkty 24, que dá nome ao título original do filme.
Dividido em duas partes, o filme de Borodin é uma representação inabalável da luta de uma mulher por sua liberdade e o custo das escolhas que ditam os percursos tortuosos das nossas vidas.

08.05 – Culturgest – 21:45

 


Cow 

Na história recente do cinema vários filmes seguem uma premissa muito semelhante à de Cow: a de seguir um animal (ou um grupo de animais) no seu dia-a-dia, sem interferências diretas com o seu ambiente, no melhor estilo “fly on the wall”. Foi assim com o fabuloso Gunda, do russo Viktor Kossakovsky, que seguia uma família de porcos e que foi uma sensação da Berlinale dois anos atrás. Chegamos agora ao arrebatador Cow, da britânica Andrea Arnold.
A realizadora segue a rotina da vaca leiteira Luma, registrando todos os acontecimentos dos seus últimos anos de vida, como quando dá à luz pelas duas últimas vezes e é separada dos seus bezerros momentos depois do parto. Acompanhamos tudo pelo olhar desesperador de Luma e pelos suas locomoções no meio das outras vacas dentro dessa moderna fazenda. Registrando de perto cada movimento da sua heroína, a diretora capta o dilema moral da agricultura capitalista.

O filme Cow (Vaca) estreia nos cinemas nacionais a 12 de maio, com distribuição da Alambique Filmes.

03.05 – Cinema Ideal – 22:00

 

Unrest 

O filme suíço que fez parte da última Encounters da Berlinale, de onde saiu com o prémio de realização a Cyril Schäublin, não se parece com nada que tenhamos visto antes. É um filme que se move com uma delicadeza tão minimalista que acaba por resultar num efeito completamente sedativo e hipnotizador.

Em 1877 em uma fábrica de relógios numa vila no norte da Suíça, Josephine trabalha no departamento que produz as peças minúsculas que garantem o movimento de agitação (“unrueh”) dos relógios mecânicos. Descontente com as políticas da fábrica para com os trabalhadores, Josephine se junta ao movimento operário anarquista dos relojoeiros locais. Cyril Schäublin filma a sua narrativa da mesma forma meticulosa como seus personagens produzem os relógios, cuidadosamente examinando cada peça minúscula que o compõe. Mas chamar de “narrativa” o que se passa aqui talvez seja um termo apressado visto que o filme quase que não tem propriamente uma história a se desenrolar. Em última instância, é um filme que explora como os sistemas que unem uma sociedade são igualmente ferramentas de controle para grupos que desejam se organizar contra ela.
Mas assim como o último Strickland, que listamos logo abaixo nesta lista, é um filme atmosférico que não está muito preocupado com uma história para contar pois é um filme “que se sente”. À primeira vista, pode intimidar e não ser para todos, mas quem o abraça e se deixa embarcar na aventura, sai de lá completamente diferente de quando entrou.

06-07.05 – Culturgest – 21:45

 

Flux Gourmet 

Peter Strickland, o britânico que fez da bizarrice controlada a sua distinta assinatura e que produziu coisas tão díspares como o aterrador Barberian Sound Studio e o fabuloso conto lésbico sado-masoquista The Duke of Bungundy, está de volta com a sua quinta longa de ficção Flux Gourmet.
O cenário do filme é um centro de pesquisa especializado em “culinária sônica” onde coletivos musicais recebem residências de um mês para fins de “performance culinária” usando comida e utensílios de cozinha.
O filme do britânico está situado naquela zona de humor absurdo e desconfortável de onde saiu também A Lagosta de Lanthimos. Os dois filmes, aliás, partilham de outras similaridades: uma de suas atrizes principais, Ariane Labed, que aqui faz uma das artistas do coletivo e o fato de Flux Gourmet ser quase todo narrado em grego.
De qualquer forma, o Strickland não parece estar muito interessado no cinismo do colega grego. A aparente superficialidade de Flux Gourmet é pura dissimulação. A coleção de “bizarrices” do filme enchem os olhos, é verdade, mas aqui também há personagens que sentem.
Este é um filme muito pessoal para Strickland, que por anos fez parte do seu próprio coletivo musical,
The Sonic Catering Band, fazendo sons experimentais semelhantes aos do filme. A banda se reuniu novamente para a produção do longa e criou a maior parte dos sons do que ouvimos nele, que na história são criados pelo coletivo em residência. Um deleite para os sentidos, Flux Gourmet é o filme mais descompromissado de Strickland e um comentário mordaz sobre o processo emocionalmente desgastante da criação artística.

07.05 – Culturgest – 21:30

 

Rimini

Michael Haneke não é o único mestre austríaco da provocação, o outro menos conhecido – mas não menos corrosivo, é Ulrich Seidl, o homem que se especializou em filmar o white trash germânico de uma forma redentora e chocante, que às vezes até chega a ser comovente.
Desta vez seguimos a jornada de Ritchie (um tour de force de Michael Thomas) uma espécie de crooner sentimentalóide que ganha a vida como cantor pop em hotéis decadentes em Rimini na Itália. Entre uma performance e outra, ele também presta serviços como prostituto para as senhoras de meia-idade que acontece de também serem as suas fãs.
A crise de Richie é desencadeada pela chegada da filha, Tessa (estreante Tessa Göttlicher) que ele viu pela última vez quando ela ainda era adolescente e que agora exige dinheiro do pai como uma forma de recompensa moral.
Com sua habitual mistura de atores profissionais e não profissionais, o austríaco evoluiu de uma forma impressionante mas sempre soando fiel a si mesmo. Diferente de seus controversos “Dog Days” ou “Paradise: Love”, aqui ele mostra uma maior empatia por seus personagens, fazendo-os transcender os papéis em que estão confinados.
O filme é a primeira parte de um projeto de dois filmes sobre o declínio da virilidade masculina. Mas Rimini é mais que isso, é também um filme sobre a vida e sobre o fim dela. O realizador disse uma vez que seus filmes são uma “pintura moral” da sociedade, ou seja, o reflexo de um tempo onde o escapismo não só é utilizado como forma de alienação social mas também como ferramenta para se estabelecer qualquer forma de conexão.

08.05 – Cinema Ideal – 22:00

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