7 temas sociais e políticos presentes na franquia Harry Potter

Com as recentes eleições para o Parlamento Europeu em mente, queremos destacar alguns temas do mundo real que foram abordados nos filmes do jovem feiticeiro
Untitled design 9 1 1 Untitled design 9 1 2
"Harry Potter e os Talismãs da Morte". de David Yates

Os filmes são uma forma de arte poderosa que pode ser utilizada para promover a reflexão sobre temas cruciais. Não devem limitar-se ao entretenimento, mas também têm a responsabilidade de suscitar discussões sobre questões sociais relevantes, como a desigualdade social, o racismo e a violência.

A saga Harry Potter é um excelente exemplo de como o cinema pode acender reflexões profundas.

Neste contexto, aproveitando as recentes eleições para o Parlamento Europeu, gostaríamos de destacar alguns temas do mundo real que foram abordados nos filmes do jovem feiticeiro.

Escravidão

O sistema de trabalho em que homens e mulheres são considerados propriedade dos seus senhores, podendo ser transacionados como mercadorias, é designado como escravatura. As pessoas escravizadas têm as suas liberdades cerceadas e são obrigadas a desempenhar tarefas sem qualquer forma de compensação.

Este tipo de exploração foi bastante comum não só no Brasil, mas também em várias regiões do mundo ao longo de diferentes épocas. Embora o regime escravista seja proibido atualmente, é preocupante que ainda existam numerosos trabalhadores a viver em condições que se assemelham à escravatura.

Na série Harry Potter, este horror está evidenciado na relação entre os elfos domésticos e os bruxos. Estas criaturas carregam o peso de milénios de escravatura, sendo subjugadas por bruxos e outros seres mágicos. Desprovidas de direitos, desrespeitadas pelos seus “senhores” e frequentemente vítimas de maus-tratos, a identidade destas criaturas está profundamente enraizada na sua condição de escravatura – como esquecer a emocionante cena da liberdade do elfo Dobby?

Imprensa sensacionalista

O sensacionalismo é uma estratégia de comunicação que utiliza a transmissão exagerada das notícias para despertar o interesse e o envolvimento do receptor. Para isso, apela a emoções como medo, curiosidade e indignação.

Os meios de comunicação sensacionalistas não hesitam em expor tragédias alheias, utilizando programas e jornais para divulgar a violência, muitas vezes apresentando narrativas ambíguas entre criminosos e a polícia. Além disso, revelam detalhes insignificantes da vida privada de celebridades e transformam a vida de políticos e autoridades numa espécie de novela, tudo isso visando conquistar audiência a qualquer custo.

A personagem jornalista Rita Skeeter ilustra de forma convincente as práticas e os impactos do sensacionalismo na imprensa tradicional.

Introduzida em “Cálice de Fogo”, quarto filme da série, Skeeter é uma repórter sem escrúpulos que não hesita em utilizar meios questionáveis para obter informações, frequentemente recorrendo a dados falsos que são publicados no Profeta Diário.

Suas atitudes refletem, de maneira lamentável, o estilo adotado por muitos profissionais da imprensa na vida real.

Manipulação da imprensa e opinião pública

Muitas vezes, nossas opiniões nos foram habilmente sugeridas pela manipulação da mídia sem que tivéssemos plena consciência disso. A mídia usa métodos sutis para implantar crenças em nós, enquanto nos faz acreditar que elas nos pertencem, que nós as escolhemos.

Sob esse olhar, as motivações para a manipulação da mídia podem ser diferentes, mas, na maioria das vezes, visam à criação de cidadãos submissos. Aqueles que ignoram informações importantes e não conhecem seus direitos geralmente não criam problemas para a estabilidade do sistema político e econômico.

No mundo de Harry Potter, em decorrência de sua habilidade em influenciar as opiniões de muitos bruxos britânicos, o Profeta Diário tornou-se conhecido por ter seu conteúdo “manipulado” pelo Ministério da Magia, com o qual mantém estreitas conexões, com o objetivo de promover a versão oficial dos acontecimentos na Grã-Bretanha.

É o tipo de veículo de comunicação que deixa a desejar no que diz respeito à ética jornalística, revelando uma integridade questionável ao confundir o interesse público com motivações políticas. Além disso, sua priorização das vendas em detrimento da precisão factual levanta sérias preocupações.

No fundo, na verdade, o Profeta Diário é equiparado a jornais oficiais de governos em locais como a Coreia do Norte, Butão e alguns países do Oriente Médio. Ou seja, age como um porta-voz do Ministério da Magia, no qual este último confia amplamente para moldar a percepção pública e buscar convencer as pessoas de que suas decisões são as mais acertadas.

Este facto é ilustrado no quinto filme da série, “Ordem da Fénix”, quando o então Ministro da Magia, Cornelius Fudge, manipula as notícias em benefício dos seus interesses políticos. Ele utiliza o jornal para distorcer a opinião pública contra o Professor Dumbledore e Harry Potter, com o objetivo de desacreditar a imagem de ambos. Mais tarde, o mesmo veículo de comunicação é explorado por Lord Voldemort para os seus próprios propósitos sombrios.

Voltando a Fudge, no auge do seu governo, ele inundava as páginas do Profeta Diário com matérias que negavam veementemente o retorno de Lord Voldemort e a formação de um novo exército de Comensais da Morte, desafiando assim as versões apresentadas por Harry Potter e Alvo Dumbledore.

Já durante o mandato de Rufus Scrimgeour, o ex-auror usava o jornal como ferramenta de propaganda, tentando minimizar os eventos desastrosos ocorridos no Departamento de Mistérios do Ministério da Magia no final do quinto filme. O veículo era também astutamente utilizado para criar a ilusão de que o Ministério estava totalmente preparado para enfrentar Voldemort e os seus seguidores.

Como esquecer a icónica frase de Scrimgeour:

“São tempos sombrios, não há como negar. O nosso mundo nunca enfrentou uma ameaça maior do que a que enfrenta hoje. Mas agora digo aos nossos cidadãos: Nós, sempre os vossos cervos, continuaremos a defender a vossa liberdade e a repelir as forças do mal! O Ministério … continua … forte!”

Sob a sombra da ditadura de Voldemort, o Profeta Diário não apenas ocultava as mortes de nascidos trouxas, mas também adotava a disseminação sistemática de informações falsas como estratégia padrão. Além disso, o jornal tornou-se um veículo ativo na promoção da ideologia anti-trouxa, alimentando as chamas do preconceito e da intolerância.

Fascismo

Em 2022, numa entrevista concedida a Matheus Magenta da BBC News Brasil em Londres, o cientista político e historiador americano Robert Paxton afirmou que definir o fascismo não é tarefa fácil, um desafio corroborado por diversos estudiosos, especialmente nos tempos atuais.

Para ilustrar essa complexidade, Magenta trouxe à luz dados reveladores: entre 1964 e 2022, a palavra “fascista” ressoou por 954 vezes nos discursos proferidos na Câmara dos Deputados, em Brasília. Dentre essas referências, 411 surgiram nos últimos cinco anos, representando expressivos 43% do total. Magenta sublinha que esse aumento significativo no uso do termo não é mera coincidência.

Nos últimos anos, “fascista” tornou-se um dos adjetivos mais em voga e, possivelmente, menos compreendidos no cenário político, tanto brasileiro quanto mundial.

Normalmente utilizado para desqualificar ou insultar adversários políticos, o termo atualmente tem pouca ou nenhuma ligação com a ideologia original criada na Itália no início do século XX por Benito Mussolini, que inspirou outros extremismos, como o nazismo, e desencadeou o conflito mais sangrento da história mundial, a Segunda Guerra Mundial.

Nesse ínterim, Paxton explica que, apesar das divergências e múltiplas interpretações ao longo das décadas, estudiosos conseguiram identificar alguns elementos típicos no cerne do fascismo: o líder forte, o contexto de crise socioeconômica, a participação das elites capitalistas, o militarismo, o racismo, o pragmatismo, o anti-intelectualismo, o controle da sociedade, as paixões mobilizadoras, a propaganda, a mentira, o medo generalizado, a violência, a religião, o anticomunismo, o nacionalismo, a composição social, o imperialismo e a sociedade de massa. Esses são alguns dos pontos de semelhança identificados.

Paxton sugere que o fascismo pode ser caracterizado como um comportamento político que se destaca pela preocupação obsessiva com a decadência e humilhação de um grupo social considerado como vítima. Ele também aponta para a formação de um partido de base popular composto por militantes nacionalistas, uma cooperação ambígua com as elites tradicionais e o repúdio às liberdades democráticas.

Além disso, o fascismo é associado a práticas de limpeza étnica, como a perseguição aos judeus e aos membros da etnia roma, tanto no nazismo quanto no fascismo. Outros elementos incluem uma expansão internacional violenta e o desrespeito às leis e à ética.

Algumas dessas características podem ser atribuídas ao vilão Lorde Voldemort. De forma análoga ao que Adolf Hitler realizou entre 1933 e 1945 na Alemanha Nazista, uma das primeiras ações do bruxo das trevas foi instaurar uma limpeza étnica no mundo mágico.

Essa purificação étnica foi baseada na perseguição de qualquer bruxo nascido trouxa, ou seja, filhos de pessoas não mágicas. O ato de Voldemort, através do então ministro marionete Pio Thicknesse, recebeu o apoio da alta elite bruxa. Com esse apoio, o governo promoveu perseguições, assassinatos e torturas.

Durante esse período sombrio, foi estabelecida a Comissão de Registro dos Nascidos-Trouxas para processar os nascidos trouxas sob a falsa acusação de “roubo” de magia. Julgamentos injustos foram realizados com o propósito de eliminar os nascidos trouxas e para mascarar a injustiça como justiça.

O governo totalitário de Voldemort, ao adotar o lema “Magia é Poder”, estabeleceu uma ditadura civil que assumiu o controle absoluto de todas as instituições, incluindo Hogwarts.

Lobismo

O lobismo, ou lobby, é uma prática onde grupos organizados se unem para influenciar decisões e defender interesses comuns. Normalmente ocorre no âmbito público, visando exercer influência sobre autoridades, mas sem procurar o controlo direto do governo.

O lobby, enquanto instrumento democrático de representação de interesses, pode ser praticado por qualquer cidadão, coletivo ou empresa interessados em promover suas causas. Sob essa perspectiva, o lobby pode se manifestar em cenários favoráveis ou desfavoráveis, dependendo das intenções do grupo em questão.

No cenário brasileiro, o ato de fazer lobby é frequentemente associado à corrupção, especialmente devido à sua constante aparição na mídia. Aqueles que acompanham as notícias provavelmente já encontraram referências a ele em casos de corrupção e tráfico de influência, como na Operação Lava Jato.

Na saga de Harry Potter, essa prática é exemplificada pela figura de Lúcio Malfoy, que se aproveita do aparato estatal para promover interesses escusos e pessoais, sempre disposto a usar sua influência social.

Um exemplo disso é encontrado em “Ordem da Fénix” durante o julgamento de Harry Potter, convocado para uma audiência disciplinar relacionada aos supostos “crimes cometidos sob o Decreto de Restrição à Prática de Magia por Menores e o Estatuto Internacional de Sigilo em Magia”, como nomeado pelo Ministério. A audiência foi transferida para um processo no tribunal pleno, uma medida pouco ortodoxa e fora do contexto legal, com o objetivo de desacreditar ainda mais Harry. Esse ato foi totalmente influenciado por Malfoy, através do Ministro Fudge.

Controle do Estado sobre a educação

Em diversos países ao redor do globo e em distintos períodos históricos, sob governos de várias índoles, o Estado tem empregado o sistema educacional como uma ferramenta para influenciar e moldar a sociedade. É amplamente aceito que é por meio desse sistema que as ideologias são difundidas, potencialmente resultando na manipulação e alienação dos cidadãos, muitas vezes levando-os à resignação diante de condições adversas.

Esse paralelo salta aos olhos em “Ordem da Fénix”, quando o Ministério da Magia nomeia Dolores Umbridge como Professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, através do questionável Decreto Educacional Número Vinte e Dois, sem sequer consultar Alvo Dumbledore.

A posição do Ministério fica clara no discurso de Umbridge na abertura do ano letivo:

“O Ministério da Magia sempre considerou a educação de jovens bruxos e bruxas de vital importância. Apesar de todo diretor ter trazido algo de novo a esta escola histórica, o progresso pelo progresso não será encorajado. Vamos preservar o que deve ser preservado, aperfeiçoar o que for possível aperfeiçoar, e cortar práticas que devem ser proibidas”.

Além disso, o Ministério decide reestruturar o currículo da disciplina, transformando-o em algo politicamente restrito e academicamente estéril. O novo programa, aprovado pela instituição, consistia principalmente em teoria, sem espaço para a aplicação prática. Umbridge escolheu um livro considerado inútil, “Teoria da Defesa em Magia” de Wilberto Slinkhard, como única fonte de ensino. Este livro, como evidenciado pelas introduções dos capítulos, enfatizava a diplomacia e a negociação, deixando de lado qualquer preparação real contra as Artes das Trevas.

Ao fazer essa escolha de ensinar teoria defensiva básica em vez de feitiços práticos, tanto ela quanto o Ministério tinham o claro objetivo de minar as chances de Dumbledore formar um grupo de bruxos e contestar a autoridade ministerial.

Mais tarde, por intermédio do Decreto Educacional Número Vinte e Três, o ministro da magia conferiu a Umbridge um aumento significativo de poder e influência em Hogwarts ao nomeá-la como a primeira “Alta Inquisidora de Hogwarts”. Esta nomeação facultou-lhe a autoridade para avaliar, intimidar e destituir qualquer professor que ela ou o Ministério considerassem insatisfatório.