“A Minha Vida de Courgette” é mais um belo exemplo de que a animação não é apenas entretenimento. É um exemplo de que é possível falar de coisas muito sérias, entre adultos e crianças, do ponto de vista destas. Com verdade, seriedade e ternura é possível explicar às crianças assuntos como devem reagir a situações adversas da vida, como o bullying, a adoção, a morte, a pedofilia, o alcoolismo, a toxicodependência ou a solidão. Este filme consegue-o ser direto e atingir os mais novos em temas complexos como estes porque é sério e adulto. É o que difere da grande maioria dos filmes de animação feitos pelos grandes estúdios norte-americanos, que só entretem sem qualquer conteúdo.

Adaptado do romance de Gilles Paris, “Autobiographie d’une courgette”, este filme conta-nos a história do pequeno Courgette que, após a morte da sua mãe, é levado para um orfanato pelo polícia Raymond, de quem fica muito amigo. Courgette tem desde logo dificuldades em integrar-se neste estranho, e por vezes hostil, ambiente. Contudo, com a ajuda de Raymond e dos seus novos amigos, Courgette acaba por aprender a confiar, encontrar o amor e mesmo uma família só sua.

O realizador suíço Claude Barras assina, nesta que é a sua primeira longa-metragem, uma obra encantadora, recheado de humor, contando-nos uma narrativa simples e direta, mas carregada de personagens fortes. É possível acompanharmos todas as fazes e uma série de situações comuns num orfanato, desde os primeiros medos e timidez à tentativa de integração e consequente rejeição do lugar e das pessoas. Depois vem a agressividade, mas por fim criam-se amizades e constroem-se personalidades fortes. Vemos também o processo de adoção forçado e a exploração da criança ao nível psicológico. Todos estes jovens ficaram traumatizados pelas experiências de maus tratos que viveram em casa. A vida não é fácil e estas crianças sabem-no muito bem. Estas crianças demonstram grande maturidade para a idade que tem, pois viveram experiências de vida que as obrigaram a crescer muito mais depressa. Muitas vezes as figuras de autoridade (os adultos) não aparecem dentro de campo a falar, ou surgem com o corpo ou o rosto cortado, o que nos dá maior foco no ponto de vista da criança. Daí este filme ser especial, diferencia-se de muitos que tem tentado abordar algumas destas questões.

É possível ter esperança de que um dia todos vamos ser amados e que não vamos ficar sozinhos. Esta é uma mensagem muito forte e importante para crianças órfãs que se encontram na mesma situação de Courgette e dos seus amigos. Com recurso à técnica de animação do stop-motion, Claude Barras cria uma obra  ternurenta, simples, sensível e dotada de uma grande beleza visual. É uma obra de visualização obrigatória, quer por crianças e por adultos, que nos dá uma grande lição de vida.

RealizaçãoClaude Barras
ArgumentoCéline Sciamma
ElencoGaspard SchlatterSixtine MuratPaulin Jaccoud
Suíça/França/2016 – Animação/Comédia/Drama
Sinopse
: Courgette é uma alcunha curiosa para um rapaz de nove anos. Porém, a sua história única é surpreendentemente universal. Após o desaparecimento da sua mãe, Courgette torna-se amigo do polícia Raymond, que o acompanha ao orfanato, cheio de outros jovens da sua idade. No início, tem de lutar para encontrar o seu espaço nesse ambiente estranho e por vezes hostil. Mesmo assim, com a ajuda de Raymond e dos seus novos amigos, Courgette acaba por aprender a confiar e pode ser que encontre o verdadeiro amor.

«A Minha Vida de Courgette» - É possível falar de coisas sérias com as crianças
4.0Valor Total
Votação do Leitor 1 Voto