Depois de “Planeta dos Macacos: A Origem” (2011), realizado por Rupert Wyatt, de “Planeta dos Macacos: A Revolta” (2014), realizado por Matt Reeves, é o seu mais recente filme que vem fechar, com chave de ouro, a trilogia iniciada em 2011.

Will Rodman (James Franco) é um jovem cientista que desenvolveu um fármaco capaz de fazer regredir os danos neurológicos que a doença de Alzheimer provocou no seu pai; porém, este efeito positivo desapareceu num curto espaço de tempo. Antes da administração do químico em humanos, foram os símios as cobaias de experimentação. Inesperadamente, os macacos que foram injectados com o fármaco, evidenciaram um fenómeno de neurogénese que lhes provocou um ganho intelectual substancial, elevando-os a um novo nível de inteligência. Após a raça símia, já livre, ter conquistado o seu lugar dentro do parque das sequoias, dez anos após essa libertação, uma epidemia quase dizimou toda a humanidade. A minoria humana sobrevivente entra em tensão com os macacos e uma guerra é iniciada.

O terceiro e último filme mostra como um Coronel (Woody Harrelson) enlouquecido e sedento de sangue levou a cabo uma perseguição aos macacos com o objectivo de explorá-los, torturá-los e exterminá-los. As semelhanças da personagem com o Coronel Kurtz, umas das personagens centrais na obra-prima de Francis Ford Coppola, “Apocalypse Now” (1979), são evidentes – e com esta aproximação à personagem de Brando, Harrelson mostra como é um ator versátil e bastante talentoso. Desde o seu visual, passando pela voz até à psicologia do horror de quem em sonhos viu – e foi – “um caracol a arrastar-se por cima do fio de uma navalha”. O Coronel persegue a família de César com a avidez de morte que nele se entranhou e César irá ter a sua derradeira prova de fogo, irá provar um sentimento de vontade de vingança que até então desconhecia.

O filme, para além de mostrar como os macacos – na figura de César – foram capazes de perceber que a pior parte da acção humana se dá a partir de uma ideia crónica de desigualdade, mostra-nos este lado psicológico ambíguo de quem se aproximou demasiado de um monstro e que, por isso, corre o risco dessa monstruosidade começar a fazer parte de si, também. Um monstro que pretende criar outro que seja moralmente capaz de o combater; isto porque aquilo que separa um monstro de um não-monstro é precisamente aquilo que separa um dedo de um gatilho: naquele que pensa, existe aí um intervalo onde cabem os valores que esse ser pensante se dá a si mesmo e que o impedem de premir o gatilho; no monstro não existe nenhum intervalo entre dado e gatilho, eles são um só, e por isso, estamos perante uma mera máquina, um ser desprovido de intervalos de vida que o façam pensar um instante, ele reduz-se a um esquema sensório-motor de morte, a uma máquina de morte, pois aquilo que vê, o seu corpo ataca até destruir – qual exterminador implacável. Conseguirá César manter vivo o seu intervalo de pensamento? O maior desastre da humanidade é que o mundo é dos imbecis mais rápidos de gatilho e são raros os justos capazes dessa destreza, pois estes encontram mais valor no intervalo, na hesitação pulsante onde se intensificam os seus pensamentos. Assim, César torna-se a última esperança, não só para símios como para os humanos.

Onde esta trilogia triunfa é onde “O Planeta dos Macacos” (2001), de Tim Burton, falha. A realização é boa, mas o argumento colocou tudo a perder. É impossível querer contar uma história tão vasta em apenas duas horas de filme. Foi essa forma apressada de contar a história que acabou por diminuir o filme na sua qualidade, ao implantar a premissa de humanos submissos a macacos, onde reina aquela velha lógica clichê onde o humano deve sofrer aquilo que inflige e os macacos passam a ser os novos carrascos. O filme pessimista pode ser a coisa mais deslumbrante que o cinema tem para dar – lembremos Kubrick, por exemplo -, mas quando não possui os ingredientes necessários, ele pode passar de um filme pessimista a péssimo. Porém, ao assistirmos, hoje, a cena final desse filme, ficamos surpreendidos pela sua capacidade preditiva, pois a verdade é que os Estados Unidos da América já estiveram mais longe de serem governados por um exército de macacos vingativos. Confesso que esta cena, actualmente, dá ao pessimismo do filme um novo sentido, mas que não chega para o tornar num bom filme. A mais recente trilogia foge desta lógica meramente vingativa e usa o tempo que precisa para enriquecer o seu argumento, criando uma hipótese ficcional capaz de revelar o contraste político entre igualdade e desigualdade, fazendo da igualdade uma possibilidade – não falo de uma igualdade ilusória e utópica, como finalidade a atingir, mas antes de uma igualdade de princípio, pressuposta em tudo, uma espécie de preconceito abençoado.

A terceira parte da trilogia destaca-se por intensificar uma crítica feroz à política dos EUA, onde ouvimos o hino nacional a ser tocado enquanto vemos um campo de concentração onde humanos exploram e torturam macacos; vemos a bandeira ser queimada pela destruição da guerra e, no final, ainda vemos (quase) toda a humanidade restante e toda a força tecnológica presente no armamento do exército americano serem completamente destruídos. Afinal, parece que o ódio é mesmo uma avalanche que ganha força e dimensão no sentido de um inevitável fim apocalíptico e que só um novo recomeço nos poderá salvar. 

Realização: Matt Reeves
Argumento: Mark Bomback, Matt Reeves / Rick Jaffa, Amanda Silver (Baseado nas suas personagens) / Pierre Boulle (Romance)
Elenco: Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn
EUA, Canadá, Nova Zelândia/2017 – Acção, Aventura, Drama
Sinopse
: Em Guerra, César e os seus companheiros são forçados a entrar em confronto mortal com um exército de seres humanos liderados por um Coronel implacável. Depois de sofrer perdas inimagináveis, César luta com seus instintos mais obscuros e entra numa missão para vingar a sua espécie. À medida que a viagem chega ao fim, César e o Coronel confrontam-se numa batalha épica que determinará o destino das suas espécies e do futuro do planeta.

«Planeta dos Macacos: A Guerra» - E que tal um Apocalipse?
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