Escrevo hoje um texto diferente do habitual. Penso que o estilo do filme comanda o estilo do texto crítico e o seu tom. Se estiver perante um filme poético, onde as imagens suscitem uma tradução poética, então as palavras vão naturalmente, quase por uma vontade própria, descrever esses quadros compostos pelo realizador. Mas, quando as imagens não são tão elaboradas e o fator estético não está em evidência, é no conteúdo que buscamos os temas para desenvolver um texto, o que torna o texto mais conceptual. Espero não cansar o leitor pela maior extensão que imprimi neste meu texto, que não é tanto uma crítica, mas uma interpretação política da trilogia. É o conceito de igualdade que me atraiu no filme e é ele que pretendo neste texto aflorar.

O cariz político que estes filmes apresentam é claro e isso enriquece-os. Vejo a ficção-científica não como um género escapista, que cria fantasias para melhor nos entreter, mas como um estímulo simbólico capaz de produzir em nós uma visão mais clara da nossa realidade. O coabitar das duas dimensões, a real e a fantástica, consegue criar distanciamentos ao fazer chocar essas duas realidades distintas. Colocar no mesmo espaço símio e humanos não é diferente da nossa realidade, mas dar aos símios a nossa linguagem e com isso vermos nascer uma nova capacidade de se organizarem politicamente, segundo um princípio de igualdade, isso já torna as coisas bem mais interessantes. Parece até uma possibilidade que nos humilha, quando vemos, no filme, o que os macacos foram capazes de fazer com a mesma dádiva que foi dada ao homem pela natureza; possuindo os símios uma vantagem especial: aprender a desigualdade com os humanos e subverte-la.

Will Rodman (James Franco) é um jovem cientista que desenvolveu um fármaco capaz de fazer regredir os danos neurológicos que a doença de Alzheimer provocou no seu pai, mas que se mostrou ineficaz no seu efeito demasiado curto, fazendo ressurgir a doença. Antes da administração do químico em humanos, foram os símios as cobaias de experimentação. Inesperadamente, os macacos que foram injectados com o fármaco, evidenciaram um fenómeno de neurogénese que lhes provocou um ganho intelectual substancial, elevando-os a um novo nível de inteligência. César é o macaco que se destaca dos outros, pois aos fatores endossomáticos – ou estritamente biológicos – que foram gerados geneticamente pelo químico em todas as cobaias, foram-lhe acrescentados os fatores exossomáticos – de cariz cultural – através da figura de Will, que o adoptou como um filho e lhe passou a melhor parte dos valores humanos. César evolui intelectualmente, inserido na família de Will, até um incidente com um vizinho o levar para uma instituição onde é encarcerado e maltratado.

Esta trilogia não é mais de que uma inteligente lição política de emancipação e, por mais incrível que possa parecer, de igualdade de inteligências – que ironicamente só é dada a ver desde uma desigualdade. Quando César toma contacto com a realidade da instituição, nota duas coisas que desconhecia antes: a primeira é o lado violento e repressivo do ser humano em todo o seu esplendor; a segunda é que aquela violência humana é exercida pela ideia de desigualdade quando esta se torna um princípio ético, ou seja, é a ideia de uma inferioridade do Outro que legitima o exercício de violência. César, que aprendeu o amor e que acaba de aprender também o ódio com os humanos, aprende assim o valor da igualdade e começa agir segundo esse princípio, impedindo os macacos de fazer uma vingança sanguinária.

Esta espécie de epifania política de igualdade leva-o a uma primeira reacção violenta – talvez dentro daquilo que Walter Benjamin chamou de violência divina -, primeiro libertando a sua espécie e depois, liderando-a no sentido de se emanciparem do domínio humano e alcançarem a sua independência – conseguiriam eles a sua libertação de forma pacífica, contra uma espécie que coloca a violência como primeira forma de assegurar e conservar o seu domínio sobre toda a natureza? Esta reacção não é desde o ódio como uma vontade de extermínio ou genocídio, é um simples sacudir-se das garras humanas que lhes aprisionam o corpo – é um habeas corpus dado pela soberania da natureza, ainda não contaminada pela luxuria sanguinária dos humanos, nem por um corpo impotente e subjugado, incapaz de reagir, criado pela religião cristã. Os símios, agora em revolução, apenas querem alcançar o parque das sequoias, um lugar onde possam formar a sua comunidade e viver com as suas novas singularidades: um espírito que aprendeu a igualdade e que, por isso, cria um código com a regra fundamental de que “macaco não mata macaco”, o que pode ser traduzido por: “nenhum macaco é inferior a outro macaco”.

Em “Planeta dos Macacos: A Revolta” (2014), uma gripe símia dizimou uma grande percentagem da população humana. É dentro de um cenário pós-apocalíptico que tudo acontece. Os macacos habitam a paisagem natural da cidade, a única que resistiu à destruição. Porém, dentro desse território símio está uma barragem que é a esperança que resta para gerar energia no sentido de assegurar a sobrevivência dos humanos enquanto espécie e levar a cabo a reconstrução da cidade.

Desta vez, a par de César, existe uma personagem central para o desenvolvimento da narrativa: Koba. Existindo uma tensão entre as duas partes, humanos e símios, César tenta pacificar as relações, mostrando aos humanos que os macacos pretendem apenas preservar o seu habitat e viver sem a intromissão invasiva dos humanos. Porém, Koba é um macaco que não teve a oportunidade de ter a educação de César, foi um macaco que conviveu apenas com o ódio dos humanos e isso aproximou-o mais do humano, na sua essência destrutiva. Koba pretende a vingança, pretende a guerra e a morte a todo o custo. Koba é o símbolo da desigualdade do lado símio; ele dá a ver que qualquer que seja a inteligência e em que corpo ela esteja, será sempre uma simples ideia de princípio que fará actuar esse corpo para a destruição ou preservação, para a exclusão e morte ou para comunhão e vida. É Koba quem começa uma guerra – que César sempre preferiu que não existisse -, quebrando a regra primordial contra a sua espécie, mas dissimulando o seu acto para poder ter o apoio de todos os macacos. Foi o ódio à igualdade, que Koba manifestava ao ver o convívio entre César e os humanos, que o levou a quebrar a regra símia e começar uma política de morte. Isto parece um perfeito espelho da nossa sociedade, da nossa história colectiva ou até mesmo dos microespaços institucionais que todos habitamos, onde reina aquela velha lógica de desigualdade e competição que permite a humilhação e onde com toda a astúcia e engenho se procuram as armas – físicas ou não – mais eficazes para que o Outro deixe de ser um embaraço e passe a ser algo calcável.

O filme põe em evidência o contraste entre César e Koba; mostra as diferenças nos seus caminhos, que os transformaram em seres diferentes, mostrando com isto que a desigualdade é apenas uma condição física induzida pela gravidade, é a manifestação, no mundo da vida orgânica, de inteligências iguais na sua essência, capazes de produzir pensamentos quaisquer sobre o mundo; de o ler e interpretar.

No último filme da trilogia, “Planeta dos Macacos: A Guerra” (2017), as questões políticas vão mais ao encontro da psicologia do ambiente de guerra, mas as questões da desigualdade ainda estão presentes. Existem alguns bons filmes de guerra, mas talvez nenhum tão bom quanto o soberbo “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Coppola. É esta obra prima da sétima arte que serve de inspiração para mostrar o horror – palavra tão simbólica, proferida pelo enlouquecido Coronel Kurtz (Marlon Brando) – do genocídio que os humanos pretendem levar a cabo.

Não é apenas a inscrição “Ape-pocalipse now” que remete para o filme de Coppola, a personagem The Colonel (Woody Harrelson) é uma nova incarnação do Coronel Kurtz. A cabeça rapada e principalmente a incrível imitação da voz de Brando que Harrelson faz dão-nos a primeira impressão que estamos perante uma espécie de Kurtz, com uma loucura menos poética mas com a mesma impiedade que o leva a acreditar que tudo é vão e dentro de si apenas existe um ódio, não apenas à raça símia mas a tudo quanto existe, incluindo ele mesmo.

O vírus que dizimou parte da raça humana sofreu uma mutação que fez com que alguns humanos perdessem a voz. O Coronel não pensa duas vezes em sacrificar qualquer humano que deixou de ter voz, o que é uma metáfora muito eficaz para mostrar o problema essencial da política. O que faz com que os processos de inferiorização ganhem vigor dentro da sociedade não é mais do que dividir a participação política de acordo com as capacidades discursivas, pois a velha definição de humano separa animal e homem pela posse de linguagem, e basta alguns (muitos) humanos serem vistos apenas como animais para que as desigualdades se legitimem e ganhe fulgor a exploração, a exclusão e até a morte. A linguagem em César torna-o não um ser humano, mas um ser que consegue ir além do humano, pois é a única inteligência que consegue agir segundo a possibilidade de humanos e símios coabitarem, renunciando a uma política de ódio e desigualdade, tão humana.

No final, aquilo que aparenta ser uma batalha desigual, pela quantidade de humanos e do seu armamento pesado, é a natureza que vem dar a última sentença e desenvencilhar-se de uma espécie da natureza que desaprendeu a inocência para se tornar uma sanguessuga astuta, uma gestora degenerada dos seus recursos. Os que se salvaram precisaram apenas de um instinto básico da natureza, uma destreza simples, a capacidade de saltar e de trepar as árvores com grande velocidade; com bastante ironia, a mais básica das tecnologias foi a aquela que sobreviveu e salvou a possibilidade de uma nova humanidade.