Esta é a primeira longa do realizador ucraniano Myroslav Slaboshpytskyi, que sucede a uma série de curtas-metragens, realizadas entre os anos de 2006 e 2012. O realizador entra neste formato com um filme bastante duro, onde mostra uma série de rituais de iniciação sanguinários que estão na base da inserção de um aluno num gangue formado desde dentro da instituição escolar.

Sergei (Hryhoriy Fesenko) é um adolescente, surdo-mudo, que acaba de chegar a uma escola para jovens com a mesma condição, onde começa uma jornada, com vários episódios de violência, para tentar fazer parte de um gangue e subir na sua hierarquia.

Em “A Tribo, as paredes, embora coloridas, são já um sintoma da obscuridade que se esconde nas profundezas do abismo caótico, pulsional e desejante das personagens. Os corredores espalham frieza, formando um ambiente inóspito que traduz a natureza bárbara das acções que elas confinam. É dentro desse lugar vazio, abismal, que Sergei inicia uma jornada de submissão que passa pela luta com os membros do gangue até compactuar com o esquema de proxenetismo perpetrado pelos seus líderes. Sergei passa a ter a tarefa de levar duas colegas para se prostituírem entre os camionistas que pernoitam naquela zona, até que paga a uma delas para ter sexo. Algo que se manifesta é o vazio dessa relação, a pura apropriação, não cabe naquele espaço ponta de paixão ou transcendência para além do visceral. Ela pretende apenas dinheiro para poder viajar para Itália. A desobediência de Sergei em continuar que a colega se prostitua e a sua obsessão em arranjar dinheiro para continuarem a ter relações tornam-se uma avalanche de sangue em movimento.

Vejo neste filme o mesmo fenómeno que podemos ver – da forma mais intensa de sempre – em “Salò ou os 120 de Sodoma” (1975), e que podemos nomear de cancelamento da beleza. Se a procuramos, estamos condenados a falhar; o ambiente gélido que as personagens habitam parecem impor um limite à forma, sendo o caos reinante que sobressai e que se plasma desde as personagens até ao meio que as envolve. Este tipo de filmes mostram-nos a necessidade da beleza pela negatividade, pela sua ausência radical, sem que a possamos vislumbrar por entre o vazio que preenche todos os espaços do filme. Para os que são sedentos de beleza, sabemos que essa não floresce em ambientes institucionais, nas hierarquias mais rígidas; pelo contrário, aí é o instinto mais básico que reina e esse só conhece obediência e submissão. Há cineastas que pretendem vestir os conteúdos mais violentos com as luzes mais belas, optando por trabalhar as formas para que a beleza se vislumbre e se dê a ver como presença redentora; não é o caso deste filme.

Estamos perante um filme que tem tanto de inteligente como de pessimista. O facto de todas as personagens comunicarem em língua gestual, sem que tenhamos acesso a qualquer tradução, faz com que a nossa atenção se foque nas acções, e através delas, tentemos imaginar possíveis diálogos; e isto é, sem dúvida, algo bastante original, tornando o filme pura exterioridade ao não conseguirmos perscrutar a interioridade de cada personagem senão pelas suas acções ou pela intensidade das expressões ao comunicarem. Esta longa de Myroslav Slaboshpytskyi tem um poder comunicativo bastante intenso e é necessário algum distanciamento para suportar a brutalidade de algumas cenas, porém, penso que o filme merece toda a atenção do olhar cinéfilo que busca uma abordagem que tenha algo de diferente e original.

Realização: Myroslav Slaboshpytskyi
Argumento: Myroslav Slaboshpytskyi
Elenco: Hryhoriy Fesenko, Yana Novikova, Rosa Babiy
Ucrânia, Holanda/2014 – Drama
Sinopse
: Um adolescente mudo entra numa escola para alunos com a sua condição, e para tentar sobrevier, começa a fazer parte de uma organização – A Tribo. O seu desejo por uma das prostitutas irá conduzi-lo a quebrar todas as regras que definem a hierarquia do gangue.

«A Tribo» - Instituição, Hierarquia e o Crepúsculo Gélido da Pulsão Destrutiva
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