Estamos perante um filme de difícil acesso, que ficou com a fama de ter chocado a audiência do 69º Festival de Cannes. Alain Guiraudie é um cineasta que cria, maioritariamente, filmes dentro da temática LGBT, e talvez, neste filme, tenha levado o seu naturalismo a um nível inusitado.

A história mostra-nos um cineasta perdido, Léo (Damien Bonnard), que ainda assim procura na natureza alguma inspiração para conseguir escrever um novo script, que tarda em aparecer. Quando viaja para a idílica planície de Lozère, conhece Marie (India Hair), uma pastora com quem rapidamente se envolve, acabando por ter um filho. A instabilidade de Léo provoca em Marie uma reacção de fuga, deixando-lhe o filho e uma consequente inquietude devido à sua inexperiência enquanto pai e uma progressiva perda de recursos.

Este é um filme bastante pessoal. Guiraudie cria uma narrativa algo surreal que parece expressar todos os seus medos mais íntimos, que deseja enfrentar – simbolicamente presente na figura dos lobos que o realizador procura encontrar na planície. Vemos retratado um cineasta que deseja uma vida familiar, mas que ao mesmo tempo foge dela por ter uma natureza que não se prende a lugar algum e que precisa de alimentar a sensibilidade criativa que não vive sem movimento e experiência. O filho, ao mesmo tempo que o assusta, também o deslumbra; porém, o tempo e atenção que dedica ao bebé começa a desviá-lo ainda mais do script que tem em mãos e que lhe exigem acabado, e aqui começa a derrapagem até à falta total de recursos para viver. É visível, ainda, a preocupação com a velhice e em como será possível viver a sexualidade quando o corpo começa a falhar na efectivação do desejo.

Todo este turbilhão de acontecimentos é vestido por um belo e calmo naturalismo visual. O espaço da planície é filmado com vários travellings desde o carro, que percorrem tanto as estreitas estradas como as verdes paisagens envolventes onde elas estão inseridas. Alguns dos momentos onde a nudez é visível vemos quadros que lembram as pinturas realistas de Gustave Courbet. A beleza visual concentra-se, ainda mais, nas cenas em que o barco se desloca ao longo de um riacho enquanto o sol se difunde por entre a folhagem das árvores. Com esta mesma luz, a neblina ganha corpo e é perpassada pelo barco até chegar ao local onde Léo se encontra com uma espécie de curandeira, que o conecta à natureza através das árvores.

Belo é também o momento de encontro com o lobo, onde Léo finalmente vê tudo o que se passou como uma provação que teve de enfrentar. Ele olha para a matilha como se os lobos fossem os factores externos e internos, os medos, que lhe assaltaram a alma e lhe viraram as rotinas criativas do avesso. Assolado pela dúvida, pela incerteza da vida e pelas garras do tempo, enquanto cuida dos seus cordeiros, o cineasta entrega-se aos lobos, deixando-se por eles arrebatar.

Realização: Alain Guiraudie
Argumento: Alain Guiraudie
Elenco: Damien Bonnard, India Hair, Raphaël Thiéry
País – Género: França – Comédia, Drama
Sinopse
: O cineasta Léo procura os lobos do sul de França. Durante a sua excursão pela planície é seduzido Marie, uma pastora com quem se envolve e tem um filho. Sofrendo de depressão pós-natal e sem confiança em Léo, que vai e vem, sem aviso, Marie abandona os dois. Leo fica sozinho tendo que cuidar do seu filho bebé.

«Na Vertical» - A natureza da vida, por entre lobos e cordeiros
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