Vi este filme com a minha amiga mais próxima e com quem mais converso sobre tudo o que seja possível e imaginário. Raramente discordamos. Nesta noite houve reações distintas ao filme e alguma fricção entre as ideias partilhadas. Parece-me inevitável e resultante de um conjunto de imagens violentas e polissémicas que impedem a perfeita e literal leitura das ações que se sucedem nesta experiência cinematográfica.

Fico com sentimentos contraditórios, quando leio sinopses de um filme que me parece tentar fugir a esse tipo de formatos em que o cinema não passa de um produto comercial para que os espetadores o possam consumir de uma forma mais consciente. Quem não leu a bula, queixa-se em diversos meios de comunicação e com os seus pares, dos efeitos secundários e de que como aquele produto não tem o valor que apregoa.

Enquanto via o filme de Darren Aronofsky pensava continuamente numa noção de confiança, de regra, de obediência ao jogo. Passo a explicar. O contar de uma estória é uma aceitação de participação num jogo. Este terá regras, as quais são explicadas pelo inventor – narrador –  e as quais teremos de interiorizar para podermos ter uma hipótese de vencer e, principalmente, para não fazer batota. O realizador d’O Cisne Negro ao escrever e realizar este filme protagonizado pela Jennifer Lawrence e Javier Bardem cria um jogo que cada um terá de jogar e encontrar o seu caminho. A palavra chave é a confiança. Encaramos este narrador demiurgo como alguém que nos irá colocar um trilho à disposição para podermos vaguear pelas imagens em movimento com alguma segurança?

Não há resposta correta e errada. Tal como não há resposta totalmente correta e errada para sobre o que é este filme e que temas aborda. Podemos ir aos créditos do elenco e ver que as personagens são todas tipo, desde a Mãe ao Ele passando por todos os outros. E então? Podemos pensar no efeito do ego artístico, o qual no extremo consome a pureza de um ser humano numa histeria religiosa. Podemos. Podemos olhar para uma mulher, uma esposa que se vê ultrapassada em todos os momentos, pela construção do seu ninho estar a ser invadido, sem que tenha nenhum voto na matéria. É possível. Podemos encarar a metáfora do amor, sintetizado num cristal com efeitos sobrenaturais, que será sempre o que resta de uma destruição total, de uma carbonização de uma vivência gorada. Gostava de discutir essa ideia e todas as outras.

Assim, proponho uma mudança do verbo: de podemos para devemos. Devemos discutir essas questões e outras. Devemos exprimir a nossa apreciação sensória, emocional, reativa a este filme. Devemos questionar o uso do plano muito aproximado sobre a face de Lawrence e sobre os movimentos de câmara nervosos que ora de uma forma anterior ou posterior, a seguem compulsivamente. Mais simples será,  devermos permitirmo-nos levar pela reação, pela expressão do filme. Se assim for, parece-me uma grande vitória para Aronofsky, para o cinema e para o espectador que não procura a alienação a vinte e quatro frames.

Adorava usar palavras para estabelecer um juízo sobre o que se passa durante o filme e sobre as escolhas do realizador, a coesão do argumento e a interpretação do elenco, mas falta-me o tempo do amadurecimento de conceitos e a distância que arrefece as emoções. Este foi o texto possível sobre uma película diametralmente diferente do habitual, com regras de um outro mundo compossível, aquele que nos conduz para uma sala escura por um par de horas.

Realização: Darren Aronofsky
Argumento: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer LawrenceJavier BardemEd Harris
EUA/2017 – Drama
Sinopse: A relação de um casal é colocada à prova quando recebem hóspedes que não convidaram e que interrompem as suas tranquilas existências.

 

 

 

 

«Mãe!» - Uma questão de confiança
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