Acho que todos nós já sentimos alguma vez aquele sentimento misterioso de pertença a um determinado espaço, a algum pedaço de terra. De onde vem, afinal, esse sentimento de saudade, que nos faz sentir falta de um lugar especial, talvez por ser a terra onde nos nasce o coração? É este sentimento que David Lowery retrata neste seu filme, através do fantasma e do corpo de C (Casey Affleck).

Casey Affleck e Rooney Mara representam um casal que vive numa casa que parece estar habitada por alguma entidade sobrenatural. Quando C morre, decide voltar para casa e lá permanecer, acompanhando o luto da sua mulher.

Aquilo que parece ser um filme sobre a vida particular – e o além-da-vida – de um casal que foi pela morte separado, alastra-se até um nível cósmico e universal. Não se trata, apenas, de mostrar como uma mulher enlutada lida com a recente perda do marido, mas de mostrar como o nosso gesto de habitar a terra se torna a nossa essência, gera o nosso modo de viver. Somos seres finitos que constroem e projectam à medida que habitam – tal como Martin Heidegger pensou no seu belíssimo ensaio «Construir, Habitar, Pensar». A história de um fantasma é a história dos seus gestos, dos seus amores, mas é também a história de tudo aquilo que transcende a sua vida pessoal; é a história dos espaços, das suas transformações, das demolições e construções; das camadas de terra-tempo que a vida construiu, sobrepondo umas sobre as outras, até chegar a nós – e que irá muito além de nós.

O ritmo do filme é perfeitamente lento. A fotografia ajusta-se completamente à forma poética que Lowery imprime no seu filme. A música cria sempre um ambiente de ascese, que faz com que toda a matéria presente na imagem ganhe um poder de transcendência. Destaco a forma como os planos da casa são filmados, ora com lentos travellings, ora com pequenas panorâmicas que ajudam a contar a história; com esses planos, o realizador consegue mostrar-nos, de forma tão bela e subtil, que o espaço da casa é o eixo de todo o filme. Não se trata de falar das pessoas, mas dos espaços que elas habitam.

Podemos já antecipar que este filme, ironicamente, vai ser uma espécie de fantasma, isto é, irá passar despercebido devido à falta de almas pacientes, que possam ir buscar prazer a tal quietude, desvelar a beleza que se esconde em cada plano, assim como buscar o pensamento que neles está contido. Nada disto faz um mau filme, mas um filme exigente, que pede um maior esforço da nossa capacidade de atenção, porque vai-nos pedir mais do movimento interior das nossas faculdades do que do seu movimento próprio. Cá para mim, estamos perante um dos melhores filmes de 2017.

Realização: David Lowery
Argumento: David Lowery
Elenco: Casey AffleckRooney MaraMcColm Cephas Jr.
EUA/2017 – Drama/Fantasia/Romance
Sinopse:

«A Ghost Story» - Contemplação da Terra que nos contempla
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