A realizadora Tiziana Panizza mostra que afinal a Ilha de Páscoa não é apenas aquele território onde descobriram misteriosas estatuetas. Embora, nas nossas cabeças, esse lugar nos remeta quase automaticamente para imagens de enormes pedras esculpidas, este documentário quer fazer ver que afinal ele contém pessoas. Os Rapa Nui, habitantes nativos da Ilha de Páscoa, sentiam que a Ilha era um espaço separado do resto do mundo, e as águas que a ladeavam eram as paredes que tornavam aquele pedaço de terra numa prisão a céu aberto. O governo do Chile usou o território para construir uma prisão, mas a pergunta que emerge é: como uma prisão pode fazer sentido quando ela está inserida dentro de outra prisão? Os presidiários podem visitar os seus familiares, trabalhar ou passear fora da prisão. Os que vivem fora dela vivem também na clausura, mas esta é criada pelo governo chileno, pela forma como exploram as terras, como se os seus habitantes fossem seres inferiores ou simplesmente corpos de trabalho a serem explorados, tal com as terras que pisam.

O filme possui imagens de arquivo, captadas por etnógrafos, e combina-as com imagens captadas actualmente. A montagem é peculiar. A realizadora opta por fazer cortes abruptos, mesmo em momentos em que a voz off nos conta a história, criando uma sensação de incompletude e descontinuidade. Porém, pode ser uma forma de dizer que o conteúdo que está a ser mostrado fala de vidas que foram, em alguns momentos da sua história, interrompidas.

O filme quer dar a ver as histórias que ninguém conta, que se escondem amiúde por trás dos simulacros criados pelo mediatismo atual, que esquece e silencia estas questões onde o poder colonial está legitimado a esmagar todo um povo. Mas, enquanto houver sol e luz na Terra e câmeras, que muito objetivamente apontam o dedo, as Palestinas e Ilhas de Páscoa do nosso mundo irão sempre aparecer diante dos nossos olhos, mais ou menos destruídas, mais ou menos desumanizadas, mas eternamente vivas, redimidas e dignificadas.

Realização: Tiziana Panizza
Argumento: Tiziana Panizza
Elenco:  
Chile – 2017
Documentário
Sinopse
: A Ilha de Páscoa é conhecida através das famosas esculturas antropomórficas monumentais que enfrentam o Oceano Pacífico. Todos nós já vimos essas imagens de pessoas feitas de pedra, sem saber quase nada sobre as pessoas que realmente viveram lá durante séculos. A cultura dos Rapa Nui conseguiu sobreviver à colonização chilena apesar do que pode ser considerado como um apartheid e uma ocupação drástica de terras da população nativa. Ao confrontar a nossa conceção de diferença cultural, Tierra Sola questiona os princípios coloniais que todos herdamos. Combinando found footage, material etnográfico e narrativas contemporâneas, este filme é uma jornada profundamente poética e pensativa sobre a história e a cultura desta ilha distante. É também um tributo sensível ao povo Rapa Nui e uma investigação filosófica sobre isolamento, liberdade, pertença e exílio.

«Tierra Sola» - Uma terra é a subtração de todos os simulacros com que a vestem (Porto/Post/Doc 2017)
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