Em 1976, Martin Scorsese mostrou uma cidade e um submundo, através do olhar de um dos seus trabalhadores mais desprezados, o taxista. Figura noturna que transporta passageiros, segredos e observa a sordidez e a nua realidade de pessoas e de uma urbe que sem proteção se expõem perante os elementos na procura da sua sobrevivência.

Neste filme do realizador búlgaro Stephan Komandarev, premiado com o melhor argumento no Festival de Cinema de Gijón, “Táxi Sofia”, viajamos à boleia do taxista, personagem que ultrapassa as fronteiras sociais, enquanto metáfora de um veículo que percorre a cidade e toma conta do pulso de um país que se debate com as dificuldades económicas, as quais lançaram a população numa deriva moral.

A premissa é o acompanhamento de diversos taxistas, com uma perspetiva narrativa borgiana muito superficial de caminhos e personagens bifurcadas, pelo presente que partilham e inevitavelmente um passado comunista que continua a não os abandonar, como chumbos que carregam nos bolsos e que não os permite atingir a superfície. O filme vive da surpresa do que acontecerá em seguida, por isso, opto por nem sequer revelar a primeira linha narrativa. Simplesmente, somos conduzidos pela noite da capital búlgara; conhecendo os seus passageiros; observando as ruas e os contrastes comerciais, presentes nos néons e nas lojas de penhores com títulos como ‘Generosidade’, paredes meias com um Casino; e ouvindo os soundbites de um fórum noturno radiofónico, encontrando as mesmas opiniões de uma caixa de comentários online mas com o corpo da voz.

Por momentos, as imagens transportaram-me de Sófia para a Lisboa de 2012, no pico da crise portuguesa. É um filme que se apropria da ruptura económica para dissertar sobre a crise de valores que acompanha, e que infelizmente se instala, revelando o denomidador comum da violência e da intolerância para com o nosso semelhante, agravando-se se este for um nosso semelhante distante, diferente e estrangeiro. A distância geográfica e cultural da Bulgária a Portugal esbate-se na perceção muito clara de que a União Europeia, não é um El Dorado, nem é a solucão para os problemas. Pelo contrário, cria outros, principalmente a atração irresistível pelo dinheiro fácil a uma sociedade que está, passando a espressão, tesa. Até a água envenena depois de uma sede extrema.

O dispositivo está bastante exposto, um pouco demais. Há bastante inverosimilhança para uma só noite e cenas pouco críveis, pelo que seria interessante um maior apuro da ilusão narrativa, de forma a ser mais perfeita. Contudo, não choca, por um motivo que se prende com a escolha da cinematografia. O trabalho de câmara e de imagem privilegia o plano contínuo, a câmera à mão, a sequência longa, sem cortes, usando panorâmicas que percorrem o banco dos passageiros, passando pela expressão do taxista e terminando no exterior inóspito de uma capital falida. Este estilo mimifica, o que ouvimos na rádio, o género televisivo de reportagem, a captura através de dispositivos móveis, o que acaba por mitigar esse dispositivo tão óbvio, permitindo essa confusão e amálgama de referências, que introduz a dúvida se estamos a ver um filme, uma reportagem, um vídeo amador, ou se estamos mesmo dentro de um táxi em Sófia.

Realização: Stephan Komandarev
Argumento: Stephan Komandarev
Elenco: Vasil Banov, Ivan Barnev, Assen Blatechki, Stefan Denolyubov
Bulgária/Alemanha/Macedónia – 2017
Drama
Sinopse
: Durante uma única noite, e depois de um ato de desespero provocar um debate a nível nacional, o destino e as vidas de várias pessoas cruzam-se em diferentes viagens de táxi pela cidade de Sófia. Pontuadas por um feroz e pungente humor negro, as histórias de cada um destes condutores e passageiros servem-nos de guia, e por entre momentos de amor, de devoção, de indiferença, e de solidariedade, compõe um retrato colectivo de uma sociedade à procura de um caminho a seguir e com esperança numa nova direcção. Afinal, a Bulgária é hoje um país de optimistas, depois de todos os pessimistas e realistas terem partido para outros lugares.

«Táxi Sofia» - 'Era para Sófia, capital falida da Bulgária, se faz favor...'
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