O Festival Caminhos do Cinema Português selecionou nesta quarta-feira, (29 de novembro), o filme Al Berto do realizador Vicente Alves do Ó para sua sessão da “Seleção Caminhos” no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.

O filme é o segundo da Trilogia de Poetas, projeto que começou com Florbela Espanca (2012) e sabe-se que terminará com Almada Negreiros, embora ainda não haja previsão de produção do mesmo. Segundo o realizador, suas escolhas para a trilogia são puramente emocionais e derivam do grande fascínio que teve desde sempre com a poesia.

Porém, Al Berto chega a ser mais do que simplesmente uma demonstração de afeto a imagem do poeta: há um carácter biográfico e íntimo na realização deste filme. João Maria do Ó, irmão do realizador, é um dos personagens principais da trama, interpretado por José Pimentão, e o próprio Vicente aparece também no filme, mas como uma criança de 4 anos.

Confesso que quando o filme acabou, a primeira coisa que veio à minha cabeça foi: e agora? Como hei de escrever sobre esse turbilhão de sentimentos que estou a sentir? E como o realizador, de todas as maneiras que podia ter acabado o filme, escolheu-o fazer desta forma? Fiquei um pouco indignada e com uma vontade absurda de continuar a viver na atmosfera lúdica que Vicente Alves do Ó criou.

Eu vivi este filme.

É complicado assistir um filme pela primeira vez tendo em mente que preciso extrair dele alguns aspetos passíveis de discussão. O meu problema com Al Berto foi que, logo no início do filme, fui completamente raptada pela sua dimensão, o que me dificultou a análise dos aspetos formais. Não é incrível quando isto acontece a um cinéfilo?

Desde já nos contextualiza: o filme passa-se na década de 70, após o 25 de Abril, e o sentimento revolucionário paira no ar. É um sentimento de liberdade, ou a ânsia por buscá-la, que conduz os personagens na trama. Al Berto vai representar toda uma geração que após a revolução tenta viver a liberdade prometida, tanto a sexual quanto a ideológica.

O filme começa com uma conversa entre uma prostituta e o poeta recém-chegado, sem revelar a princípio o rosto do ator Ricardo Teixeira. Essa conversa serve de apresentação desses dois personagens, dessas figuras misteriosas, e é como uma profecia que vai lançar-nos na história do filme. Essa mulher-oráculo, é uma personagem, quase que mística, que Vicente Alves do Ó vai buscar de tempos em tempos ao longo do filme e que vai representar o inconsciente do poeta, como uma pausa para reflexão dos acontecimentos. É o dispositivo utilizado para começar e fechar o filme.

As atuações impressionam: quase todos provenientes de companhias de teatro, fazem jus à estreia no Cinema. O amor entre os amigos que habitam o palácio é uma ideia fundamental para a conceção da atmosfera do filme, e o elenco transmite essa ideia muito bem. Além disso, a preocupação de Vicente com os diálogos entre eles é notável. Tratando-se de um filme sobre poetas, quase todos os diálogos que parecem triviais são, na verdade, complexos e apoiados na métrica.

O resultado é uma grande homenagem a um lado desconhecido do famoso poeta português. É um retrato íntimo de uma vanguarda artística em Portugal, que se passa longe dos holofotes lisboetas. A vila de Sines foi marcada por essa geração de jovens que fugiram de um passado opressor para abrir frente a um futuro, que embora incerto, seria próspero de liberdade. Sentimos o medo, a angústia, o desejo, a libertação e consequentemente, a repressão que se sucede desses atos. Pois descobre-se que, infelizmente, o futuro ainda não havia chegado à Sines.

Realização: Vicente Alves do Ó
Argumento:Vicente Alves do Ó
Elenco: Ricardo Teixeira, José Pimentão, Raquel Rocha Vieira 
Portugal – 2017
Drama
Sinopse
: Em Sines, numa época de revolução, Al Berto dá corpo a uma geração em mudança. Al Berto cria um grupo de amigos e juntos transpiram juventude, excentricidade, sonhos de mudança, mas pouco tempo após a revolução, a cidade ainda não está preparada para tanta liberdade – liberdade para amar sem medo.

«Al Berto» - Um sonho de liberdade dos filhos de Sines (Caminhos 2017)
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