Para que Ártemis apaziguasse os ventos e permitisse que a frota helénica pudesse atravessar o Mar Egeu até às costas da Ásia Menor, e cercar a muralha da cidade, domadora de cavalos, de Tróia, Agámemnon, líder dos reis aqueus do Peloponeso e da Ática, é instado a sacrificar a sua filha Ifigénia. Com hesitação o rei de Micenas é coagido pelo seu irmão Menelau, o qual pretendia restablecer a sua honra e recuperar a sua esposa, e executa um dos maiores opróbrios –  assassina a sua filha mais velha.

Se já se encontra alienado, não continue a ler, e veja só o filme. Se ainda não perdeu o seu interesse, fique sabendo que este primeiro parágrafo é um piscar de olho para a compreensão do título do novo filme de Yorgos Lanthimos “O Sacrifício de um Cervo Sagrado”, bem como uma possível chave, tanto no conteúdo como na forma da escrita, para abrir o intricado labirinto de realidade criado pelo realizador grego nesta sua última obra.

A vida de Anna e Steven Murphy, ambos médicos, oftalmologista e cirurgião cardiologista respetivamente, e seus filhos é alterada pela presença de Martin, filho de um paciente, que Steven na sua posição demiurga não conseguiu salvar na mesa de operações. Martin furiosamente sereno reclama o seu direito veterotestamentário de um olho por um olho e um dente por um dente. O mesmo Steven que salva vidas terá que tirar uma ou arriscar-se a perdê-las todas.

Entre planos com movimentos de câmara agressivos e aziagos e uma banda sonora criadora de uma atmosfera de inquietação e constante intranquilidade, o realizador de “Canino” agita a plataforma, na qual penetramos na vida destas personagens, por forma a nos criar uma constante perturbação moral, da qual nenhum espetador poderá sair da sala de cinema imaculado, sem por um momento, pensar na violência mental e física de qual seria a sua reação perante uma situação tão limiar e um dilema tão profundo.

Mais uma vez, Lanthimos co-escreve um argumento insólito e invulgar, mas verosímel colocando o enfoque na escolha, na responsabilidade do indíviduo e na reação à impotência perante uma força maior. Contrariando a sua lógica científica médica, força-o a descer ao submundo de um poder sobrenatural, submetendo-o às regras de uma fé que desconhece e da qual nunca foi crente. Com Steven descemos nós, igualmente, ansiando pela catarse que o vislumbre de uma outra saída ou a alternativa de despertar dessa brincadeira Hanekeniana poderá provocar. Deixai toda a esperança.

Yorgos Lanthimos usa um variado espetro de textos e mitologias criadoras, bem como técnicas densas e exageradas, para criar um thriller psicológico, em que ao contrário de A Lagosta, a premissa não é tão fantasiosa, nem implica uma suspensão da descrença tão acentuada, provocando um eco intenso no espetador. Para além da torrente de referências a textos basilares da civilização europeia e cristã, há também o recurso a planos reminiscentes de diversos realizadores, como Kubrick no “Shining”, pelo uso da câmara que segue as personagens e que se eleva para picados que causam estranheza ou do uso do rufar de tambores para criar tensão. De resto, a banda sonora usa diversas peças de música erudita, como Ligeti, elevando esse ambiente de insegurança a pontos máximos.

Um excelente regresso a uma realidade mais próxima do que se designa por uncanny presente no seu filme de 2009 vencedor do prémio Un Certain Regard em Cannes, do qual nunca se poderá sair indiferente, mesmo que com alguma náusea.

Realização: Yorgos Lanthimos
Argumento: Yorgos LanthimosEfthymis Filippou
Elenco: Nicole Kidman, Alicia Silverstone, Barry Keoghan
Reino Unido/Irlanda/EUA – 2017
Drama/Mistério
Sinopse
: Steven é um cardiologista conceituado, casado com Anna, com quem tem dois filhos. Já há algum tempo que ele mantém contato frequente com Martin, um adolescente cujo pai morreu na mesa de operação, justamente quando estava a ser operado por Steven. A relação entre ambos é de uma cumplicidade enorme que o médico decide apresentá-lo à família. Entretanto, o jovem sente que não está a receber a mesma dedicação e, por isso, decide elaborar um plano de vingança.

«O Sacrifício de Um Cervo Sagrado» - E eis que Lanthimos nos submeteu a uma prova, convocando-nos para o seu filme.
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