Recebido unanimemente pelo público e pela crítica, tendo vencido aliás o Leão de Ouro em Veneza, em 2017, e uma mão cheia de outros prémios que o levaram a ser o favoritos aos Óscares 2018, com 13 nomeações. “A Forma da Água”, a nova longa-metragem do mexicano Guillermo del Toro, com um argumento seu e de Vanessa Taylor.

Del Toro apresenta uma fábula adulta, sobre uma história de amor entre uma mulher solitária (Elisa) e um monstro preso num laboratório, passada na América de 1962, com a Guerra Fria em pano de fundo.

Como é que um filme destes é nomeado para 13 categorias nos Óscares já não surpreende muito, mas ganhar o Leão de Ouro em Veneza é que não se entende. Hollywood vive hoje momentos conturbados de manifestações feministas que denunciam os casos de assédio sexual, como o #MeToo e o Time’s Up. Em 2016, com #OscarSoWhite, foi a polémica da falta de diversidade na escolha dos nomeados não ter homens e mulheres de raça negra. Os problemas são sérios e verdadeiros. E estes movimentos são importantes pois acabam por dar destaque a estas desigualdades. Hollywood quer dar o exemplo de boas maneiras e de bom senso de diversidade e igualdade. Parece que qualquer filme que aborde estas questões serve para tapar os seus olhos. Mas não é com filmes como “A Forma da Água” que se discute o assunto de forma séria.

Uma história vulgar e previsível, que cumpre os requisitos de Hollywood do politicamente correcto. Recorre a personagens estereótipo que são vítimas de intolerância e descriminação por parte dos outros. Uma mulher negra que é vitima racial e do seu marido, um vizinho que é vitima por ser homossexual, uma mulher muda (Elisa, a heroína que dá ‘voz’ a esta luta contra a desigualdade) é vitima por não conseguir comunicar e um monstro marinho é vitima por ser “diferente”. E a diferença causa medos e preconceitos. Daí que todas estas personagens sejam descriminadas. Esta é uma historia de amor muito forçada do inicio ao fim. Já para não falar do quão forçada e absurda é a ideia de que uma mulher (um humano) consegue ter relações sexuais com este monstro e de que este consegue curar os humanos, mas depois não tem forças para combater o inimigo. Os truques e simbologias que Del Toro usou para contar esta historia são descabidos e vulgares. Nesta obra falta, entre muitas outras coisas, a inocência de “O Labirinto do Fauno” (2006), também este uma fábula para adultos, onde a fantasia e a realidade impressionam.

Sabemos que o sub género “monster movies” influencia e inspira muito a obra de Del Toro e o seu universo. “O Monstro da Lagoa Negra” (1954) de Jack Arnold é talvez a referência mais notária para este filme, pela caracterização do monstro. E não é a primeira vez que vemos histórias de amor entre humanos e monstros, como por exemplo em “A Bela e O Monstro”, “King Kong”, “A Noiva Cadáver” ou “Eduardo Mãos de Tesoura”. Filmes como “Frankenstein” (1931) ou “Freaks” (1932), são exemplos mais sérios, reais e criativos sobre o preconceito na sociedade.

“A Forma da Água” é forma de coisa nenhuma. Pois não há nada de novo aqui. Não apresenta nenhuma ideia nova. É mais do mesmo em Hollywood. Assim como as interpretações de Sally Hawkins e de Octavia Spencer não são transcendentes. São apenas competentes. A mensagem da luta contra a descriminação e a favor da diversidade está mais do que batida. O que não faltam, felizmente, são filmes que tratam estas questões sem recorrer a monstros e a magia.

Realização: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon 
EUA – 2017
Drama/Fantasia
Sinopse
: Uma fábula maravilhosa, passada na América de 1962, com a Guerra Fria em pano de fundo. No laboratório secreto de alta segurança do governo onde trabalha, a solitária Elisa está presa numa vida de isolamento. A vida de Elisa muda para sempre quando ela e a sua colega Zelda descobrem uma experiência secreta.

«A Forma da Água» - Forma de coisa nenhuma
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