A minha introdução ao cinema de Guillermo del Toro foi com o seu mais recente e muito badalado filme “A Forma da Água”, vencedor do Leão de Ouro em Veneza e nomeado para 13 Óscares. O bom de ser a primeira obra que vejo do realizador é que terei várias oportunidades de me surpreender pela positiva com outros filmes seus.

A água no filme é abundante e rapidamente chega até aos nossos olhos, mas em nenhuma altura lhes mata a sua natural sede de cinema. Pegando na mesma ideia de uma forma da água que dá mote ao filme, podemos dizer que a forma que del Toro imprime no seu filme é tão flexível quanto a da própria água, porém no seu sentido mais negativo. O argumento é uma espécie de torrente cega, um jorrar de imagens, excecionalmente trabalhadas e elaboradas para vestir coisa nenhuma. Logo aqui existe um desperdício estético inacreditável, pois como pode existir tanto trabalho na construção da plasticidade da imagem, na luz, na coloração, nos cenários, no guarda-roupa, para tudo isso se tornar uma aparência vazia?

O filme não tem argumento, tem um desfile de imagens vistosas que perdem o seu poder de afecção e emoção por não representarem nenhum tipo de história, personagem ou tensão interna. As personagens, ao nível simbólico, não possuem qualquer espessura, são meras presenças físicas que remetem para uma representação social, como se fossem meras ilustrações coladas nas suas testas – a mulher solitária e sem voz, o homossexual velho e careca, a negra que atura um marido tradicional e a coisa grotesca a ser impiedosamente dissecada. Nenhuma destas personagens existe realmente, porque nenhuma delas possui uma história ou relação efectiva com outra personagem ou com alguma coisa que as envolva. O que querem as personagens? O que as motiva a agir? Não vislumbramos nenhum interior, nenhuma vontade ou impulso que, numa história de amor, deveria ser a força invisível mais visível.

Mas, resta ainda procurar esta camada emotiva na música. A música possui o poder assombroso de fazer as coisas falarem, de dar espessura à aparência. A banda sonora de Alexandre Desplat não consegue dar a ver o que as personagens escondem, porque elas estão vazias? E quando assim é, a música funciona como um simples ornamento que embeleza uma superfície frágil, carente de força simbólica.  As lembranças que Elisa tem dos musicais e dos sapateados não possuem uma relação com o seu interior, no entanto a cena em que Elisa pretende expressar o seu amor pela criatura da água está extremamente bem elaborada, e uma coisa é certa, ninguém pode negar os dotes de realização de Guillermo del Toro.  Mas, mesmo mostrando todo esse virtuosismo na forma como filma, persiste a pergunta sobre a identidade e interioridade de cada personagem, o que as (e)motiva?

Embora formalmente, o argumento careça de tudo aquilo que lhe deveria dar vitalidade, as interpretações de Sally Hawkins e Michael Shannon destacam-se, pois conseguem sobressair mesmo quando a estrutura onde assentam as suas personagens colapsa por baixo dos seus pés. Os atores fazem a sua performance de forma absolutamente competente. Podem não poder mostrar aquilo que não se esconde, mas mostram a expressividade de um vilão, no caso de Shannon, ou de uma mulher com um ar inocente e com um sorriso deslumbrante. Porém, estas emanações expressivas são fruto do cunho interpretativo dos actores e não resultam de um contexto onde elas se possam tornar mais do que simples performances individuais – não emanam de um todo nem a um todo voltam.

Ficamos duas horas à espera que uma história nos seja contada, que o filme comece, verdadeiramente. Guillermo del Toro oferece-nos um banquete visual, caro e vistoso, mas não satisfaz em nenhum momento o apetite emocional e catártico que se espera de uma tragédia arquetípica de um amor impossível.  O mais curioso é que um filme pode até ter uma realização com esmero, uma estética irrepreensível, performances brilhantes e mesmo assim lhe faltar as forças emocionais invisíveis que fazem do filme um corpo vivo de afectos.  Quando vimos “Eduardo Mãos de Tesoura”, e com ele passamos uma experiência cinematográfica das nossas vidas, então a fasquia eleva-se a uma altura não muito justa para o realizador que se vai aventurar no mesmo tipo de narrativa. “Eduardo Mãos de Tesoura” talvez seja o filme que repeti mais vezes, por ser um dos filmes da minha vida, e em todas as vezes senti aquela magia inexplicável de entrar num mundo de sonho, onde só o cinema nos consegue levar. Sinto que com “A Forma da Água” nada aconteceu em mim tão simplesmente porque nenhuma história foi contada.

Realização: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon 
EUA – 2017
Drama/Fantasia
Sinopse
: Uma fábula maravilhosa, passada na América de 1962, com a Guerra Fria em pano de fundo. No laboratório secreto de alta segurança do governo onde trabalha, a solitária Elisa está presa numa vida de isolamento. A vida de Elisa muda para sempre quando ela e a sua colega Zelda descobrem uma experiência secreta.

«A Forma da Água» - Quando nos querem atirar água para os olhos
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