Directamente dos Estados Unidos da América, o realizador Preston DeFrancis traz ate à 38ª edição do Fantasporto a sua primeira longa-metragem, “Ruin Me”. O filme, durante o ano de 2017, arrecadou vários prémios em vários festivais de cinema dedicados ao género de Terror, e tenta agora alargar o seu palmarés nesta edição do festival portuense. 

“Ruin Me” é um filme que surpreende pela sua simplicidade. É uma produção modesta e isso mostra que o cinema não necessita sempre de grandes cenários ou efeitos especiais para nos dar uma excelente experiência cinematográfica. Esta simplicidade deve-se, sobretudo, ao seu argumento.

Um grupo de amigos decide participar num jogo chamado “Slasher Sleepout”, uma experiência que pretende simular a realidade de um filme de terror; porém, essa experiência irá ser uma vivência singular dentro da mente de uma das participantes, Alexandra.

O filme vive de uma ambiguidade que o faz respirar até ao seu último folgo na projecção. O espectador fica num espaço indeterminado algures entre um jogo inofensivo, dentro da temática de Terror, e um verdadeiro filme de terror, onde as personagens estão a ser realmente assassinadas. Ao colocar-nos neste espaço ambíguo, o filme dá uma realidade extra à ficção, pois o jogo inofensivo começa a ser a realidade mais fraca em relação à ficção que nós, espectadores, esperamos que esteja a acontecer – já que esperamos estar a ver um filme de terror e não apenas um jogo. Esta indeterminação entre o inofensivo e o ataque real às personagens é uma ideia bastante original, que torna o processo do filme indecifrável até nos ser revelada a verdade – e mesmo nesta permanece uma certa ambiguidade.

Tudo está focado na mente de Alex. A certa altura percebemos que a personagem tem um papel especial, ao revelar destreza mental para decifrar enigmas, mas sobretudo na sua percepção da realidade. É em Alex que a ambiguidade ontológica vive: afinal o que ela está realmente a ver? Estamos sempre entre a possível alucinação e a perceção do real; mas o filme faz precisamente essa suspensão ontológica: afinal o que é real e o que não é real? Como distinguir?

Nathan é o namorado de Alex. É bastante carinhoso e, revela durante todo o decorrer do jogo, uma preocupação permanente com Alex. Além do mais, foi uma presença essencial na vida de Alex, no sentido de a fazer ultrapassar uma vida de vício, depois de ter estado perto da morte, devido a uma overdose de heroína; mas, isto é apenas uma aparência… Em Nathan reside outra ambiguidade do filme: a ambiguidade moral.  Será que o namorado exemplar resiste ao ciúme? A cena final do filme é a cereja no topo do bolo. Nathan revela o lado reprimido, a doença provocada pelo excesso de sobriedade – e, simbolicamente, essa sobriedade irá ter arestas demasiado afiadas. Entre a moral do vício e da sobriedade, descobrimos que afinal todos os moralistas vedam o seu poço pulsional com mecanismos normativos de negatividade como se isso fosse a sua droga mais querida, mas isso não impede que um transbordamento não aconteça sob as formas mais terríveis. Há ainda um vício, dissimulado e insidioso, na vontade de ordem e de normalização.

No final, o sangue é uma presença viva. A câmara afasta-se, o silêncio toma conta de cena, e a expressão final de Alex, lembra-nos a expressão de “Carrie”, de Brian De Palma. Alex, banhada em sangue, enfrenta a câmara e desenha um gesto de grito fenomenal, que diz o desespero que é viver entre o turbilhão de pulsões que nos constituem e as exigências socias de normalização. “Ruin Me” foi uma excelente surpresa e merece ser distinguido pela sua originalidade; pela forma aparentemente simples como levanta questões éticas e morais tão essenciais.

Realização: Preston DeFrancis
Argumento: Trysta A. Bissett, Preston DeFrancis
Elenco: Marcienne Dwyer, Matt Dellapina, Chris Hill
EUA – 2017
Horror/Thriller
Sinopse
:

 

 

 

«Ruin Me» - Do entretenimento básico às maravilhas da ficção
4.0Valor Total
Votação do Leitor 0 Votos