Esta entrevista foi realizada e cedida por Alegría R. Beltrán durante a Sessão de Abertura do 38º Fantasporto. O vídeo e fotografia é de Pablo N. Casillas.

No dia 20 de fevereiro a 38ª edição do Fantasporto – Festival Internacional de Cinema de Porto abriu as suas portas com o filme de Sergio G Sánchez, “Marrowbone”. No contexto deste festival falamos com o realizador.

A.R.B.- Em 2002 ganhou o Prémio de Curta Metragem Cinema Fantástico do Fantasporto com o filme 7337. Como se sente ao voltar 16 anos depois com o filme de abertura?

S.G.S.- Com surpresa de que já tenham passado 16 anos, parece que foi há muito pouco tempo. Estou muito contente porque sou muito sentimental e gosto de voltar aos lugares onde fui feliz, ganhar aquele prémio foi completamente inesperado e muito emocionante. Acho que era o primeiro festival internacional ao qual concorríamos e apesar do filme ter funcionado bastante bem em Espanha, pensamos que o Fantasporto nos ultrapassava. Quando realizei 7337 já tinha escrito o guião do Orfanato e pensava que seria o meu primeiro filme; esta curta, num dos festivais em que participou, propiciou o encontro com Guillermo del Toro e com J.A. Bayona que me propuseram fazer um filme. Nunca pensei que O Orfanato iria ter o sucesso que teve e que me colocaria no papel de guionista, o que nunca foi a minha intenção. Há ecos daquele trabalho no Orfanato e também agora em Marrowbone. Agora fiz o filme que queria fazer e, de facto, há temas que são similares aos de 7337.

A.R.B.- Qual é o major desafio com o que se confronta ao passar de guionista a realizador?

S.G.S.- O guionista tem o controlo absoluto do que está a fazer, essa página é escrita por ele, por mais ninguém, mas um guião não é uma obra acabada, é um mapa de viagem para uma equipa cristalizar num filme. A maior responsabilidade é fazer entender a essa equipa toda qual é o filme que tens na cabeça, porque a partir dum guião podem-se fazer muitos filmes diferentes, e canalizar os talentos todos que se conjugam na realização de um filme, controlando que não escape ao que queres exprimir é, de facto, o maior desafio. Eu sofro muito quando estou a escrever e quando chegas às filmagens há 90 pessoas a perguntar coisas ao mesmo tempo, tens dez horas de trabalho e tens de as explorar ao máximo, a maquinaria não pára e não te podes dar ao luxo de deixar nada para o dia seguinte como quando escreves um guião. Um filme pode levar muitos anos na gaveta – dezasseis no meu caso – mas depois chegam essas horas mágicas da filmagem onde cada minuto pode pôr tudo em risco e é apaixonante.

A.R.B.- Estudou cinema em Nova Iorque, tem algum conselho para os estudantes de cinema que sonham fazer o seu primeiro filme e chegar à fase em que o Sergio está agora?

S.G.S.- Devem ser conscientes de que não é um lugar ao que se chega por ter um diploma, tem que se demonstrar que se é guionista, ou realizador, filme a filme, e cada vez é como começar de zero. As coisas têm mudado muito desde que eu comecei, na altura não era possível fazer cinema sem estar numa escola e estudar cinema em Espanha era impossível pois não havia nenhum sítio. Para um miúdo de Oviedo como eu, fazer cinema era um sonho impossível, contudo tive a sorte de conseguir uma bolsa e, meio enganando os meus pais, fiquei em Nova Iorque o curso todo. Naquela altura filmávamos com equipas de 35mm que não eram acessíveis a toda a gente, mas hoje em dia há fácil aceso a uma câmara com qualidade suficiente para se poder projetar num cinema, e qualquer computador é uma sala de edição, por isso eu recomendaria a quem quiser fazer cinema que comece já a faze-lo, não espere até estar numa escola, começar a gravar e a errar, pois aprende-se muito mais dos erros que dos achados. O que me parece mais valioso numa escola de cinema é que se faz um primeiro núcleo, uma primeira equipa que pode ajudar-te a desenvolver as tuas histórias. Começa-se a criar a própria família.

A.R.B.- Considera-se mais um cineasta europeu ou americano?

S.G S.- Não tenho a certeza de que a linguagem cinematográfica tenha nacionalidade. Penso que é antes uma linguagem universal. Como a música, o fantástico do cinema é que pode ultrapassar as línguas e as barreiras. Há códigos diferentes em cada cultura ou cada cinematografia. Por exemplo, há diferenças entre o tipo de cinema-estúdio americano e o cinema mais independente, mas a questão de ser mais europeu ou americano, não sei. Curiosamente, na escola de Nova Iorque víamos muito cinema europeu e havia muitos alunos que nunca tinham visto filmes de Michael Curtiz, Billy Wilder ou Howar Hawks e que, no entanto, admiravam Buñuel, Eisenstein ou Michael Powell. Se houver marcas americanas no meu cinema, estas vêm diretamente do cinema com o qual cresci. A exposição a todos aqueles filmes foi o que marcou a minha infância, mas o meu percurso também não é o normal, pois passei a infância em Asturias e a adolescência entre Texas e Nova Iorque, por isso tenho uma mistura de influências. Há, porém, uma escola de cinema que as pessoas da minha geração tiveram e que as gerações atuais não têm. Nós tínhamos uma televisão pública que programava filmes de grande qualidade de todo o mundo e de todo tipo e isso deu-me uma excelente base. Paradoxalmente víamos mais cinema na altura – quando era muito difícil aceder a ele – do que nos dias atuais em que tudo pode ser visto com um só click. Quando o acesso é assim tão fácil não damos o mesmo valor do que se tivermos de apanhar um comboio e fazer trinta quilómetros para ir ver Psycho de Hitchcock, como eu fazia em miúdo. Era bom aproveitar a atual facilidade de acesso para informar-se e para ver os filmes com carinho e não só para os acumular num disco.

A.R.B.- Marrowbone já passou por muitos festivais: os Goya em Espanha, Toronto, San Sebastián, Cannes, Porto. Qual o significado dos festivais para os realizadores e os filmes?

S.G.S.- Cada festival é diferente. Eu adoro festivais do tipo do Fantasporto, Géradmer, Sitges e passo-o bem em Cannes, Toronto ou San Sebastián, mas também há qualquer coisa de obscuro nos festivais. Onde antes a função essencial dos festivais era dar a conhecer novos trabalhos que seria difícil descobrir de outra maneira pela quantidade de volume que há, agora começa-se a construir uma tolice onde se dá valor àquilo que não o deveria ter necessariamente. Os Goya, por exemplo, passaram a ser um espetáculo de moda com atuações humorísticas e reivindicações, o que pode estar muito bem sempre e quando não se esqueça o cinema. O facto é que depois de mais de três horas de gala não sabemos nada dos filmes em competição porque dedicam só dois minutos de clip aos cinco filmes nomeados em cada categoria. Acho isto gravíssimo, em particular para o cinema espanhol que tanto precisa de promoção e que tanta riqueza de géneros, vozes e olhares tem. Esse tempo deveria ser utilizado para apresentar os filmes e possibilitar a cada espetador encontrar o filme que quer ver.

A.R.B.- Os festivais geram também opiniões e crítica…

S.G.S.- Acontece em alguns festivais que, ao fazer antestreias, favorecem a produção de opiniões ou críticas que condicionam o espectador. Para isto colaboram também as redes sociais, que colocam etiquetas sem ter em conta que um filme não se faz para ser consumido num tweet. Acho importante o espectador dar importância à sua visão. Um filme é como uma emissora de rádio e é preciso estar sintonizado com ela. No caso de Marrowbone, as reações dos espetadores estão muito polarizadas, há quem gosta muito e fica emocionado e há quem detesta. Alguma falha haverá no filme para não conseguir chegar a eles ou, se calhar, é a defesa da inocência e a presença de outros mundos o que irrita alguns profundamente. Relativamente à critica, eu penso que a capacidade de criar, mesmo a partir da ruína, é o que de melhor tem o ser humano, e quando se decide dirigir essa capacidade criativa a falar de criações alheias, tem de se ser realmente extraordinário para que o resultado tenha alguma utilidade. Há poucos críticos atualmente que falem com conhecimento, carinho e paixão pelo cinema, e está-se a impor uma figura que parece sentir-se para além do bem e do mal e cuja opinião pensa ser mais importante que o próprio filme. Qualquer filme, por fraco que seja, só pelo esforço titânico que é necessário fazer para concretizá-lo, sempre terá mais valor que uma opinião depreciativa que tente anular o seu talento. Penso que devemos ser cautelosos. Atualmente vivemos um momento em que o que está a dar é valorizar, julgar, colocar estrelas e contabilizar seguidores e não é por chegar a mais que se chega mais fundo. Penso que cada filme tem o seu espectador e que o papel da crítica não deveria ser valorizar, mas antes dizer que tipo de filme é para que o espetador decida, com a sua inteligência e independência, se é ou não um filme para ele.

A.R.B.- Tem algum projeto a curto prazo?

S.G.S.- Muitíssimos. Agora estou com seis coisas diferentes, mas o cinema é um bocado manhoso e as coisas mexem-se muito rápido, num instante cai o financiamento de um filme e o projeto que pensavas ser o mais rápido de concretizar fica arrumado dois anos, ou liga um dia o agente e diz que um ator ou realizador viu o teu trabalho e quer começar logo algum projeto, de maneira que até estarem assinados todos os papeis não se sabe realmente qual vai ser o trabalho a seguir. Contudo, são tantos os anos a tentar realizar que tenho a gaveta cheia de guiões por isso não sei se será algum desses a sair ou pelo contrário serão coisas novas que estou a escrever agora e onde há absolutamente de tudo, desde comedias até filmes do género fantástico e… também há um musical que gostaria de fazer.

A.R.B.- Permite-lhe o sucesso de Marrowbone fazer planos com mais liberdade?

S.G.S.- Sim e não. Não acredito nos grandes planos. Com os anos percebemos que as coisas que acabam por marcar o resto da tua vida a maior parte das vezes são acidentais, como aconteceu no meu caso quando O Orfanato acabou nas mãos de J. (Bayona). O que conta é trabalhar e amar o que fazes, não perder o entusiasmo e se aparecer a oportunidade, abraçá-la. Se um projeto demora em chegar é porque tens ainda coisas que aprender, porque ainda não chegou o momento de concretizar. O filme que fiz agora com quarenta anos não se parece em nada com aquele que teria feito aos vinte acabado de sair da escola de cinema. Tinham de acontecer as coisas que me aconteceram para poder ver uma história de fantasmas com a seriedade e a emoção com que a vejo agora.

A.R.B.- É Marrowbone uma história familiar?

S.G.S.- Mais do que uma história de família para mim é uma história de amor, uma história de amor de terror, fala do valor do amor, não tanto como amor romântico, que também aparece no filme com Jack e Allie mas, sobre tudo, como amor fraternal que é o que cria vínculos inquebrantáveis, isto no sentido em que as pessoas que amas configuram o que tu és, desenham a tua personalidade. Se o amor fraternal é a luz, a sombra é essa fissura que deixa entrar o ódio onde deveria estar o amor. Nada há de mais terrorífico do que o teu maior inimigo ser a pessoa que deveria tomar conta de ti. Funciona em termos muito elementais, é quase como um conto de fadas dos Irmãos Grimm onde as coisas são muito simples. Estes elementos são necessários para chegar onde eu quero chegar no filme, que acaba num território irreal que toca o subconsciente e fala de outras coisas não tangíveis. Para chegar tão fundo tens de te agarrar a elementos muito básicos e reconhecíveis para todos.

A.R.B.- É a música um elemento narrativo reconhecível?

S.G.S.- Todos os elementos que há num filme são narrativos mas a música em particular. Para mim também tem um valor sentimental porque quando era miúdo tínhamos em casa um gira- discos e um dos primeiros presentes que pedi foi a banda sonora de E.T. de John Williams. A partir desse momento fiquei fan da música de cinema porque para mim era como voltar a ver os filmes, pode ser difícil de perceber hoje, mas na altura os filmes eram muito marcantes, chegavam, eram projetados e desapareciam. O que se vivia no cinema era uma experiencia vital que pensavas não poder repetir. Para mim a música tem um poder narrativo especial pois era através dela que eu voltava a reviver os filmes. Eu tinha um professor de música da OSPA, a Orquestra Sinfónica do Principado de Asturias que interpreta a banda sonora de Marrowbone, que nos oferecia bilhetes para assistir aos concertos, e quando na obscuridade do teatro a orquestra começava a tocar eu, inconscientemente, começava a imaginar a minha história. Sim, a música sempre tem sido para mim uma ferramenta de narração e assim a quis utilizar no filme. Em Marrowbone a cada personagem corresponde um instrumento, um bocado à maneira de Pedro e o Lobo de Prokofiev. Se ouvirmos só o disco quase que se pode perceber a história. Há dois temas centrais, o tema de amor de Jack e Allie e o tema da família que, em certo modo, acabam misturando-se e convertendo-se no tema de Marrowbone.

A.R.B.- É Allie uma personagem mais de conto de fadas que de conto de terror?

S.G.S.- Para mim o conto de fadas e o conto de terror são a mesma coisa. Se lermos qualquer conto dos Irmãos Grimm vemos que a doçura vai sempre acompanhada do maior dos terrores. Agora habituamo-nos a proteger muito as crianças, mas o interessante dos contos de fadas é que levam a espaços muito obscuros, são na realidade muito cruéis e esse terror que produzem é a ferramenta que vai ajudar a lidar com a obscuridade que por vezes traz a vida. Allie é as duas coisas, uma personagem de filme de terror e uma personagem de conto de fadas. Como tudo neste filme tem um elemento simbólico, Allie é a guardiã dos contos, trabalha numa biblioteca criada por ela e, nesta função de custodiar os relatos, acaba por se converter na cuidadora de outro relato fictício, o que faz dela una personagem quase metanarrativa. É a personagem que toma conta das personagens.

A.R.B.- Para terminar e por falar da interação entre as personagens, acha possível o diálogo com os fantasmas para além da infância e da loucura?

S.G.S.- Com certeza. Eu acredito mesmo no que aparece no filme. Acredito sinceramente que há vínculos que permanecem após a morte e acredito que há pegadas que não se apagam. Não está na moda falar destas coisas e colocam-se etiquetas baratas ou ridiculizam-se, porém, faço sempre a mesma pergunta quando alguém pretende dar uma explicação cientifica de absolutamente tudo o que acontece na vida e remito-me aos sonhos, algo que todos experimentamos: com que olhos vês quando sonhas?

O cinema é para mim o mais parecido que há a um fantasma, o que vemos não é tangível, é resultado de uma ficção, é só luz e som, não tem corpo, aparece e desaparece no meio da escuridão, não pertence ao mundo material, mas as suas mensagens e emoções são reais, permanecem, são imortais e não nos abandonam.

Esta entrevista foi realizada e cedida por Alegría R. Beltrán durante a Sessão de Abertura do 38º Fantasporto. O vídeo e fotografia é de Pablo N. Casillas.