O filme vencedor da 38ª edição do Festival de Cinema Fantástico do Porto é da autoria do realizador canadiano Robin Aubert, que arrecadou ainda o prémio de melhor realizador. O filme caiu nas graças do júri, porém, não consigo vislumbrar nele a origem dos sentimentos que levaram à atribuição destes prémios.

Se não lêssemos a sinopse antes de entrarmos na sala, ficar-nos-ia muito difícil localizarmo-nos no filme. O filme não possui uma cartografia. O espectador é enfiado no meio de um espaço que não tem sintomas de pós-apocalíptico senão pelos comportamentos canibalescos que nos vão aparecendo nas imagens. No meio destes ataques feitos directamente à carne dos corpos que aparecem, notamos que alguns corpos sobrevivem, reúnem-se em algum ponto da trama e lutam pela sua sobrevivência. Mas, não passam de corpos, ainda lhes falta uma interioridade, uma espessura psicológica que torne os corpos em personagens.

O espectador procura a origem daqueles eventos em vão, ela não nos é dada em momento algum. Não é que seja uma exigência ou regra para fazer um bom filme, pois poderíamos muito bem ter um filme como um puro meio, um corpo fílmico em estado de dança; mas, isto não acontece. Para ser esse puro meio, a dança deve conseguir tocar-nos pela beleza dos seus movimentos expressivos. O filme pretende dar esse corpo estético dançante através da fotografia, extremamente cuidada, com as composições dos planos bastante trabalhadas: os corpos dispostos pelo plano com rigor, a neblina que se adensa por entre o verde da paisagem, um amontoado de cadeiras inserido nessa paisagem que cresce em direcção aos céus, etc. A dança é, sobretudo, expressão através do corpo, e se este filme tem um corpo embelezado que vem dançar em frente aos nossos olhos, em momento algum esse corpo exprime mais do que a aquilo com que o seu corpo foi embelezado. Esse corpo não remete para si mesmo para lhe acompanharmos as mudanças, as dinâmicas, a extrema rapidez ou lentidão. Ele remete para aquilo que em si encobre o que lhe falta. Por outro lado, é certo que esta dimensão única do filme cativará, com certeza, os espectadores mais tecnicistas que enviam o seu olhar mais analítico para os pormenores fotográficos e aí permanecem num estado de encantamento.

Um filme deve possuir carne, algo que faça com que ele não voe com a mais pequena ventania. O formalismo actual que vem ganhado força nos nossos tempos aceita e resigna-se a esse vazio interior dos filmes achando que o esteticismo poderá ser uma forma de salvação. Considero que existem filmes não figurativos, que pretendem fazer abstracções a partir da imagem que funcionam, na medida em que nos tocam. O cinema não se reduz ao classicismo com que se elaboravam as histórias e as personagens funcionais, que lhe eram submissas; hoje estamos num novo patamar, as artes perderam as fronteiras e contaminam-se umas às outras, e isso é bastante positivo. As personagens podem ser mais vivas, mais activas psicologicamente, podem perder-se na contemplação, sem permanecerem sempre no frenesim da acção. Porém, tudo isto, todas estas transformações nunca retiram a essência da experiência artística, o toque, a emoção, a comunicação.

Neste filme não encontramos esse núcleo. Há uma espécie de autismo que fecha a obra em si mesma, não dando espaço para que ela comunique e dê algo para fora de si. Seria aceitável este autismo se vislumbrássemos nele uma pura experiência pessoal que tocasse apenas por percebermos que uma dimensão extremamente íntima estaria a ser levada a cabo. O filme não possui comunicação com o exterior, não sai de si, não chega a nós. Chegam-nos os quadros, composições plásticas, uma série de elementos visuais que pretendem possuir uma beleza que baste para o todo do filme.

Contudo, o cinema é também algo em processo, e este só se dá quando os criadores estão dispostos a arriscar e a experimentar. Aubert lançou-se um novo desafio, correu o risco, mas, dentro de mim a sua experiência não provocou alguma ressonância. Porém, acredito que o filme irá dividir os espectadores e haverão partes cinéfilas fascinadas com a ousadia e o formalismo do filme. Gosto de filmes lentos, gosto de filmes que pretendem criar a diferença, mas gosto, sobretudo, de filmes cuja beleza emane de algo muito sincero que ele possua: se não nos deixar entrar, que nos faça pensar; se nos puxar para dentro dele, que nos toque, nos torça, nos emocione.

Realização: Robin Aubert
Argumento: Robin Aubert
Elenco: Marc-André Grondin, Monia Chokri, Charlotte St-Martin
Canadá – 2017
Horror/Drama
Sinopse
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«Les Affamés» - Quando o filme é já o zombie e nenhuma alma lhe anima a carne
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