Depois de “João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que eu Amei” (2014), Manuel Mozos estreia “Ramiro”, uma comédia que segue Ramiro, um alfarrabista e poeta, numa Lisboa decadente, e o seu bloqueio criativo. É um regresso à ficção depois de dez anos a fazer documentário.

Uma comédia descrita como ‘delicada’, “Ramiro” é um filme sobre uma Lisboa recôndita e antiga, à qual Mozos filma com a mesma abordagem de obras anteriores: a câmara é o baú onde se guardaram as memórias fotográficas. Pode ser assim, o cinema: um documento histórico. Ele expressa um contexto histórico, social, político, etc., através da imagem, em segundos, minutos e horas, e consequentemente apontar para o problema da temporalidade

É deste fascínio pela ruína, pela decadência e pela memória que se constrói a essência de Manuel Mozos, o cineasta. Esta fixação parte também do trabalho feito no ANIM, onde Mozos identifica, restaura e preserva obras em película, depositadas em arquivo.

Advém disto então, um lado nostálgico no cinema de Mozos. Há sempre também uma necessidade de proteger as ruínas do cinema português. É este o seu caso de estudo: a sua história, as suas correntes, a sua produção, apresentação e distribuição e, principalmente, a sua desmistificação. Como realizador as suas teses são: “Lisboa No Cinema, Um Ponto De Vista” (1994), “Cinema Português?” (1997), “Cinema: Alguns Cortes I, II e III” (1999, 2014, 2015), “Olhar o Cinema Português: 1896-2006” (2007), “Tóbis Portuguesa” (2010), “João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que eu Amei” (2014) e “A Glória de Fazer Cinema em Portugal” (2015).

Apresento aqui três obras essenciais, todas disponíveis para visualização na Filmin Portugal:

Ruínas (2009) – Apenas ficam os fragmentos

Não tanto pelo cinema, mas sim pela arquitetura e pelo urbanismo, Ruínas é uma sucessão de imagens em movimento sobre espaços que o país esqueceu, mas que não desapareceram. Composto por longos planos fixos de edifícios degradados, leva o espectador à contemplação, silenciosa e uma revisita ao um passado recente, ao longo dos 60 minutos do filme. É nesta decadência que Mozos vê florir uma memória.

Ruínas recebeu o prémio Tobis de Melhor Longa-Metragem Portuguesa na edição de 2008 do IndieLisboa, o prémio da competição internacional do festival FidMarseille e uma menção especial do júri do Filminho – Festa do Cinema Galego e Português.

A Glória De Fazer Cinema Em Portugal (2015) – O Cinema é uma Memória?

Produzido pelo Festival Curtas de Vila do Conde, a curta tem como premissa uma carta escrita por José Régio, em 1929, a Alberto Serpa, manifestando a sua vontade de criar uma produtora de cinema. O desfecho deste pedido nunca chegou a ser conhecido durante quase noventa anos. José Régio foi uma figura significativa na divulgação do cineclubismo: teve um papel importante no Cineclube de Portalegre, criado nos anos 60. Também travaria amizade com muitos intelectuais da 7ª Arte, nomeadamente com o Mestre Manoel de Oliveira.

“A Glória De Fazer Cinema Em Portugal” ganhou a Menção Honrosa no Festival Caminhos do Cinema Português, em 2015.

João Bénard Da Costa: Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei – A vida para além da vida

João Bénard da Costa foi ator, produtor e crítico de cinema, porém o trabalho que lhe glorificou foi ter dirigido a Cinemateca Portuguesa por quase 20 anos. Deixou-nos em 2009, com 74 anos. Mozos tratou de fazer renascer a sua memória, com um documentário construído a partir de uma montagem de excertos de escritos de Bénard da Costa publicados nos jornais “O Independente” e Público, alinhados com imagens de arquivo – visitas a lugares marcantes da sua vida e cenas de filmes em que entrou como ator (como o Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira)

Não conta muito da vida pessoal de Bénard, mas é um filme intimista que mostra que o cinema era o centro do seu mundo. “João Bénard Da Costa: Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei” ganhou o Prémio de Imprensa ao Melhor Filme e a Menção Honrosa do Prémio Dom Quixote no festival Coimbra Caminhos do Cinema Português, em 2015.

 

Manuel Mozos nasceu em Lisboa, no ano de 1959. Estudou História e Filosofia, e frequentou o curso de Cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora. Ao longo da sua carreira, trabalhou como montador, assistente de realização, anotador, argumentista e ator em filmes e portugueses e estrangeiros. Realiza o seu primeiro filme em 1989, com o nome “Um Passo, Outro Passo e Depois…”, e inicia uma filmografia que contém ficções, documentários, longas e curtas-metragens, obras institucionais e videoclips. Atualmente trabalha no ANIM – Arquivo Nacional da Imagem em Movimento, pertencente à Cinemateca Portuguesa.

Mozos e o seu cinema são uma testemunha de algo que deixou de ser o que noutro tempo foi. Mozos prova também que, proteger e zelar pelo cinema português é um trabalho moroso, com imensas responsabilidades e angustiante por lutar contra o tempo e contra a corrente de mentes. Mas tudo compensa no fim.