Guardo uma memória de infância que lembro sempre com grande carinho e admiração. A casa onde cresci, tinha no piso térreo, um atlier onde eu ficava a olhar para os meus avós a costurar. Eu era criança e ficava perto deles, entretido com os meus brinquedos. Nunca fui uma criança muito irrequieta, e eles não precisavam de grandes preocupações, pois sempre preferi observar as coisas e isso talvez seja a principal fonte da minha imensa paixão pelo cinema, assim como também me ajudou a gravar todos estes momentos que recordo ainda com bastante nitidez. Enquanto o meu avô se sentava na máquina de costura e, com um olhar minucioso, cosia as bainhas dos fatos que lhe encomendavam, a minha avó fazia alguns arranjos e bordava em lenços, panos e toalhas todo o tipo de formas rendilhadas.

Pois bem, o frenesim que vemos em certas cenas do filme são reais. Existe um cuidado extremo na entrega perfeita da encomenda ao cliente. Nenhum tecido pode ter o mínimo vestígio de sujidade; nenhuma linha solta ou fora do seu alinhamento. Toda esta dedicação e cuidado extremos que envolve cada um dos trabalhadores em volta de um vestido provem da elevada exigência das classes sociais que eram vestidas por eles. Imagine-se a competitividade simbólica – como demonstração de poder – que existia numa luxuosa cerimónia burguesa, onde todas as roupas e ornatos absorviam para si os olhares que os circundavam. Sob esta exigência de perfeição nascem criadores como Reynolds Woodcock; porém, seria injusto reduzir essa sua vontade de perfeição a algo exterior. Existe algo dentro desses criadores ao qual eles se entregam com todas as suas forças. O filósofo italiano Giorgio Agamben refletiu sobre o conceito de Genius. Agamben usa a expressão latina indulgere Genio, para dizer que devemos condescender a esse genius que em nós cria, entregar-lhe o nosso corpo e alimentar o mais pequeno capricho que em nós aparece, mas que de genius emana. Reynolds Woodcock é esse criador totalmente absorvido pela sua arte e que percebe que algo dentro de si precisa ser alimentado, sob pena de esvaziar a sua identidade que foi moldada ao sabor da sua arte. Por isso, as mulheres que estão por perto, devem aceitar submeter-se às suas rotinas que são os pilares que sustentam a sua alucinação de perfeição. Alma é a nova mulher que entra na sua vida e que, apenas numa primeira impressão, nos parece maximamente submissa: silenciosa ao pequeno-almoço; calando todas as suas vontades cuja expressão poderia ser já uma fonte de perturbação para Reynolds.

Alma passa a ser o seu modelo preferido, mais um manequim que ele dispõe. Ela é mais um objeto no meio de todas as rotinas de criação do estilista. Mas, Alma percebe esta sua condição de submissão e cabe-lhe desfazer a alucinação de superioridade e trazer Reynolds até um patamar onde consiga ver que as pessoas à sua volta, que giram em sua órbita, na verdade não lhe pertencem. Alma consegue retirar Reynolds da sua ascese alucinatória ao mostrar-lhe a vulnerabilidade do corpo humano, através de pequenas doses de veneno. Só num estado débil, Reynolds ganha uma nova consciência e começa a perceber que afinal as pessoas que o rodeiam não são seus meros servos ou empecilhos no seu processo de criação.

Paul Thomas Anderson mostra-nos, através de Alma, como dar uma nova consciência de igualdade àqueles que vivem demasiado tempo num estado alucinatório de uma individualidade pura. A solidão é sempre vencida pelo pulsar da própria vida, porque essa solidão não escapa a um plano de imanência onde convive com todos os outros seres, os outros pedaços de vida frágil cujo cada instante de tempo da sua duração é apenas um meio termo entre o próximo instante ou instante nenhum. É este instante que representa a igualdade, a vida num plano de imanência, os cogumelos com pitadas de veneno que nos fazem oscilar entre a vida e a morte. Assim, Reynolds redescobre o Outro e entra numa nova fase de consciência. Aquilo que lhe é exterior já não é apenas matéria ao seu serviço, mas ele próprio é também matéria frágil, vulnerável, moldável.

O filme traz dentro de si a relação complexa de poder entre a força apolínea do criador, que se separa do mundo e o sonha como se ele lhe pertencesse, e a força dionisíaca que estilhaça todas as pretensões de individuação e liberta o indivíduo do seu centro cerebral, controlador e apropriador, devolvendo-lhe o mundo que nunca foi seu, mas que desde sempre partilhou com os outros corpos, ávidos por vida.

Esta dupla face impulsiva da criação está magistralmente representada por Daniel Day-Lewis – nomeado para o Óscar de melhor actor -, cuja organicidade da sua expressão permite-lhe uma oscilação perfeita entre o homem todo poderoso, na plena posse de si até ao homem frágil, que precisa do toque da mão de Alma para saber que ainda vive. A actriz Vicky Krieps possui um rosto angelical, que não anuncia nenhuma tempestade, mas que, com a sua calma – também esta perfeita -, a trabalhar em conjunto com um lado negro inusitado, consegue virar do avesso a nossa percepção daquilo que parecia uma relação condenada ao esmagamento de uma das partes. Lesley Manville, que recebeu também uma nomeação para Óscar, é a irmã de Reynolds que possui a mesma fibra forte de personalidade, não precisando de muito histrionismo para dar a ver a força do seu carácter.

“Linha Fantasma” é um filme que mostra, de uma forma sublime, como os grandes criadores são completamente apaixonados e obstinados pela sua arte. Esta dedicação extrema à sua arte, chega ao ponto de uma solidão crónica voluntária, com a intenção de uma imperturbabilidade tão completa, que a paixão e o amor pelo Outro aparecem-lhe como embaraços à sua plena realização enquanto artista; porém, vejo no filme um elogio ao amor e à entrega ao Outro, enquanto grande fonte de inspiração e, mais do que isso, a possibilidade de persistir na vida, pois só esta é a grande criadora.

RealizaçãoPaul Thomas Anderson
ArgumentoPaul Thomas Anderson
ElencoVicky KriepsDaniel Day-LewisLesley Manville
EUA/2017 – Drama
Sinopse
: Responsável pelas criações de moda mais distintas do pós-guerra, vestindo realeza, estrelas de cinema, herdeiras, socialites e damas com o estilo d’A Casa de Woodcock, Reynolds Woodcock e a sua irmã Cyril estão no centro gravitacional das elites. As mulheres entram e saem da vida de Reynolds em rodopio, providenciando-lhe inspiração e companhia, até ao dia em que que ele se cruza com Alma, uma jovem e perseverante mulher que rapidamente se torna uma fixação na sua vida, como musa e amante. Com uma vida até então muito planeada e controlada, Reynolds sucumbe e vê agora a sua vida despedaçada pelo amor.

«Linha Fantasma» - A perfeição e os seus pés de barro
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