O comunicado feito pelo estúdio Ghibli, a 5 de abril, sobre a morte do realizador japonês Isao Takahata, um dos gigantes da animação mundial, empobreceu muito a animação, o Cinema. O realizador morreu num hospital de Tóquio, onde tinha sido internado devido a um cancro do pulmão. Tinha 82 anos. Takahata foi, juntamente com Hayao Miyazaki, um dos fundadores da Studio Ghibli (em 1985), e deixou-nos uma obra de referência incontornável, delicada e humana.

A sua obra não é muito extensa, tendo realizado cerca de dez filmes e pouco mais de dez séries de televisão. No entanto o que criou é sublime e poético, demonstrando uma enorme sensibilidade para a realidade que o rodeava, e demonstrando sempre um enorme amor pelo ser humano e as suas relações. A sua técnica de animação focava-se muito no diálogo, no cenário e na observação do comportamento humano, o movimento. Foi uma grande referência para muitos outros realizadores, até para Miyazaki, que foi sempre muito mais reconhecido do que Takahata, que ficava em segundo plano.

O Cinema 7ª Arte seleccionou cinco obras fundamentais de Isao Takahata, quer do cinema, quer da televisão.

O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata (Japão)

A última obra de Takahata é uma obra-prima do cinema de animação. “O Conto da Princesa Kaguya” é um filme intemporal, que se inspira num conto tradicional japonês do séc. X, para prestar homenagem à humanidade, à vida e ao nosso planeta, mas também para recriar os mitos e tradições da cultura do Japão. É uma emocionante história de amor com um visual encantador e delicado. Esta animação é muito mais do que um “conto de fadas”. Faz uma reflexão sobre a nossa espécie. O trabalho de animação de Isao Takahata é deslumbrante. Um traço simples, mas com um toque delicado e colorido. Uma obra que transmite muito amor, pelo ser humano e pelas coisas que nos rodeiam, com um sentimento nostálgico e de saudade de que tudo acaba, tudo tem um fim. É a derradeira despedida do artista.

Pom Poko (1994)

“Pom Poko” é um dos filmes de Takahata que mais difere do resto da sua obra; o seu habitual realismo-poético mistura-se constantemente com um estilo mais cartoonesco e a magia dos contos folclóricos está constantemente presente, no entanto, Takahata acaba sempre por ser fiel ao seu estilo e o turbilhão de pequenas narrativas nunca perde o seu lado humano, emotivo e subtil. Este filme é uma ode à natureza num mundo cada vez mais alienado a ela, onde chaminés de fábricas substituem árvores e apesar do tema ser hoje bastante batido em todos os meios de entretenimento, em 1994 a mensagem passada em “Pom Poko” ainda não estava nem de perto nem de longe tão entranhada na nossa cultura popular. “Pom Poko” é um dos filmes de animação mais divertidos e completos da obra de Isao Takahata, por vezes infantil e inocentas e outras vezes violento e bizarro, mas é no balanço das duas faces que se encontrava o talento deste cineasta japonês.

Memórias de Ontem (1991)

Baseado numa série de tiras de banda-desenhada, “Memórias de Ontem” foge mais uma vez ao convencional estilo mais fantasioso para se focar numa narrativa e num desenho mais introspectivos, realistas e emocionalmente adultos, criando uma espécie de padrão para aquilo que é a obra de Takahata em comparação por exemplo com o seu parceiros dos estúdios Ghibli, nomeadamente Hayao Miyazaki. “Memórias de Ontem” troca a fantasia então pelas metáforas e pelos traumas. É uma janela cheia de empatia para a vida de uma jovem adulta japonesa, Taeko, que como muitas outras, procura encontrar o seu próprio ritmo e identidade numa sociedade maioritariamente tradicional. Saltando constantemente entre as memórias de infância dos anos 60 e a sua vida adulta nos anos 80 é uma maravilha ver Taeko ganhar cada vez mais afinidade com a sua própria identidade entre cenários pitorescos de um Japão tão convencional e rural. Estreado em 1991 no Japão, tornou-se no filme mais lucrativo do ano mas infelizmente disputas com a Disney levaram a que o filme não tenha tido a divulgação no Ocidente que outros filmes de Takahata tiveram, e só após a estreia de “O conto da Princesa Kaguya” e o anúncio do fechar de portas dos estúdios Ghibli é que “Memórias de Ontem” começou a receber alguma da atenção que merece na nossa metade do globo.

O Túmulo dos Pirilampos (1988)

Uma das maiores obras primas da Ghibli e do Cinema, este é certamente o filme mais marcante de Isao Takahata. O realizador nunca mais conseguiu replicar tamanho dramatismo e sentimento trágico em mais nenhum outro filme que tenha feito depois deste. Até hoje continua a ser um dos filmes de animação mais dramáticos de sempre, e um dos melhores e mais poderosos filmes de guerra alguma vez feito. “O Túmulo dos Pirilampos”, baseado em acontecimentos reais, durante o final da 2ª Guerra Mundial no Japão, é um conto sobre a guerra e a perda da inocência. É um filme que proporciona uma intensa experiência cinematográfica, tão real e verdadeira, através do olhar de duas crianças. São muito poucos os filmes que conseguem confrontar-nos com a dura e cruel realidade da guerra. Esta história dramática das duas crianças apela-nos de imediato à infância, memória e nostalgia. Um filme angustiante que não deixará ninguém indiferente, mesmo que a técnica da animação apele ao sentimento de inocência. É uma animação quase neo-realista, pelo extraordinário retrato da guerra (ou mesmo anti-guerra) e pela veracidade nos detalhes que todo o filme tem.

Heidi (1974)

É uma das séries de animação mais marcantes para as várias gerações que cresceram com ela. “Heidi” é dos primeiros trabalhos de Takahata a ganhar prestigio internacional. Curiosamente, dentro destas cinco propostas apresentadas, é talvez o seu trabalho menos japonês de todos. Ou seja, é o mais afastado da cultura japonesa, pois a ação passa-se na Europa, nos Alpes suíços, baseando-se no livro infantil com o mesmo nome, da escritora Johanna Spyri. Takahata via em “Heidi” o ideal perfeito do que deve ser a infância de qualquer pessoa, e inspirado nos filmes neo-realistas e com um olhar quase documental da vida daquelas personagens, cria um ambiente credível, verdadeiro e próximo de nós. “Heidi” foca-se sobretudo na realidade, na inocência da infância e na amizade, sendo ainda hoje um sucesso no Japão.

 

Escolhas e textos de Eduardo Magueta e de Tiago Resende.