Esta é a primeira longa-metragem de Sam Esmail. O realizador estreia-se com um romance sóbrio, que escapa às produções suas conterrâneas que repetem os mesmos clichés até ao infinito. 

A história situa-se num universo paralelo e centra-se na relação amorosa de um casal, Dell (Justin Long) e Kimberly (Emmy Rossum), na noite em que se conheceram, e nas suas separações e reaproximações, ao longo de seis anos.

A forma da representação flui naturalmente desde a matéria representada. Tal como a paixão do casal, a narrativa não se mantém linear. Toda a forma do filme acompanha perfeitamente esta falta de racionalidade que habita o âmago da vida emocional. A narrativa viaja de forma circular, com idas e voltas no tempo, pois só assim o realizador dá consistência ao onirismo que escolhe como forma de todo o filme. Os enquadramentos que atiram as personagens para as extremidades do plano e a coloração viva vêm intensificar o mundo quimérico que Sam Esmail imprime na sua história. Sem dúvida que é este seu formalismo que enriquece o filme, e que dá um tom poético e quase mágico a uma história aparentemente simples.

Esta forma consegue ir ao encontro do tipo de relação amorosa moderna, onde impera o sonho de um amor que dure e não tanto a vida básica; deseja-se o casamento como o laço que una um encontro raro e feliz, e não uma mera economia de sobrevivência, em que um tempo já viciado em rotinas e a gravidade dos dias acabam por exaurir das duas almas os seus sonhos mais queridos. Dell e Kimberly representam o casal moderno, que deseja fazer durar a intensidade daquele primeiro encontro, enquanto viam uma chuva de meteoros, num cemitério de Los Angeles. Esse local deixa-nos a dúvida se Dell foi mesmo salvo por Kimberly de um atropelamento ou se toda a história foi imaginada na mente de Dell, talvez induzida por um coma. Como se o cometa fosse a metáfora para uma fulguração intensa, mas breve. E, sendo assim, Dell talvez seja a personagem que contínua em acção sem se aperceber que já morreu, sendo Kimberly a sua última contemplação, a mais viva e real de toda a sua existência. 

O cometa pode ser também a imagem de um brilho que nasce da matéria ígnea e caótica que se vai consumindo, mas cuja intensidade é aquilo que permanece, como se o casal lutasse todo o tempo para, mesmo no meio do caos, manter o brilho que acaba por reaproximá-los. O próprio interior das personagens já anuncia esse caos. Dell é a mente analítica que não consegue deixar de levar todas as questões práticas para um nível mais transcendente de interpretação, de procurar significados nas coisas mais banais, porque ele pensa sempre nos próximos cinco minutos, e é esta projecção que cria nele os medos, as inseguranças e ansiedades; já Kimberly vive o presente e não procura muito as profundidades, e isso faz com que ambos sejam polos opostos, que se atraem e repelem: ele inteligente e negativo, ela positiva e a caminhar na superfície das coisas. Talvez seja esta tensão que consegue gerar uma energia que nunca esgota a admiração, o significado e o sentimento que foram construindo ao longo do tempo.

Esmail cria um romance que é filho do seu tempo. O amor torna-se uma fuga ao compromisso tradicional e transmuta para uma coisa indeterminada, que vive dos encontros felizes e do sonho em manter vivo e renovado o momento em que ambos descobriram que, durante o seu encontro, criou-se um instante que se quer alargar pela eternidade. E é nesse mesmo instante que ambos vivem, porque é ele que contém – e guarda como um tesouro – as palavras, os olhares, os pequenos gestos que ficaram gravados, de forma indelével, na memória de ambos.

A Inês, onde mora o meu instante que se eternizou

RealizaçãoSam Esmail
ArgumentoSam Esmail
ElencoJustin Long, Emmy Rossum, Kayla Servi
EUA/2014 – Comédia, Drama, Romance
Sinopse
: Situada num universo paralelo, a história de «Cometa» salta para trás e para a fente na linha de tempo, em seis anos de vida de um casal improvável, mas perfeitamente emparelhado.

 

 

 

«Cometa» - Um amor inteiro na forma de retalhos
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