“Les Quatre Cents Coups” (“Os Quatrocentos Golpes”, 1959) é a longa de estreia de François Truffaut, e é umas das obras pioneiras da Nouvelle Vague, uma nova estética de cinema criada na França, em 1958, como reação contrária às superproduções de Hollywood da época. A longa foi indicada ao Óscar de Melhor Argumento e deu a Truffaut o prémio de Melhor Realizador em Cannes, além da nomeação à Palma de Ouro. O jovem cineasta, com uma quase autobiografia, começava a carreira com o pé direito e fixava o seu nome na história do cinema.

“Les Quatre Cents Coups” segue Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), um aluno rebelde, que prefere vaguear pelas ruas de Paris a ir para a escola. Após sucessivos problemas na escola e em casa, resultado de uma relação conturbada com a sua mãe Gilberte Doinel (Claire Maurier) e com o seu padrastro Julien (Albert Rémy), o adolescente foge e acaba num reformatório depois de cometer pequenos furtos pela cidade.

É uma quase autobiografia no sentido em que há uma ponte que liga a ficção e a história de vida de Truffaut: sendo ele um órfão que por pouco não levou uma vida de marginalidade –este foi um dos caminhos possíveis do protagonista, que até tenta endireitar-se, mas acaba constantemente sendo levado de volta para um rumo errante.

Antoine vem de uma família de classe média, com condições de ter acesso à escolarização e profissionalização; enfim, um sucesso valorizado pela sociedade moderna. Entretanto, devido a conflitos no seio familiar, o rapaz abandona a disciplina e perambula pela marginalidade social, tornando-se assim, alvo da repreensão institucionalizada do Estado.

Truffaut carregou ao longo da sua vida as tristezas que teve durante a sua infância, marcando a sua carreira cinematográfica. Quando em adolescente, Truffaut refugiou-se nos livros, em especial nos de Balzac, e nas salas de cinema, para poder fugir do caos da sua família. O mesmo acontece com Doinel, que lê Balzac para fugir do desleixo dos pais. Atualmente, essa alienação não toma a forma de livros, mas sim de telemóveis, tablets, computadores – a sociedade contemporânea sofre com as tendências da solidão e do individualismo.  Nesta era moderna, os laços entre as pessoas têm probabilidades altíssimas de serem quebrados a qualquer momento, causando uma disposição ao isolamento social, onde as pessoas escolhem fazer uma rotina solitária – Antoine quebrou os laços com os pais e decidiu viver a sua própria vida, ao sobreviver de pequenos furtos pela cidade.

Testemunha-se o quotidiano de Antoine através de dois pilares: a vida na escola e em casa. A Escola Francesa, de onde Antoine faz parte, exclusivamente masculina, é bastante autoritária e marcada pelas técnicas de ensino bastante “atrofiadas” para a época. Os alunos não veem utilidade prática nos conhecimentos que devem ali absorver, revelando um baixo rendimento e comprometimento dos rapazes. Os professores, por sua vez, não acreditam no potencial dos alunos.

Quando chega a casa, Antoine encontra-se sozinho – tanto o pai quanto a mãe trabalham fora. Fica sempre responsável pela organização apartamento e de fazer as compras. Apesar disso, Doinel não reconhece a sua própria família em casa, já que os pais vivem uma rotina de discussões. Ao longo dos diálogos travados pelo casal, o rapaz percebe que está ali a mais.

Hoje, é facto universal que os adolescentes prestam atenção às emoções de seus pais para obter informações sobre como elas podem se sentir seguras dentro do agregado familiar. Quando os pais são destrutivos, há repercussões e danos colaterais para as crianças, a curto, médio e longo prazo. Com o advento da crise económica e financeira, as famílias experienciam dificuldades financeiras e um consequente mau-estar psicológico.

Estas repercussões são maiores entre crianças e adolescentes – estes enfrentam graves adversidades socioeconómicas e sofrem consequências que se arrastam ao longo da adolescência, passando para a idade adulta.

O emprego e o trabalho é feito fora da família também, hoje mais do que nunca. Também a tecnologia está bastante incorporada na família moderna – esta pode ser perigosa e afetar negativamente a união familiar, com os seus membros a dar mais atenção à tecnologia do que à relação humana (pais e filhos).

“Les Quatre Cents Coups”chega à sua sequência final e a mais emblemática da obra. Doinel foge do centro de correção e corre em direção ao mar. O jovem ansiava por ver o litoral e talvez entrar na Marinha. Na praia deserta, sob um céu nublado, Doinel tem assim o seu primeiro contacto com o mar. Molha timidamente os pés na água, e volta-se para a câmera e encara-a fixamente. Doinel não chegou ao final da sua busca e pergunta ao espectador o que ele acha que vai acontecer. Antoine tem um mar, uma grandiosidade de possibilidades. No entanto, sem os seus pais, sem um bom sistema educacional de base e sem sonhos, e com um Estado-Nação (Qual estado, qual nação?) que deixa para trás os seus cidadãos, Antoine vira-se para nós e pergunta-nos o que é que poderá fazer a partir daquele momento. Como todos nos perguntámos a qualquer momento da nossa vida. Les Quatre Cents Coups é um clássico moderno, que fala da juventude com uma pertinência certeira.