Nos dias de hoje, assistimos a uma crise política e social que cada vez mais faz ressurgir fascismos de toda a ordem. Com a eclosão da guerra em território sírio, muitos dos seus habitantes tiveram a natural necessidade de fugir da destruição que assola as suas vidas, diariamente. A Europa é o destino sonhado por essas pessoas e países como a Hungria, que tiveram sempre um grande fluxo migratório, lidaram com o fenómeno de uma forma extrema, com políticas de agressão. Kornél Mundruczó quis fazer um retrato do estado da sociedade húngara para que percebêssemos um pouco o contexto que faz emergir políticas anti-imigração tão duras.

Dois refugiados sírios, Aryan e o seu pai, Mourad, tentam passar a fronteira da Sérvia para entrarem na Hungria. Aryan é alvejado pelo director do campo de refugiados e descobre que tem o superpoder de levitar. Um dos médicos responsáveis pelo acolhimento de refugiados no campo, Dr, Stern, aproveita-se do superpoder de Aryan para ganhar dinheiro.

A premissa do filme é boa, pois entra numa temática actual, que cada vez mais se torna importante alcançar uma compreensão. Porém, ao longo do filme ficamos sempre com a sensação de que as faíscas imagéticas nunca dão origem a uma real combustão que inicie um movimento cinematográfico. A primeira faísca está na cena inicial, que nos leva a crer que estamos perante um filme que se centrará na expressividade dos rostos e nos gestos. Os refugiados estão a ser transportados num camião de transporte de aves e o realizador opta por mostrar os rostos apreensivos, o choro de uma criança, o cacarejar das galinhas. Mais tarde, apercebemo-nos que são os aspectos técnicos da imagem que estão a ser mostrados e não um filme em si. Vemos um prolongado e rápido travelling quando Aryan foge da polícia húngara, pelo meio dos bosques; vemos, várias vezes, o corpo de Aryan levitar em câmera-lenta; os planos-sequência abundam, principalmente nas cenas finais. Não devemos retirar o mérito da cinematografia, patente na elaborada fotografia do filme e na forma como o realizador usa a câmera; contudo, tudo isso acaba por eclipsar aquilo que as personagens vivem e sentem. O argumento acaba por ficar disperso. A relação entre Aryan e Stern dá-se por saltos, sem que tenhamos uma verdadeira percepção das transições afectivas que os aproximam. Todas as personagens acabam por cair numa vagueza por não conseguirmos sentir-lhes o pulso e sentir os elos afectivos que os ligam. A relação de Aryan com o seu pai é um exemplo, a certa altura o pai de Aryan deixa de estar presente, tanto dentro de Aryan como fora dele, aparecendo mais tarde, mas já desprovido de qualquer peso. A personagem de Aryan carece de um poder de luta e resistência, resignando-se por completo às vontades de exploração de Stern. Mas, neste filme, faltam, sobretudo, os acontecimentos que pudessem começar a fazer girar o filme numa dimensão temporal onde as personagens ganhassem um novo poder de acção que pudesse colocar tudo a girar numa lógica afectiva própria.

A ideia que preside o filme é boa, actual e merece ser dada a ver; no entanto, nem sempre a forma que se imprime nas ideias de filmes consegue captar a sua essência, que são os acontecimentos que as fazem respirar e aparecer aos nossos olhos pedaços que se ligam a esse todo que um autor pretende expressar. A nossa interpretação não necessita coincidir com a do autor, mas precisa de sentir que a matéria fílmica que aparece obedece a uma lógica, que nada tem de racional, mas que mesmo numa dimensão indizível permanece presente, pronta a ser sentida e traduzida pelas várias subjectividades que por ela se deixem afectar. Neste filme, faltou essa lógica e os pedaços ficaram demasiado dispersos, uma vez que a pulsação afectiva das personagens foi completamente engolida pelos artifícios técnicos da cinematografia.

RealizaçãoKornél Mundruczó
ArgumentoKornél Mundruczó
ElencoMerab NinidzeZsombor JégerGyörgy Cserhalmi
EUA/2017 – Ficção Cientifica/Drama
Sinopse
: Aryan Dashni é um jovem sírio que, para escapar às atrocidades da guerra no seu país, tenta passar a fronteira húngara. Ao ser descoberto por um guarda é baleado diversas vezes. Surpreendido, Aryan descobre que não morreu dos ferimentos e que adquiriu o poder de levitação. Colocado num campo de refugiados, o rapaz acaba por despertar o interesse do Dr. Gábor Stern, que pretende descobrir o segredo que lhe permite levitar. Fascinado com tudo aquilo e decidido a aproveitar-se do extraordinário dom de Aryan, o médico leva o jovem imigrante para Budapeste…

«A Lua de Júpiter» - Quando os artifícios técnicos engolem os afectos
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