“The Death and Life of John F. Donovan”, a sua primeira longa-metragem em inglês, chegará brevemente. Com Kit Harington como protagonista, a obra seguirá um ator de Hollywood que tem a sua vida transformada quando a sua correspondência com um menino de 11 anos é exposta. Jacob Tremblay, Natalie Portman, Susan Sarandon, Kathy Bates, e Adele também estão no elenco.

Antes desse, Xavier Dolan realizara outros 6 filmes. Antes disso, aos 6 anos, vira “Titanic” e decidira que seria cinema que iria fazer da sua vida.

Realiza o seu primeiro filme, uma longa-metragem, aos 20 anos – idade precoce –, um trabalho que contou com a sua realização, produção, financiamento e representação (escrevendo o argumento do mesmo aos 16 anos) e que foi baseado na sua experiência de vida. “Como Matei a Minha Mãe” traz alguns dos elementos que seriam constantes na sua carreira: a homossexualidade e os conflitos familiares. O filme conquistou os corações dos críticos de cinema e do júri de Cannes. Tornou-se num dos filmes mais vistos no Canadá e foi distribuído em mais de vinte países.

Xavier Dolan apresenta-se como um cineasta prematuro, mas com uma metodologia meticulosa de fazer cinema. Como uma peça de teatro, Dolan explora a profundidade cénica e a relação câmera-personagem. A música conquista também o seu lugar nas obras, com variações intensas de géneros, sensações e sentimentos. A diferença e o preconceito incomodam Dolan, e isso mostra-se na sua obra, que navega pelos vícios da sociedade.

Hoje, com 29 anos, já são muitos os prémios e as nomeações que teve no Festival de Cannes. Foi com “Mommy” que Dolan ganhou o Jury Prize. Com “Tão Só o Fim do Mundo”, o le petit grand realizador arrecadou o Grand Prize of the Jury e também o Prize of the Ecumenical Jury, além da nomeação para a Palma de Ouro.

O próximo passo será, então, Hollywood.

Como Matei a Minha Mãe (2009) – O protótipo.

“Como Matei Minha Mãe” segue Hubert (Xavier Dolan) e a sua mãe Chantale (Anne Dorval) numa tempestuosa relação de amor-ódio, que perde peso no decorrer da longa. É um filme cru, com alguns problemas de realização, naturalíssimo para uma longa de estreia. Com uma trilha sonora bem escolhida e uma direção de arte astuta, o que falha por vezes é o próprio enredo, que se torna arrastado e desgastante. A obra de Dolan é relevante por trazer uma profundidade que faz com que o espectador se lembre da tempestade que foi a sua adolescência, onde a sua mãe tanto tomava o lugar de farol como de penhasco. Chega-nos um protótipo do futuro Mommy.

Amores Imaginários (2010) – o Homem não foi feito para viver sozinho.

No seu segundo filme, Xavier Dolan traz uma jóia pop revestida com um estilo vintage, à luz de uma comédia leve, através de entrevistas que fazem com que o espectador crie ainda mais empatia pelo filme. A trama é centrada na paixão platónica entre Marie (Monia Chokri) e do seu melhor amigo Francis (Xavier Dolan) pela mesma pessoa, um rapaz do interior que acaba de se mudar para Montreal, Nicholas (Niels Schneider). Ainda com alguns erros na cadência narrativa do filme e no sentido estético, que cansa pela repetição, a evolução é evidente. Amores Imaginários explora o sentimento de idolatria por alguém que nunca é correspondido à altura, porque, no fundo, esse sentimento é puramente imaginário.

Laurence Para Sempre (2012) – É apenas natural.

Lançado em 2012, “Laurence Para Sempre” é um marco do cinema queer. Xavier Dolan voltava a realizar um filme escrito e produzido por si, assumindo também a montagem e os figurinos – desta vez opta por ficar atrás das câmaras. É a história de Laurence Alia (Melvil Poupaud), um professor de literatura, que vive com a companheira, Fred Belair (Suzanne Clément), uma assistente de realização. Os dois vivem um grande amor, eterno e absoluto. Até que Laurence anuncia à namorada que deseja tornar-se uma mulher. É a afirmação de Xavier Dolan enquanto cineasta, agora dono de uma estética própria e de roteiros originais, questionando os valores da sociedade, o amor independente do género e as relações pessoais.

Tom na Quinta (2013) – Os campos de milho que cortam como lâminas.

Um personal favorite, Tom na Quinta mistura o terror, o suspense, a paixão e a sensualidade no ecrã. Acompanhamos Tom (Xavier Dolan), que se aloja na casa de Guillaume, o seu namorado, e presenceia o seu funeral. Mas quando este chega, apercebe-se que ninguém sabe da relação que os unia, e tem de vestir a pele de outra pessoa, mantendo a ideia que a mãe tinha do filho ser heterossexual, muito por parte da pressão de Francis (Pierre-Yves Cardinal) irmão do falecido. O filme explora a relação de abuso entre Francis e Tom, homofóbico, que só consegue mascarar o desejo que sente pelo protagonista através de danças, meias palavras, lutas corporais e ameaças de morte, emprisionando-o na quinta, perdida no meio do nada, muito ao estilo das localidades rurais americanas. Ainda é um realizador em crescimento, demarcando-se da imagética hipster com que nos habituou nas obras anteriores – Dolan é também um sério autor de cinema.

Mommy (2014) – Anyway, Here’s Wonderwall.

“Mommy” divide o prémio do júri de Festival de Cannes desse ano com “Adieu au Langage”, de Jean-Luc Godard, e Dolan mostra um filme de impactos, colisões e conflitos. Nesta ficção científica, o governo canadiano aprova a lei S-14 que permite aos familiares abandonar os jovens problemáticos aos cuidados do governo a qualquer momento, sem contar com burocracia. Steve (Antoine-Olivier Pilon) é um adolescente violento que é expulso da escola, depois de incendiar a cafeteria e causar queimaduras a um colega. Recai sobre a sua mãe, a viúva Diane Després (Anne Dorval), mulher de emprego instável e não muito exemplar nos seus modos e gestos, a responsabilidade de ficar com ele em tempo integral. Fica uma das cenas mais líricas que surge no cinema desta década, ao som da Wonderwall dos Oasis.

Tão Só o Fim do Mundo (2016) – A queda de um anjo?

Filmado quase exclusivamente dentro de portas, “Tão Só o Fim do Mundo” partilha com “Tom na Quinta” o tema da visita. Louis (Gaspard Ulliel) é um escritor que regressa a casa depois de 12 anos de ausência, para contar à família que está à beira da morte. Lembra Ulisses de Homero: o regresso de um bem-sucedido e mudado filho à casa de uma mal-amada família. Adaptado de uma peça teatral escrita por Jean-Luc Lagarde, Dolan cria uma atmosfera opressiva e claustrofóbica, desdobrada em quatro blocos de texto, todos quase monólogos, nunca fluídos ou diluídos durante a longa. O seu estilo típico, com trilha sonora recheada de pop hits, cores saturadas, iluminação dramática, sequências de montagem-videoclipe e grandes planos, talvez comece a cair no banal.

De jovem prodígio a enfant terrible, Dolan recebeu as piores críticas da sua carreira, aquando da estreia da sua última longa: não houve grande consenso na atribuição do Grand Prize of the Jury em Cannes 2016 a “Tão Só o Fim do Mundo”, e o cineasta, por entre lágrimas e num discurso interminável, chega mesmo a dizer que pensara em não fazer mais cinema. Assiste-se à queda de um anjo. E resta-nos questionar: será Dolan merecedor de todo o frenesim que recebeu de Cannes e do mundo?

Mas como Ulisses regressou à sua Ítaca, matou os seus inimigos e reconheceu-se à sua fiel Penélope, Dolan regressará à “joie de faire des films”. O bom filho a casa torna.